Revista Sabe Bem 70 - PD

Turismo e património: Tornar o país mais habitável e poético

Turismo e património: Tornar o país mais habitável e poético

Habitar uma cidade, é ser habitado pela cidade e ao mesmo tempo lutar com ela, apropriar-se e ser apropriado, num conflito enriquecedor e permanente.
Jean Hurstel, Réenchanter la Ville

Hans Cristian Andersen escreveu, em 1866, no relato da sua estadia entre nós: «Voará muitas vezes o meu pensamento, para o belo país que é Portugal». (1) É, creio, dos mais amáveis elogios feitos ao nosso país por um estrangeiro, vindo, sobretudo – na plena acepção do conceito -, de um turista ilustre. Os livros de viagens sete e oitocentistas constituem, aliás, repositórios magníficos de perspectivas e comentários sobre a sociedade portuguesa, por conterem descrições não raro precisas, claras e compreensivas da personalidade dos lugares visitados. Não deixam, no entanto, em certos casos, de incluir comentários fantasiosos de odisseias em território nos confins do mundo, espécie de equívoco entre o atlântico, o mediterrâneo e as áfricas. E, ainda por cima, habitado por gente um tanto bizarra. Nós!

Foto: Carlos Raul

Visitar o país! Princípio tão elementar na actualidade em que os visitantes chegam aos milhões quanto, durante séculos, foi difícil ou, até, inacessível à generalidade dos estrangeiros, que só movidos por grande curiosidade (e alguma coragem, pois ou chegavam de barco ou atravessavam a incógnita espanhola), atingiam a porção última, ocidental e longínqua do continente europeu. Mas que os estrangeiros nos desconhecessem ou ignorassem por razões geográficas e ausência de informações ainda poderíamos entender. A questão fulcral é que o mesmo – ou pior – se passava com os nossos patrícios. De tal forma que, em 1854, Alexandre Herculano afirmava desapontado: «… o país da Europa mais desconhecido entre nós é, sem dúvida, Portugal!» (2)

Meio século mais tarde, Adolfo Portela, nenhuma diferença notava em tal situação. Pelo contrário, o hábito ou prazer de viajar, praticado por alguns nossos compatriotas, continuava a decorrer à revelia ou, quando não, com menosprezo pelo país. Escrevia aquele autor: «Porque a coisa é esta: – o português não viaja; e, se viaja, possui-se do dever de ir a toda a parte, menos a Portugal. A bem dizer, só lá vai, quando o reumatismo lhe pede caldas ou quando tem a cobrar alguns foros atrasados. A Madrid! A Paris! A Londres!… – Para aí, sim, é que é o caminho. Oh! La calle de Alcalá! Oh! Le boulevard de Saint-Germain! Oh! A catedral de Westminster!

Enche-se a boca e o cérebro com estes superficialíssimos lugares-comuns, e fica satisfeita a civilização. Ponham sobre tudo isso, que é nada, a vaidade lusitana de um hábito de Cristo, e pronto! – Está salvo o nome de Portugal, lá fora.». (3)

Foto: Carlos Raul

Embora as crises sanitária e financeira tenham provocado, à força, o «regresso» a Portugal e a situação comece a alterar-se poderia, sobre o assunto, trazer outros testemunhos. Não obstante, e pesem embora as boas palavras acerca da importância do «viajar cá dentro», por razões que levaria tempo a enumerar, continuamos solene e olimpicamente a desconhecer-nos. Entretanto, fazemos esforços bem urdidos e quase à sobreposse (pelos custos das promoções nacionais e internacionais) para que os outros nos procurem. E venham ver-nos, que serão bem acolhidos (veja-se a excelente campanha “1 Destino que são 12”, das Aldeias Históricas de Portugal).

E avançaria uma primeira reflexão que me ocorre ao associar turismo e património: o principal objectivo de tal convergência é redescobrir, desvendar, divulgar e valorizar os elementos que afirmam a nossa identidade. Diria mais: além da imprensa, dos «media» e das redes digitais, nenhum outro facto social supera o fenómeno turístico em promoção do conhecimento do país e suas regiões. Se considerarmos a Educação e os «media» bases essenciais da motivação para a descoberta, não será difícil conceder ao turismo – no seu sentido tanto colectivo como individual – lugar privilegiado ou mesmo ímpar enquanto instrumento ou motor desse processo. (E, atrás disso, através da criação de emprego, alavanca de bem-estar material para a população.) Quero dizer: o turismo pode ser a janela do reencontro connosco próprios, como nação de muitas e variadas culturas, tradições e geografias.

Foto: Osvaldo Correia

E garantia de conhecimento? Sem dúvida. Quando servido por gente dedicada, sincera e, sobretudo, competente. Que, sem os preconceitos pós-modernos, saiba assumir as raízes da sua personalidade. Que as saiba entender – céus! – também enquanto investimento duplamente reprodutivo: como suporte de auto-afirmação e, no plano económico, factor de rendimento. E as contas são fáceis de fazer. Estive há anos na cidade britânica de Durham, modelo de entendimento do que é valorizar (incluindo a série da TV “Inspector George Gently”) um centro histórico. Era visitada, em média, anualmente, por três milhões de visitantes (hoje serão o dobro) e a maioria, entenda-se, nacionais. Se cada um lá deixasse, diziam, a contar por baixo, 20 libras, a cidade obtinha uma receita de 60 milhões. Mas garantiram-me que seria muito mais. Infelizmente, entre nós, tais contas ainda vão parecendo difíceis de entender quando ouvimos os negacionistas da importância do turismo, os críticos do crescimento por ele induzido e vemos a continuidade dos desequilíbrios entre regiões, algumas carregadas de potencialidades e atractivos (neste processo, «desarrumação» urbana e despovoamento constituem indicadores dramáticos de perda de oportunidades). E, no entanto, em 1928 – quando a vaga de construção disforme e sem coerência urbanística ainda não tinha começado a desfigurar as nossas paisagens – o escritor Ferreira de Castro implorava: «… em favor da terra portuguesa, que é bela, que é terra turística, eu ouso pedir aos laboriosos elementos constituídos em comissões de iniciativa que não tomem nenhuma quando ela não obedeça a um sentido estético, quando ela não corresponda à valorização das belezas naturais do país.

É essa falta de critério estético que há muitos séculos nos domina que tem feito das nossas cidades labirintos nocturnos, sujos e tristes, e que vai, dia a dia, destruindo as belezas naturais sem dar sequer a compensação duma notável beleza artificial – essa beleza que, ligada àquelas, hoje fulgura nos outros países…». (4)

Foto: Rui Ferreira

Diga-se que, finalmente, muitas autarquias acordaram para o fenómeno, afinal inevitável e imparável, da reabilitação ambiental e urbana. No entanto, em inúmeros locais, aquele apelo só foi apreendido tardiamente e, hoje, pagamos por isso. (Vejam, no Porto, as Praças da República e do Marquês e o que nelas construíram nos anos 70 e 80 e compreenderão o que pretendo dizer.) Era pecha antiga, esta, de desvirtuar o que estava certo, mas não dava o lucro pretendido, e, em nome de falsos conceitos de progresso e modernização, ir destruindo o que, em muitos lugares, servia como factor de qualificação. E continuam a existir vilas e cidades com os centros despovoados e votados ao esquecimento, num processo que parece sem retorno. E isso não aconteceu por falta de aviso e previsão. Diria mesmo que aconteceu contra o pensamento e a inteligência do melhor que o país tinha produzido em matéria de princípios. A prova disso é a obra pioneira de Alexandre Herculano, que antevia o fantástico activo de rendimento que a protecção do património proporcionaria ao país. Dizia ele (há quanto tempo!): «(…) Quando a arte ou os factos históricos se tornam recomendáveis, convertem-se em capital produtivo. Calculai quantos viajantes terão atravessado Portugal neste século. Decerto que não vieram cá para correrem nas nossas cómodas diligências pelas nossas belas estradas, ou navegarem nos nossos rápidos vapores pelos nossos amplos canais; decerto que não vieram para aprenderem a agricultar com os nossos agricultores, nem a fabricar com os nossos fabricantes; mas para admirarem os mosteiros da Batalha, de Alcobaça e de Belém, a Sé velha de Coimbra, a Catedral, a Igreja de S. Francisco e o Templo Romano de Évora, a Matriz de Caminha e a Colegiada de Guimarães, os castelos da Feira e de Almourol, e enfim tantas outras obras-primas de arquitectura que encerra este cantinho do mundo. Credes que esses romeiros da arte voltam da romagem aos seus lares sem despender muito ouro, e esqueceis que esse euro ficou por mãos portuguesas? E falais de economia política, e aniquilais o capital dos monumentos? Adoradores do camartelo, por qualquer lado que se observe a vossa obra, não se descobre senão o absurdo; (…)» (5)

Foto: Rui Ferreira

Apesar da visão marcadamente oitocentista e redutora de considerar como património apenas os monumentos, pasme-se, estas palavras foram escritas há 180 anos! Aprendemos a lição? Responde-nos o estendal de degradação do ambiente (que os incêndios ampliaram), destruição ou sobrepovoamento dos litorais e urbanização em alguns locais inqualificável que transformaram povoações encantadoras em mostruários de aberração. E onde, um dia destes, a árvore será recordação e a relva uma saudade. Diante do que sucedia, ainda nos meados de novecentos, Torga, viajante sensível ao carácter profundo do país, faria um comentário ajustado a muito do que se passava: «Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim, que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhes dá a simples protecção de as respeitar.» (6) Valha-nos o esforço de alguns nacionais e estrangeiros que reconstroem aldeias, num interior que o país ignorou ou forçou ao abandono. (E estão a reconstruir o Porto, num processo que, pesem embora os erros, incongruências e contradições, salvou o Burgo da auto-implosão.)

Foto: Rui Ferreira

E não poderia esquecer as incisivas intervenções do dr. Coelho dos Santos, como esta, nos anos oitenta do séc. XX, já em plena democracia, num artigo intitulado “País Habitável”, onde dizia: «Quem quiser brilhar e sobreviver como Presidente da Câmara, deve buscar, como receita infalível, o fomento da construção desordenada e gigantesca: agrada ao público em geral e agrada em particular aos empreiteiros que não se esquecerão de o fazer reeleger. (…) Reincidimos nos erros dos outros e tendemos a agravar a nossa situação, transformando-nos, orgulhosamente, no “caixote do lixo” da Europa desenvolvida.» (7) Não foram, certamente, estas palavras que mudaram as mentalidades. Mas ajudaram. De facto, constituíam um excelente diagnóstico mas faltavam as soluções e, especialmente, as acções. A situação no Porto, por exemplo, pesem embora obras e eventos emblemáticos que se anunciavam, como a construção do Metro e do Dragão, a Capital Cultural Europeia e o Euro 2004 a situação dizia, era, na época, calamitosa em matéria de degradação urbana, despovoamento de bairros antigos e decadência da Baixa de onde população e comércio iam sendo expulsos. Lembram-se do início do processo de degradação de Mouzinho da Silveira, 31 de Janeiro, Duque de Loulé, Sampaio Bruno e por aí fora?

Foto: Carlos Raul

Posto isto, adiantaria uma segunda reflexão: nas primeiras décadas deste século, não são precisos grandes talentos futurológicos para entender que turismo, património (desde o ambiente às culturas não-materiais, tradições festivas e ofícios) e a própria personalidade social dos portugueses (com factores como acolhimento, simpatia e segurança), constituem polos de uma dinâmica de promoção do país, em rápida e, nesta altura de recuperação dos efeitos da pandemia, fulgurante ascensão. E, pensando melhor, exigem uma nova cultura centrada na massificação do lazer, na importância da qualidade de vida, no reencontro e valorização da Natureza (veja-se o sucesso das eco-pistas, percursos pedonais, passadiços e praias fluviais, espalhados de Norte a Sul, que impulsionaram enorme investimento nesse campo), na globalização dos intercâmbios e intercomunicações. Uma cultura que assegure a indivíduos e países os máximos limites de independência e mobilidade individual (de que o Hostel e o Alojamento Local são exemplos) num mundo (re)estruturado na interdependência. Que assegure os máximos limites da diversidade em sociedades (con)formadas pela uniformidade. Assim, turismo, património e tradições culturais não podem – num país como o nosso – deixar de constituir atitude imperativa das políticas locais. Das políticas centradas na convicção  de que manter individualidade e autenticidade das cidades ou regiões compensa, porque um verdadeiro programa de desenvolvimento não pode, também, deixar de incluir como essencial o crescimento da economia.

Foto: Rui Ferreira

Este posicionamento não é, acho eu, incompatível com o crescimento de outros aspectos de uma nação coerente: o respeito por si própria, a afirmação da sua identidade enquanto paradigmas de uma personalidade livre. Livre de ser como é, sem subserviências face ao estrangeiro. De afirmar o seu carácter. De escolher o seu modo de estar. De fazer a sua festa, feira, romaria. A sua procissão ou peregrinação, quando existam (sem preconceitos, o estado laico democrático não deve ter rebuço em integrá-las). De expressar as suas crenças e convicções sem os constrangimentos de cosmopolitismos provincianos ou internacionalismos bacocos. Uma nação, portanto, livre de crescer através da aplicação do esforço e da capacidade de transformar a realidade de maneira ajustada à sua trajectória histórica, no horizonte das necessidades (e ambições) contemporâneas (de que uma profunda regionalização é factor inadiável).

Foto: Manuel Roberto

Turismo em congregação com o património? Sem dúvida. Assumindo projectos de inovação assentes na eficácia e na competência técnica (no caso da reabilitação urbana), ligadas à promoção do que nos distingue. Associar iniciativa e exigência, mostrar e comprovar qualidade, e – por que não, se é isso que também pretendemos? – vender qualidade. Assumir o local e o regional como fé. Ser resolutamente moderno respeitando (ou, se necessário, reconstruindo) a tradição perdurável e afirmando a diferença. Manuel Teixeira Gomes deixou-nos um pequeno trecho que retrata magistralmente o papel e a perseverança do homem comum na valorização dos, por modestos que sejam, recursos culturais do seu sítio: «Eu tive um amigo, espírito delicado e culto, mas tão apaixonado, amante e admirador das coisas da sua humilde terra natal, que sempre encontrava ali alguma preciosidade a citar, em oposição às maravilhas do mundo inteiro. Falava-se-lhe, por exemplo, nos mármores de Pártenon, e ele acudia logo: “No museu de Serpa há um busto, etc.” Lembrava-se o coro da catedral de Burgos e ele, sem hesitar: “Na igreja da Encarnação, em Serpa, há uns andores…”. Só emudecia quando se lhe falava no mar, nos seus encantos, na sua vastidão, nas suas praias, do que se abusava um pouco para o arreliar. Mas uma vez que alguém encarecia os efeitos da fosforescência no Pacífico, aonde, de resto, nunca fora, ele não se conteve que não interrompesse, em tom sincero e convicto, dizendo: “No passeio público de Serpa temos um tanque grande que durante o Verão fosforesce” (…)» (8) Exemplar este cidadão. Tudo seria diferente se houvesse muitos de tal quilate e se o turismo – ao invés de maleita – fosse enquadrado como factor de afirmação e reconhecimento do país e do seu modo de ser mundo. Do país que resiste às confusões, freios e perversões centralistas. Do país da Natureza – montanha, floresta e litoral. Do campo e das paisagens. E das cidades. Em algumas regiões, sobretudo das cidades, com os atractivos dos seus ambientes urbanos, que a actualidade realça em espécie de ânsia de encontrar o caminho mais rápido para o crescimento.

Foto: Fernando Andrezo

No nosso tempo, a cidade representa um processo económico e social cada vez mais complexo. Nele teremos de distinguir vários tipos de manifestação cultural: a sobrevivente de antigas tradições (e, não raro, falsamente) folclóricas, cada vez menos espontânea, a popular, praticada em artes e ofícios e divulgada em feiras, festividades, romarias e outros acontecimentos e, à falta de melhor, digamos, a erudita. Em todos estes níveis, a cidade que pretende ser competitiva terá de manter ou fomentar uma criatividade permanente. Porque se não se promover, preservando ou desenvolvendo o que a distingue, acaba por ficar, irremediavelmente, votada ao esquecimento neste mundo global de que as cidades são expoentes. Nem moderna, nem antiga, a urbe que não se reinventar corre o risco de constituir um espaço mais ou menos normalizado onde vivem uns tantos ausentes das transformações do nosso tempo. E não será, com certeza, um destino interessante para visitar, porque – embora custe a perceber a alguns – a cidade competitiva distingue-se pelas diferenças de personalidade cultural, o bem-estar económico, a vitalidade social.

E deixaria uma terceira reflexão: ao falar em atractivos, não estou a pensar apenas na sedução dos costumes, lugares, edifícios e paisagens, que se tornaram factores de consumo compensatório da perda de algo que as sociedades actuais vão deixando diluir. O desafio é mais ambicioso, na conciliação de uma perspectiva redentora do melhor do passado com a afirmação de um presente digno do melhor que recebemos daquele (onde nem tudo era prestigiante) e também do melhor que consigamos inventar. A cidade tem, pois, de ser entendida enquanto herança consolidada. E por isso, deve ser vista como produto da conciliação das comunidades com o seu território. Como, graciosamente, no-lo descreve o inesquecível Bispo de Aveiro que foi D. João Evangelista de Lima Vidal, na seguinte passagem: «Não basta, nas nossas terras, uma chaminé a deitar fumo numa fábrica de rolhas ou de tijolos; não basta um jardim ou um parque, ou mesmo uma praça de toiros ou de um circo de cavalinhos; não basta o mercado ou o café do Martinho ou do Arcada. Se lhe falta o campanário com o seu sino ou pelo menos com a sua sineta, se não tem num alto ou num canto a capelinha de S. Sebastião ou da Senhora da Graça, de S. Pedro ou da Senhora das Febres, já não é coisa que não possa encher os nossos corações de encanto religioso, mesmo artístico.» (9) E isto não tem sido bem entendido por muitos responsáveis, não por laicismo convicto mas, simplesmente, por ignorância ou indiferença. Não penso, todavia, que o património, enquanto potencial turístico, deva circunscrever-se ao pitoresco, à relíquia, ao edifício secular – por veneráveis que sejam. Existe certa ideia de que o valor histórico e patrimonial, para ser autêntico e constituir chamariz de visitantes, deve estar imobilizado no tempo em espécie de exposição onde se vão observar ambientes castiços. Porque as tradições também se renovam, cada época deve tratar de restaurar, actualizar ou reinventar as suas.

Foto: Carlos Raul

E, em nome da dignidade das populações, é necessário reformar, transformar, valorizar e desenvolver as regiões. Todas (e só pode ser esta a posição anticentralista de um portuense). Precisamos tanto de um repertório moderno de boa cêpa como de um antigo qualificado e, sobretudo, não convertido em mausoléu. Nesta perspectiva, o principal desafio não pode limitar-se à exclusiva consideração da paisagem e do urbanismo do passado (o que não significa o esquecimento do imperativo de os proteger e requalificar). O problema é mais exigente. E para ele estivemos demasiado tempo desatentos. Por isso, ainda temos dificuldade em aceitar que os dias da perfeição espontânea do ambiente acabaram em qualquer lugar, na cidade ou no campo. Com as novas indústrias energéticas, eólicas e solares, a expansão das vias de circulação, o climax digital, as mega-estruturas comerciais ou de lazer, os hiper-mercados, o crescimento urbano, a explosão turística e a reindustrialização (embora já não com chaminés fumegantes), tudo está em mudança. De agora em diante, para organizar bons modos de viver, temos, sem grandes atrasos (porque quem demorar, fica para trás) de planificar ambientes com equipamentos adequados aos usos que fazemos dos espaços e territórios. E enquanto lição imediata, o passado não pode ajudar-nos. Não existem tradições para as paisagens induzidas pela expansão turística, a agricultura mecanizada, as modernas estruturas de produção e transporte de energia eléctrica, os tempos livres maciçamente motorizados, a ampliação de equipamentos e estruturas (como os aeroportos) e muitas outras imposições contemporâneas das utilizações do solo.

Foto: Rui Ferreira

O desafio (ou o dilema) não é, portanto, escolher entre fazer de novo ou recuperar o antigo, mas entre a boa e a má ordenação do nosso quadro de vida, dividido entre a pura conservação, a reabilitação e a inovação. Ou, por outro lado, entre a qualidade e a banalidade. A sensibilidade e a indiferença. Mas teremos sempre de fazer escolhas. E, ainda que seja por vezes doloroso e nos evoque alguma nostalgia ver desaparecer algumas tradições, o verdadeiro problema não é que o antigo mude, acabe ou se transforme, mas que o novo seja, em muitos aspectos, apressada ou atabalhoadamente improvisado e frequentemente apresentado sob a forma de novidade entre vanguardismo e progresso (e há quem acredite nisso).

É, portanto, na contradição entre a necessidade de preservar e celebrar o que nos distingue e a imposição de construir, noutras ou nas mesmas envolvências e circunstâncias, novas formas culturais, que teremos de avançar. Renovando o antigo ou, em certos casos, assumindo o ónus ou a coragem de romper com o que constitui um lastro de subdesenvolvimento que, em nome do costume ou hábito, não podemos aceitar como tradição perdurável. «Amar o povo pelo seu pitoresco não é verdadeiramente amar o povo», escrevia António Sérgio, a propósito da orientação ideológica do Estado Novo, na aparente valorização das tradições glorificadas folcloricamente como padrões de identidade. Parafraseando-o, diria que amar os lugares deste país, defender o seu sentido mais autêntico não é mantê-los em estádios de atraso e desconforto (o despovoamento e abandono do interior foram respostas a tal situação). Como se vivêssemos fora do mundo e do tempo, não podemos aceitar o país transformado em reserva antropológica da Europa. Em espécie de aldeia de Asterix a baixo custo.

Foto: Rui Ferreira

Nesta ordem de ideias, a melhor maneira de defender a tradição é construir o progresso material e a qualidade de vida dos portugueses. O arquitecto Mies Van der Rohe disse algures: «Não podemos dar uma forma ao passado ou ao futuro e somente ao presente, mas apenas esta maneira de construir é criadora.» Nos anos quarenta, com muita pertinência e remando contra a maré do folclorismo e do tipicismo nacionalista – que não impediu, aliás, a destruição de parcelas importantes do património do país (entre outras, a Alta de Coimbra e parte do Bairro da Sé e o Palácio de Cristal, no Porto), o professor Eng.º Ferreira Dias, num livro então considerado inconveniente, intitulado “Linha do Rumo”, afirmou com exemplar clareza: «Fez-se há tempos a consagração da aldeia mais portuguesa. Construiu-se um galo de prata e disseram-se ou escreveram-se palavras encomiásticas onde se distinguiam, aqui e além, tons de menos apreço pela urbe moderna e higiénica; chegou-se à heresia de chamar a Monsanto o salão nobre da Beira. A intenção foi certamente louvável mas ajudou a vincar o diferendo em discussão. Glorificar como mais portuguesa, porventura como modelo de povoado rural, uma aldeia suja e rude (agora, ao que me dizem, mais escanhoada), só porque tem umas pedras de há muitos séculos (e para elas se fizeram os museus), é de um espiritualismo que eu não compreendo, mesmo sem esforço. Disso ninguém tem culpa, dado que é pieguice minha. Mas porque não se glorifica a aldeia mais limpa, a aldeia mais bonita, a aldeia mais produtiva, enfim, a aldeia que mostre qualquer característica positiva e boa em oposição a esta característica negativa de reproduzir fielmente, por atraso e não propósito, os tempos da Covadonga?» (É justamente a glorificação pela categoria o que a acção empreendedora à altura dos desafios da nossa época deve propôr em muitos locais do país e da cidade.)

Foto: Rui Ferreira

Este trecho tão distante de nós e então considerado quase subversivo, mas ainda hoje penetrante, define, creio eu, outra das reflexões para uma política integrada de turismo e património: construir o moderno, inventando novas tradições (desde Eric Hobsbawm e o seu estudo – “Inventing Tradition“ – arrasador de mitos, sabemos que as tradições, afinal, também se inventam) e afirmando a mudança, é tão importante quanto valorizar a herança do passado. Eis um desafio que não podemos retardar (e que, de resto, ninguém vai vencer por nós). Paisagens naturais (cada vez mais raras sem a intervenção da mão humana) ou construídas, centros históricos, aldeias, vilas e cidades interiores e litorais íntegras, vivendo o século XXI, festas e romarias, feiras e ofícios, comeres e músicas, trajos e danças, costumes e modos de viver, tudo isto – num mundo massificado mas, talvez por isso, ávido de diferenciação e autenticidade – pode constituir um fenómeno consistente de atracção sustentável de locais e regiões. Um efectivo investimento para o futuro. E, no meio do mais, o património é – se bem entendido – testemunho desse valor tão frágil quanto essencial a uma política correctamente assimilada de turismo: «o génio do lugar.» No dizer do inesquecível e fervoroso defensor da cultura poveira – e de todas as culturas -, chamado Manuel Lopes, o génio do lugar «Faz-se sentir, às vezes, por um estranho e inebriante aroma. Outras, por uma luz fugaz. Um seu conhecido. Pelas nossas mãos tacteando a rugosidade esquecida de uma pedra. – Há qualquer coisa neste lugar! Dizemos. Algo que não vemos mas sentimos. Apercebemo-nos então, de que o “genius loci” deixou as marcas da sua passagem nos sítios mais inesperados. Desdobra-se, intemporal e ubíquo, entre uma Praça de Paris e o pequeno largo de uma aldeia transmontana. Às vezes, é um monumento, outras uma recordação da infância.» (10)

Pode este «génio locis» ser suporte de projectos de turismo? Indubitavelmente. Mais do que isso, pode readquirir a dignidade e o sentido de outrora, quando impulsionado por servidores persistentes e, em última análise, cultos (e não arrivistas, especuladores ou oportunistas vendilhões dos lugares de onde os habitantes são expulsos, como topamos a cada passo, sob o alibi das exigências do frenesim turístico). Desde os anos noventa começamos (finalmente) a assumir a ideia de que não há futuro sem memória. O que pode abrir caminho à associação íntima entre turismo e património – terreno onde muitas regiões irão ganhar ou perder o tríplice desafio da veracidade, qualidade de vida e modernização. Ou, se quiserem, de integrarem nas políticas locais medidas ambiciosas, que tenham a ver tanto com acções e práticas multissectoriais, como com mudanças de práticas e mentalidades. (E mudar mentalidades é, todos sabemos, mais difícil do que afirmar boas intenções, ou promulgar boas leis…)

Foto: Rui Ferreira

Todavia, tais políticas, visando integrar património e turismo no mesmo processo de desenvolvimento terão, em meu entender, de consagrar alguns objectivos. Como sejam: 1.º- Adoptar uma concepção alargada do património, considerando o meio ambiente como elemento primordial do quadro de vida; 2.º- Associar a defesa e valorização do património cultural e natural à promoção da identidade local e regional, apelando ainda à conjugação das culturas emergentes; 3.º- Relacionar tradições culturais e populações que as criaram e/ou as mantêm com os factores relevantes da sua génese; 4.º- Realizar intervenções imediatas de inventário, classificação e revitalização, acautelando o património ainda existente nas regiões vocacionadas para o crescimento do turismo; 5.º- Propor o reconhecimento e valorização das artes tradicionais associadas a usos e costumes que afirmam o património local, assumindo parâmetros de que destacaria: a) a herança cultural das comunidades, enquanto parcela integrante de um processo de desenvolvimento económico e social, deve ser compatibilizada com as inovações proporcionadas pela revolução digital e científico-técnica; b) a conservação de paisagens, sítios, monumentos, objectos e práticas não deve perder de vista a valorização da qualidade de vida das populações; c) a participação destas é indissociável de uma política de património (e de turismo), procurando conciliar as marcas distintivas com a comodidade dos habitantes; d) sistema educativo, meios de comunicação, autarquias, colectividades e interesses económicos serão componentes e parceiros deste processo. Porém, insisto, trata-se de mostrar, divulgar, propor recursos originais, de modo a atrair investimento num país cujo direito a viver um dia-a-dia coerente com a modernidade seja assegurado. E não votar algumas populações a manterem-se em cidades-museus habitadas pelas ilusões e equívocos do passado servindo de cenário a uma ficção histórica. Esta formulação de princípios pode parecer excessiva. De qualquer modo, mais vale a exigência do que a tolerância para com inúmeros aspectos da nossa actualidade, assim enumerados por Lasch: «Em nome de uma compreensão repleta de simpatia, toleramos o trabalho aldrabado, os hábitos de pensamentos medíocres e as normas incorrectas de conduta pessoal. Suportamos as más maneiras, os modos imprecisos de falar de todas as condições, desde a escatologia banal hoje tornada omnipresente até aos refinamentos da algaraviada universitária. É raro que assumamos o incómodo de corrigir um erro ou de debater com os críticos na esperança de os fazer mudar de opinião.» (11)

Foto: Fernando Andrezo

Diria, enfim, que um projecto de integração do património em políticas de expansão turística deverá desenvolver-se na observância das ligações entre o ambiente natural e social e as formas de viver neles existentes, visando a auto-afirmação e a promoção do país e, em última análise, do povo português nas suas múltiplas maneiras de estar. Entretanto, também será bom recordar, que, num estudo clássico, Jean Marc Guillaume alertava criticamente: «Não é possível resistir a uma política de património. Ela propõe, num mundo hiper-funcional, espaços de diversão que captam demasiado facilmente todas as nossas tristezas e nostalgias. Mas do passado apenas retém fantasmas. De qualquer modo, o essencial não é a conservação do material e visível. O que torna o quotidiano ainda habitável e poético são as artes inumeráveis e secretas da memória e do esquecimento.» (12)

O que torna os lugares habitáveis e poéticos – estou agora reflectindo – é o seu carácter humanizado por gestos, afectos, simpatias, emoções. É, vendo bem, o seu «espírito». Será isto compatível com uma perspectiva actuante do turismo? Acho que não podemos deixar aos outros, aos de fora, o encargo da resposta. Porque a resposta é nossa. Do presente. Não em nome do passado mas do futuro. Rematando: no ano distante de 1797, Robert Southey, escrevendo a um amigo, disse das coisas mais bonitas a nosso respeito. Deixá-la-ia como reflexão final e divisa de um projecto qualitativo de promoção turística: «O simples respirar em Portugal, para mim é delícia» (13), (quem dera que os portugueses com a coragem de não emigrar pudessem dizer o mesmo).

BIBLIOGRAFIA CITADA
(1)- A visit to Portugal / 1866, London, Peter Owen, 1972
(2)- O Panorama, vol. XI, 24.VI.1854
(3)- Águeda. Crónica. Paisagens. Tradições, 1904
(4)- O culto da Estética, em Revista Civilização, Outubro, 1928
(5)- Carta s/ data a Adrião Forjaz de Sampaio
(6)- Diário VIII, Coimbra Editora, 1959
(7)- O Comércio do Porto, 1987.02.08
(8)- Agosto Azul, 1926
(9)- Aveiro, suas gentes, terras e costumes, 1967
(10)- O Génio do Lugar, “O Comércio da Póvoa”, 17.7.1986
(11)- The Revolt of the Elites and the Betrayal of Democracy, N.Y. W..W Norton & COM. 1995
(12)- La Politique du Patrimoine , Paris, Editions Galilée, 1980
(13)- Letters Written During a Short Residence in Spain and Portugal, Bristol, Joseph Cottle, 1797

Helder Pacheco

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