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O Porto de Nasoni

O Porto de Nasoni

O entusiasmo com que Joel Cleto fala sobre os temas é contagiante. Por isso não resistimos a (tentar) transmitir tudo o que ouvimos durante um passeio pela cidade, no qual acompanhamos o historiador aos locais onde se encontram as obras mais emblemáticas do arquiteto Nicolau Nasoni. Este, nascido em San Giovanni Valdarno, Toscânia, a 2 de junho de 1691, foi um artista, decorador e arquiteto italiano, que desenvolveu grande parte da sua obra em Portugal, considerado um dos mais reputados da cidade do Porto. O seu percurso profissional em Itália, onde se tornou num pintor de renome, foi feito à base de grandes obras que lhe valeram reconhecimento no meio artístico. Mas a sua inflexibilidade relativamente às quantias pelas quais fazia pagar o seu trabalho podem ter estado na origem da sua vinda para Portugal, mais propriamente para o Porto, como nos contou Joel Cleto. Nasoni viveu em Siena, onde aprendeu pintura e artes decorativas, e provavelmente arquitetura, tendo como mestres os grandes artistas transalpinos da época. Aos 21 anos, era responsável pelo cadafalso nasoni6para a Catedral de Siena, por ocasião das cerimónias fúnebres de Fernando III de Médici e, para melhor se inserir no meio artístico, ingressou numa academia de artes – o Istituto dei Rozzi. As suas obras foram obtendo sucesso, quer pela riqueza das decorações, quer pela técnica da construção, e não passaram despercebidas. Nasoni mudou-se, depois para Roma e, mais tarde, para Malta, onde deu os primeiros passos em arquitetura. Foi nesta ilha que assinou e pintou um teto no palácio de Valeta, em 1724, obra dirigida ao português D. António Manuel de Vilhena, grão-mestre da Ordem de Malta. Nessa altura, no Porto, vivia-se, de acordo com Joel Cleto, uma situação semelhante à de hoje: a cidade encontrava-se em sede vacante, ou seja, estava sem o seu bispo que, curiosamente, tinha sido nomeado Patriarca de Lisboa e quem dirigia a Igreja era o deão da Sé do Porto, D. Jerónimo Távora e Noronha. “A história repete-se”, brincou o historiador.

Fuga à Inquisição

nasoni4Numa feliz ou, para si, infeliz, coincidência, Nasoni ter-se-á envolvido numa quezília com a Inquisição, por uma questão de honorários que insistiu veemente, e de forma acalorada, para que lhe fossem pagos devidamente. Os protestos foram, de tal forma, exacerbados que o pintor foi preso. Segundo Joel Cleto, terá sido certamente para o tirar do cárcere que o grão-mestre da Ordem de Malta o recomendou ao deão da Sé do Porto, que, pela influência exercida junto da Inquisição o terá libertado e trazido rumo à Invicta, sob promessa de esquecer qualquer dívida. Recorde-se que o Porto se encontrava, então, em plena revolução artística.

Da pintura à escultura

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Chegou ao Porto em 1725 para trabalhar como mestre pintor nas obras de decoração que decorriam na Sé Catedral e por cá ficou até 1773, ano da sua morte, cerca de uma década depois da construção da Torre dos Clérigos.
nasoni2Devido ao realismo expresso nas suas pinturas, Nasoni adaptou bem o seu trabalho à escultura, instituindo uma nova ordem na cidade do Porto, onde não faltaram oportunidades de trabalho para a criação de um estilo barroco de aparato cenográfico, influenciado pela arquitetura italiana da Toscânia.  Contando com o apoio de ricos mecenas, foi autor de grandes obras por todo o Norte do país, nomeadamente a fachada principal da Igreja do Senhor Bom Jesus, em Matosinhos, o corpo central do Palácio de Mateus, em Vila Real, embora as mais emblemáticas se encontrem, todas elas, no Porto: Igreja e Torre dos Clérigos, Igreja da Misericórdia, Palácio do Freixo, Quinta da Prelada, Casa do Despacho da venerável Ordem Terceira de São Francisco, Chafariz do Passeio Alegre, Igreja do Carmo, e Chafariz de São Miguel, junto à Sé.

Teorias sobre vida e morte

Nasoni foi um dos arquitetos a quem mais obras eram encomendadas, entre o período em que esteve no Porto: 1725 a 1773. Quando a Irmandade da Assunção de Nossa Senhora, S. Pedro e S. Filipe de Nery do Socorro dos Clérigos Pobres da Cidade do Porto lhe pediu para fazer o projeto da Igreja e Torre dos Clérigos, executou-o de forma gratuita apesar dos quase 30 anos que a empreitada veio a nasoni7durar. Curiosamente, durante os dez anos que passaram entre a conclusão da Torre dos Clérigos (1763) e a sua morte (1773), Nasoni manteve-se inativo, não realizando mais nenhum trabalho. Porquê não se sabe claramente e existem diversas teorias. Joel Cleto contou-nos a que, a seu ver, poderá será mais plausível. O grande protetor de Nasoni sempre foi o deão da Sé do Porto, D. Jerónimo Távora e Noronha, o responsável pela sua vinda para a cidade. Em meados do século XVIII, o Marquês de Pombal, secretário geral do reino de D. José, encetou uma perseguição à família Távora, uma intriga com consequências dramáticas que culminou na morte de quase todos os seus membros. No Porto, ascendia a família dos Almadas, primos do Marquês de Pombal, agora responsáveis e mecenas das grandes obras da cidade. Devido à intolerância do primo para com os Távora, e para não o afrontar, os Almadas poderão ter excluído a hipótese de encomendar obras a Nasoni, por ter sido o arquiteto preferido de um membro daquela família (deão da Sé do Porto). Assim se pode explicar a década de absentismo que Nasoni viveu, sem nenhum trabalho. Outro mistério reside em torno da sua morte.  
Diz-nos Joel Cleto que, no assento de óbito de Nasoni, está especificado que ele morreu como “pobre”, tendo sido sepultado em solo da igreja dos Clérigos, anonimamente, enquanto “pobre”. Como era considerado um pouco usurário, que emprestava dinheiro a juros, muitos acreditam que o seu negócio possa ter sido mal conduzido e daí a teoria de que o arquiteto tenha morrido na miséria. Mas a explicação poderá ser outra já que Nasoni era membro da Irmandade da Assunção de Nossa Senhora, S. Pedro e S. Filipe de Nery do Socorro dos Clérigos Pobres da Cidade do Porto e todos os “irmãos” eram chamados de “pobres”.
Na miséria ou não, o certo é que Nasoni terminou os seus dias longe da glória de outrora.  

Texto: Marta Almeida Carvalho

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