Revista Sabe Bem

O potencial do vinho do Porto no tratamento de doenças de pele

O potencial do vinho do Porto no tratamento de doenças de pele

Há um conjunto de moléculas, a partir do vinho do Porto, que podem ser usadas no desenvolvimento de fármacos para tratar doenças de pele como o cancro da pele ou a psoríase.

A psoríase e a dermatite atópica, entre outros exemplos, são doenças da pele causadas por um quadro multifatorial associado a um estado inflamatório crónico. O tratamento mais comum implica a aplicação de corticoides tópicos ou imunoterapia.

A terapia fotodinâmica (PDT) é uma técnica não invasiva que utiliza uma molécula (fotosensitizador) que por absorção da luz vermelha (e por isso deve ser azul/verde) passa a um estado excitado e depois ao regressar ao estado fundamental transfere essa energia para o oxigénio levando à produção de espécies reativas de oxigénio, em particular o oxigénio singleto. No entanto, atualmente, a PDT não é uma técnica amplamente usada, devido à falta de moléculas aprovadas para uso nesta terapia. Com este trabalho de investigação, o número de moléculas com potencial para uso na PDT será aumentado para que esta terapia tenha cada vez mais uma utilização comum e possa chegar a todas as pessoas.

A química do vinho é muito complexa e é alvo de estudo há vários anos pelo grupo do Prof. Victor de Freitas e Prof. Nuno Mateus, LAQV-REQUIMTE no Departamento de Química e Bioquímica da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

Sabe-se que durante o envelhecimento do vinho, os diferentes componentes (e.g. antocianinas, taninos) extraídos das uvas durante o processo de vinificação podem reagir com moléculas produzidas pela levedura durante a fermentação (e.g. ácido pirúvico). A transformação química das antocianinas e concomitante formação de compostos derivados das antocianinas que apresentam diferentes cores (laranja, violeta, azul) encontra-se amplamente descrita na literatura e serviu de base ao projeto WINPUT.

Neste projeto, cerca de 20 novas moléculas azuis/verdes foram obtidas usando como inspiração a química que ocorre naturalmente durante o envelhecimento do vinho do Porto.

Os resultados obtidos até ao momento mostraram que algumas das moléculas sintetizadas têm a capacidade de levar à morte de células da pele (queratinócitos) em proliferação. A seletividade deste tipo de terapia para as células doentes resulta da taxa de proliferação elevada que estas apresentam em comparação com as células saudáveis e para além disso, do reduzido tempo de vida do oxigénio singleto, o que implica que este apenas atue nas células próximas do local onde foi gerado. Além da proliferação descontrolada de queratinócitos, as infeções secundárias são comuns. Estes compostos revelaram também a capacidade de fotoinativar o crescimento de bactérias patogénicas contribuindo para uma melhoria da patologia a diferentes níveis.

Com este projeto, pretende-se ainda estabelecer uma relação estrutura/ atividade e perceber quais os grupos funcionais que o fotosensitizador deverá ter para que exerça a sua ação na PDT.

Por outro lado, estamos também a trabalhar no sentido de utilizar fontes alternativas de luz vermelha, como a luz solar indireta, que não limitem a utilização da terapia apenas a algumas unidades de saúde onde existam equipamentos específicos e ainda que permitam uma redução do custo associado aos tratamentos. No entanto, esta nova abordagem implicará a proteção prévia da pele do efeito nefasto da radiação ultravioleta. Estamos já a trabalhar com outras classes de compostos presentes no vinho do Porto que têm capacidade de proteção solar, que poderão ser incluídas numa fase de pré-tratamento, antes da exposição à radiação e desta forma revolucionar algumas das limitações atuais da PDT.

O desenvolvimento de novas moléculas para a PDT aliadas a novas fontes de luz, irão ampliar a aplicação da PDT, direcionando as vantagens desta terapia para um tratamento acessível a todos e até que possa ser realizado em casa.

Joana Oliveira e Iva Fernandes
Investigadoras da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP)

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