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“Tripas à Moda do Porto”

“Tripas à Moda do Porto”

Mas se o prato, que junta dobrada de vitela (sola e folhada), chispe de porco, feijão, salpicão, presunto e outras iguarias que o chefe decida adicionar, conquista alguns apenas pelo estômago, acaba por merecer o respeito de todos no momento em que percebem a importância histórica que lhe é atribuída.

Prato que descreve a forma de ser de um povo

Da boca dos mais velhos – que melhor conhecem os segredos deste prato típico – ouve-se, muitas vezes, que as “Tripas à Moda do Porto” são a prova histórica do espírito de sacrifício dos portuenses, herdado já desde o século XV.

tripas_2Numa viagem pelo tempo até à época das primeiras expedições marítimas, as duas margens do Rio Douro testemunharam a construção das naus que partiriam rumo ao desconhecido, na esperança de engrandecer o nome lusitano perante a descobertas “das terras d’alem mar”. Reza a história, eternizada nas páginas já amareladas do tempo, que o Infante D. Henrique, filho de D. João I, veio ao Porto verificar de que forma decorriam os trabalhos no Estaleiro de Miragaia, pedindo um esforço suplementar aos trabalhadores, uma vez que as naus serviriam para a conquista de Ceuta.

Cientes da importância da expedição para o orgulho nacional, os homens decidiram falar com os habitantes da cidade e todos reuniram esforços em torno do pedido do infante. Não quis, então, a Invicta, que os marinheiros falhassem a conquista por falta de alimento. “O peixe era apanhado em alto mar e as carnes conservadas. Por isso, a plebe matou um grande número de animais, concedeu a carne para o abastecimento das embarcações e ficou apenas com as tripas”, contou Alberto Lemos, presidente da Confraria Gastronómica das Tripas à Moda do Porto.

Em tempo de crise, os cidadãos começaram a congeminar uma forma de aproveitar as vísceras dos animais e eis que surge a primeira versão das “Tripas à Moda do Porto”. Ainda sem o feijão a acompanhar o petisco (uma vez que só chegou à Europa uns séculos depois), o prato conquistou o estômago e o coração dos portuenses, os “tripeiros”. Assim, tal como explicou Alberto Lemos à Viva, as típicas tripas “são quase tão importantes como a portugalidade”. “Nasceram na altura dos descobrimentos, na época em que as naus tinham de ser abastecidas”, confirmou, salientando que a oferta da carne revela um pouco da personalidade dos portuenses. “São pessoas muito dadas, capazes de tirar a camisola por alguém”, defendeu o responsável.

Ainda que alguns acreditem que a história se conta de forma diferente, Germano Silva, conhecido historiador da cidade, associa o nascimento do prato à época das expedições marítimas. “As tripas remontam aos tempos da navegação, quando nos estaleiros do Douro (não só do lado do Porto mas de Gaia também) se armaram navios que foram à conquista de Ceuta”. Além disso, aponta, “nós hoje sabemos, graças a documentos que existem no arquivo histórico, que se construíram na cidade as naus que foram para a descoberta do caminho marítimo para a Índia”.

Restauração faz “das tripas coração” para salvar o prato

Mais recentemente, o prato típico da Invicta viu-se ameaçado, mas os portuenses recusaram baixar os braços e desistir de um orgulho de séculos. “Curiosamente, a confraria também apareceu numa altura histórica – quando surgiu a doença das vacas loucas”, contou o presidente da entidade, explicando que, como a utilização das vísceras e da carne junto aos ossos foi proibida, os responsáveis da restauração viram a ameaça que pairava sob o prato tradicional.

No entanto, acrescentou Alberto Lemos, “está provado que o estômago [única víscera utilizada nas ‘Tripas à Moda do Porto’] não contribui para a propagação da doença”, pelo que o prato continuou a conquistar um número crescente de fãs. Os turistas, esses, conseguem saborear melhor a especialidade antes de saberem o que estão a comer. “Os estrangeiros, se souberem o que é o prato, torcem o nariz. Os que não sabem, comem e adoram”, revelou o presidente da Confraria, entre risos.  

 

tripas_4Tripas à Moda do Porto versus Pastéis de Belém

Ultrapassado o receio de que a doença das vacas loucas pudesse assombrar as tradicionais tripas, o célebre cozinhado conquistou o apoio de artistas, políticos e conhecidas personalidades da cidade, que acreditam que no dia 10 de setembro o prato será uma das 7 Maravilhas da Gastronomia Portuguesa.

Para Luís Filipe Menezes, presidente da autarquia de Vila Nova de Gaia, quem não votar nas tripas, através de SMS, chamada telefónica, facebook ou do site www.7maravilhas.pt, “não é um bom portuense”. “Temos de ganhar aos Pastéis de Belém. É uma obrigação de todos votarem nas Tripas à Moda do Porto”, apelou.
O autarca considera também que o país está a atravessar a altura mais indicada para recordar os sacrifícios que estiveram na origem da especialidade. “A promoção das tripas é a mais adequada à realidade que vivemos no país”, destacou, acrescentando que a fome foi convertida “num prato de referência apetitoso, apreciado por todas as classes”. “Acho que, se calhar, está na altura de o país passar a comer tripas em vez que caviar”, apontou Menezes durante a cerimónia de apresentação da candidatura do prato ao concurso, na qual estiveram presentes os padrinhos da iniciativa, Rui Veloso e Rosa Mota.

Texto: Mariana Albuquerque
Fotos: Arnaldo Campos

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