CM Matosinhos

O vírus que roubou as palmas

O vírus que roubou as palmas

A primeira música do concerto é sempre a mais estranha para quem tem o microfone na boca e a guitarra nos braços. Não se sabe muito bem o que esperar, focos de luz apontados aos olhos, silêncio ensurdecedor, barriga cheia de uma jantarada que devia ter sido mais contida, mas uma pessoa está feliz e lá se deixa levar. Será que o público vai vibrar, será que a sala está cheia, será que conhecem o reportório ou vieram cá parar por acaso? Este foco não me deixa ver nada e já estou cheia de calor. Ainda penso naquela conta que me esqueci de pagar, não sei se tranquei o carro, acho que a guitarra podia estar mais afinada e nisto já vou a meio da primeira canção, debitada a meio gás a apanhar-lhe o jeito, sorte que não me esqueci de nenhuma parte da letra, vamos para o último acorde, finalização gloriosa com um arpejo invertido, baixo a cabeça num gesto de falsa humildade e… silêncio. Vazio. Nada. Nem uma palma. Gelam-se-me os ossos e os sentimentos. Ninguém veio? Veio, mas não a este auditório. Estão no sofá de casa, inundados de luz azul no rosto e a debater-se com o ridículo de bater palmas a um ecrã. Olho atrapalhadamente para a setlist, na esperança de que ninguém se tenha apercebido do meu desgosto e sem mais demoras sigo para a segunda canção.

Durante o resto do “concerto” debato-me interiormente com este vírus que me roubou as palmas e os sonhos. Era este o ano em que tudo ia acontecer. Como têm sido todos até agora, na verdade. Isto de querer os palcos como vida tem muito que se lhe diga, mas este ia mesmo ser o ano. A perspetiva de concertos era pobre, mas o disco de estreia saído do forno era a rampa de lançamento que me faltava. Já ninguém lança discos, eu sei, mas sou teimosa e acredito que em alguns casos ainda faz sentido. Só que agora nem disco, nem single, nem videoclip, nem concerto, nem rádio, nem agência. Até quando?

Um rápido scroll nas redes sociais para ver os gigantes da música em Portugal a postar o NIB da conta na descrição de fotografias antigas com a banda toda a sorrir. Uns mais discretos que outros, uns mais necessitados que outros, mas o que interessa é que não há quem se salve. E se é assim para quem está no topo, como será para quem anda na luta do início de carreira? Um entendido do assunto explicou-me um dia que para ele um músico é como um surfista: se o mar está bom, remamos para apanhar a onda e é o talento do surfista que vai definir o sucesso ou a derrota. Se não houver ondas, podemos esbracejar à vontade que nada vai acontecer e só vamos ficar cansados. Ora, o vírus levou-nos as ondas. E agora?

Agora reinventamos. Aprendemos a viver sem palmas enquanto for preciso, a jogar com a câmara, a ler comentários e a usar as ferramentas que tivermos ao nosso dispor. Os palcos parecem agora uma realidade mais distante e há dias em que cantar não tem o mesmo sabor. As palmas no fim de um concerto não servem apenas para encher o ego do artista, mas também para encher a alma de vontade de esbracejar. Umas das canções do meu disco de estreia acaba com “haja esperança que a bonança há-de vir”. Que cantautora seria eu se não fosse fiel às minhas letras?

Helena Kendall

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