PD - revista Sabe Bem

Obesidade: não podemos continuar a empurrar com a barriga

Obesidade: não podemos continuar a empurrar com a barriga

Há cinco anos, um em cada quatro portugueses tinha obesidade e um em cada três tinha excesso de peso. Tudo somado, mais de metade da população estava acima do peso considerado normal. Agora serão mais.

Recentemente, a Direção-Geral da Saúde deu a conhecer os resultados do inquérito realizado aos portugueses sobre alimentação e atividade física em contexto de contenção social. Verificámos exatamente aquilo que se temia: cerca de 42% dos inquiridos revelaram que mudaram os seus hábitos alimentares para pior. A esta alteração, soma-se o maior sedentarismo associado ao confinamento, que levou a que 26% da população afirmasse ter aumentado de peso durante este período.

Esta doença, que era no início deste milénio considerada a pandemia mundial do século XXI, aumenta significativamente o risco de diabetes, hipertensão, doença cardiovascular, acidente vascular cerebral, doença osteoarticular, apneia obstrutiva do sono e diversos tipos de cancro, doenças que reduzem a esperança de vida, diminuem os anos de vida saudável e pesam no sistema de saúde.

A conjugação da falta de exercício físico com uma alimentação inadequada, obriga-nos a refletir sobre que efeitos é que isto terá na nossa população. O período de isolamento terá resultado, claramente, num aumento do peso dos portugueses e, mais preocupante do que os números da balança, é o agravamento do seu estado clínico com o surgimento de outras doenças associadas.

Tem de ser uma prioridade diminuir, com caráter de urgência, a incidência das patologias relacionadas com as más práticas alimentares na população portuguesa e continuar a caminhar no sentido de promover hábitos mais saudáveis. Com a implementação da já terceira fase de desconfinamento, é seguro dizer que podemos (e devemos!) retomar os cuidados relativos a todas as outras doenças que não a Covid-19.

Todos compreendemos que, face a uma pandemia, foi adaptada a atividade normal dos nossos hospitais e centros de saúde. No entanto, este é o momento para voltarmos às consultas adiadas, com a garantia e com a confiança de que serão desenvolvidas com todas as normas de segurança.

A Organização Mundial da Saúde tem feito um reforço junto de todos os governos para que implementem políticas integradas que promovam bons comportamentos alimentares, a par da prática de atividade física, numa conjugação de medidas envolvendo múltiplos setores.

De que estamos à espera para centrar as nossas atenções para esta outra pandemia? De que estamos à espera para agir?

Em 2005, criou-se, em Portugal, o Programa Nacional de Combate à Obesidade, já em 2007, a Plataforma Contra a Obesidade e, em 2012, iniciou-se o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável.

As medidas foram desenhadas, mas continuam a faltar profissionais para as executar e garantir resultados efetivos. Bastam 100 nutricionistas nos centros de saúde para acompanhar 10 milhões de portugueses? Serão os 40 nutricionistas previstos no concurso que se arrasta desde 2018 que vão fazer a diferença? A resposta parece clara.

A obesidade não é uma doença que possa continuar a ser empurrada com a barriga. É fulcral que se intensifique a sua prevenção, mas também o seu tratamento, através da promoção de estilos de vida mais saudáveis, mas igualmente com o reforço de equipas multidisciplinares para o seu tratamento. E isto passará, sem dúvida, e fundamentalmente, pela integração de mais nutricionistas no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Aos portugueses, urge transmitir que agora, mais do que nunca, é necessário regressar, com confiança e sem receio, às consultas de nutrição, tanto no SNS, como na clínica privada. As doenças crónicas, como a obesidade, não ficaram de quarentena,

Ao nosso Governo, urge alertar que caminhamos a passos largos para um círculo vicioso que pode ser evitado: doenças como a obesidade têm de ser acompanhadas e a sua prevenção tem de ser garantida. Caso contrário o peso não será apenas na balança, refletir-se-á seguramente no SNS, nos bolsos do Estado e, naturalmente, nas carteiras (e na saúde) de todos nós.

Alexandra Bento,
Bastonária da Ordem dos Nutricionistas

PUB
Pingo Doce Sabe Bem

Viva! no Instagram. Siga-nos.