Revista Sabe Bem 63

O centenário São João

O centenário São João

Entre os emblemáticos espaços de teatro da cidade do Porto, tantos e com tão imponentes edifícios, é inevitável o destaque ao emblemático Teatro Nacional São João, encerrado desde março passado para obras de reabilitação. Dono de uma história ímpar e visitado por milhares de cidadãos, entre portugueses e estrangeiros, foi no palco deste edifício, situado na Praça da Batalha, que se apresentaram os espetáculos mais icónicos e se deram a conhecer um número sem fim de autores, atores e encenadores.

Mas, nem sempre o Teatro Nacional São João foi conhecido pelo nome que hoje detém. Antes, couberam-lhe outras designações como Real Teatro de São João, Teatro de São João e São João Cine. Entre um incêndio, uma programação ligada à exibição cinematográfica e uma aquisição do Estado, as razões são várias…

Inaugurou a 13 de maio de 1798, há precisamente 223 anos, como Real Teatro de São João, sendo, como recorda o agora TNSJ, o “primeiro edifício construído de raiz no Porto exclusivamente destinado à apresentação de espetáculos”. Projetado por Vicenzo Mazzoneschi, arquiteto e cenógrafo italiano, viria a ser destruído mais de um século depois, na fatídica noite de 11 para 12 de abril de 1908.

“Pela meia-noite, ao mesmo tempo que as máquinas de incêndios nos passavam à porta, velozes, rebentava nesta redacção a desolante notícia de que um violento incêndio lavrava no Teatro de S. João. E dentro de poucos minutos, as rubras lavaredas, espreguiçando-se no espaço de envolta com densos novellos de fumo, deram-nos a triste convicção de que, a despeito dos esforços dos bombeiros, em poucas horas nada restaria do nosso primeiro teatro. A cidade moveu-se d”alarme, correndo milhares de pessoas para a Batalha (…). Um murmúrio de pesar escapava-se de todas as bocas. Quando o nosso jornal entrar em circulação, daquelle autêntico templo d”arte – onde radiaram tantas glórias da scena lírica durante duas ou três gerações -, não haverá mais do que esboroadas e derruídas paredes”, noticiou, na época, o Primeiro de Janeiro.

Um acontecimento que deixou uma grande onda de tristeza na cidade e na região Norte do país e cujos relatos de dor e angústia marcaram as agendas noticiosas: “É desolador o aspeto do edifício, do qual apenas restam as paredes e através de cujas portas e janelas se descortina a enorme ruinaria em que ficou transformada a nossa primeira sala de espetáculos”, terá relatado uma testemunha.

Na manhã do dia seguinte, apenas se vislumbravam os destroços de um teatro inteiramente consumido pelas chamas, em que, felizmente, não se registaram vítimas. Contudo, de acordo com fontes da altura, vários artigos terão desaparecido, nomeadamente “um piano Bechstein (onde o professor Roncagli tinha ensaiado, na véspera, alguns discípulos, e que deveria ser usado num concerto previsto para esse domingo), e também o guarda-roupa da ópera Madama Buterfly, que tinha estado em cena, além dos cenários de três outras peças”.

Um ano depois do trágico acontecimento foi lançado um concurso público para a reconstrução do edifício, do qual saiu vencedor o projeto assinado por José Marques da Silva, um dos nomes mais relevantes da arquitetura portuguesa, autor de alguns dos mais emblemáticos edifícios do Porto, entre eles a icónica Estação de São Bento. Segundo conta o TNSJ, no seu site, o arquiteto portuense terá convocado para o seu

projeto “um conjunto de formas e sinais que dialogavam com a memória do edifício desaparecido”. E, assim, “conseguiu conjugar os valores de ostentação com os valores de eficácia, integrando com sucesso os aspetos puramente arquitetónicos e os construtivos”.

A cidade do Porto inaugurava oficialmente o Teatro de São João, no preciso lugar onde perdeu o antigo, 7 de março de 1920, uma data histórica, que assinalou, no ano passado, o seu centenário. Doze anos depois, o equipamento cultural voltaria a estar de novo nas luzes da ribalta, depois de ver o seu nome alterado para São João Cine. Acompanhando a “decadência da atividade teatral na cidade”, passou a dedicar “a maior parte da sua programação à exibição cinematográfica”.

Em novembro de 1992, o teatro foi adquirido pelo Estado Português, com a designação oficial de Teatro Nacional São João, e uma década depois, em 2012, foi reclassificado como monumento nacional. Durante esse período, foi “restaurado, remodelado e reequipado” e voltou a ter uma programação regular, proporcionando assim à cidade e à região Norte “um projeto com personalidade artística própria”.

De maio de 2013 a setembro de 2014, o São João sofreu também uma “intervenção de restauro da envolvente exterior do edifício”, tendo sido realizadas “operações de limpeza, restauro e pintura das fachadas, reforços estruturais, reabilitação das coberturas e reparação dos elementos ornamentais”.

Importante referir que o Teatro Nacional São João inclui outros dois polos, nomeadamente o Teatro Carlos Alberto e o Mosteiro de São Bento da Vitória.

A nova temporada do São João

A reabertura do Teatro Nacional São João está marcada para a segunda quinzena de outubro, confirmou o presidente da instituição, Pedro Sobrado. Até lá, a sua atividade na cidade continua no palco do Teatro Carlos Alberto (TeCA) e do Mosteiro São Bento da Vitória e “fora de portas”, em Bragança, Cabo Verde, Espanha e Luxemburgo.

A nova temporada do São João iniciou a 22 e 23 e abril e inclui uma dezena de apresentações, nomeadamente cinco estreias – duas das quais produções próprias, três espetáculos internacionais e quatro coproduções.

Entre os espetáculos, destaque para a peça “Espectros”, uma encenação de Nuno Cardoso, diretor artístico do espaço, a propósito da obra de 1881 do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. A produção, em cena até 6 de junho, conta com a interpretação do elenco “quase” residente – Afonso Santos, Joana Carvalho, João Melo, Maria Leite, Mário Santos e Rodrigo dos Santos.

Em colaboração com Rodrigo Santos, Nuno Cardoso apresentará também “Sono”, um espetáculo dedicado ao público mais novo, com idades compreendidas entre os 6 e os 9 anos, e que apela à participação das crianças para ajudarem a construir a peça com os

seus “poderes” da invenção. A estreia aconteceu no antepenúltimo dia de maio e repetir-se-á a 4 e 5 de junho. Nos dias 1 e 3, será apresentada nas escolas.

No feriado de 10 de junho, data em que se assinala o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o Mosteiro de São Bento da Vitória recebe a peça “KastroKriola”. Baseada na encenação de “Castro”, a peça estará em cena até ao dia 12, rumando depois a Cabo Verde, para apresentações nos dias 25, 26 e 27 de junho e 3, 4 e 5 de julho, respetivamente, no Centro Cultural do Mindelo e no Auditório da Assembleia Nacional – Praia.

O programa completo está disponível para consulta aqui.

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