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Francisca Fernandes

Francisca Fernandes

“A arte e a cultura têm uma importância vital na sociedade”

Determinada, convicta e com um orgulho imenso pela cidade do Porto. É assim que Francisca Fernandes se define enquanto pessoa, portuense e diretora da Unidade Orgânica de Cultura de uma das empresas mais icónicas da cidade do Porto, a Ágora.

Foi há, precisamente, dois anos que aceitou o convite de Rui Moreira, recentemente reeleito presidente da Câmara Municipal do Porto, para o seu terceiro e último mandato, com sentido de “responsabilidade” e entusiasmo em servir a sua cidade com o que de melhor há em termos culturais. Um compromisso que tem assumido com toda a honestidade, dedicação e altruísmo e que em muito tem orgulhado os portuenses e os milhares de visitantes que, diariamente, rumam à Invicta.

Em conversa com a VIVA!, Francisca Fernandes abriu-nos o livro da cultura da cidade do Porto e falou, abertamente, sobre o panorama atual do setor e as várias dificuldades sentidas na gestão da Unidade Orgânica da Cultura, sobretudo ao longo dos últimos anos, marcados por uma pandemia como não havia memória e que deixou despidas todas as salas de espetáculo do país.

“Como ultrapassaram os problemas que surgiram durante a pandemia? Que estratégias adotaram para fazer face aos mesmos? Que fragilidades ficaram à mostra? Como antecipa o futuro da cultura? E o que está previsto em termos culturais para os próximos anos na cidade do Porto?” foram algumas das questões que marcaram esta entrevista, onde foi também feito um balanço destes dois anos de gestão e antecipado parte do futuro da cidade.

Leia a entrevista completa:

Como encarou o convite para gerir a Unidade Orgânica de Cultura na Ágora – Cultura e Desporto?

Como um desafio de grande responsabilidade, dada a qualidade que o projeto cultural do Dr. Rui Moreira para a nossa cidade assumiu desde sempre. Mas, por outro lado, também como algo que me tem permitido aprender e evoluir como profissional assim como servir a causa pública com o que sei e gosto de fazer.

Que balanço faz destes dois anos à frente da unidade?

Um balanço muito positivo. Tem sido um desafio que nos tem permitido vencer obstáculos praticamente todos os dias, estando o projeto cada vez mais oleado, mais abrangente, mais sólido, e, na minha opinião, cada vez mais capaz de servir cabalmente o público e a comunidade artística a que nos dedicamos. Creio que cada vez temos mais condições para trabalhar de forma a que a nossa atividade sirva a cidade e as suas necessidades de um modo eficaz e abrangente, mas também sensato e exigente.

Quais foram as maiores dificuldades sentidas, sobretudo ao longo destes últimos anos tão atípicos?

A integração de vários projetos de elevada dimensão e com uma velocidade de atuação intensíssima numa empresa já criada e habituada a funcionar sem esses projetos na sua génese foi complexa. A pandemia veio, obviamente, complicar toda a atividade, sobretudo porque tivemos que nos reinventar totalmente, quase de uma semana para a outra. Em cultura tudo se faz “estando junto” e a pandemia tirou-nos essa possibilidade de um dia para o outro.

No entanto, penso que, com muito esforço e dedicação, acabamos por conseguir ir ao encontro das necessidades e desejos do público e dos artistas e profissionais de cultura com quem e para quem trabalhamos. Creio que, agora, já conseguimos concluir que esse percurso acabou por permitir também que toda a organização crescesse imenso em termos de capacidade de resposta e de funcionamento.

Qual é a importância de a Câmara do Porto ter uma entidade centralizada no setor da cultura?

A criação da empresa municipal ou, como aconteceu em alternativa dessa, a integração de grande parte da atividade cultural do município numa empresa municipal permitiu o acesso a uma flexibilidade de gestão que é essencial para um projeto cultural com a dimensão que o projeto da Câmara Municipal do Porto assumiu nos últimos anos. Refiro-me a flexibilidade de regras específicas de contratos individuais de trabalho, por exemplo, mas também a flexibilidade de adaptação de regras legais e financeiras, que são sempre escrupulosamente cumpridas, e a promoção de atividades com contornos e particularidades específicas como é a cultura.

O que é que a pandemia alterou no setor da cultura em Portugal, e em específico na cidade do Porto?

A pandemia paralisou totalmente o setor, que viu a sua atividade cancelada de um dia para o outro. Aliás, mesmo agora ainda vemos alguns projetos que, de repente, acabam por ser cancelados porque, por exemplo, um dos membros das equipas testa positivo à covid-19. É algo que traz muita frustração e muita insegurança, apesar de termos consciência de que temos que nos ir adaptando às exigências que a saúde pública dita.

Creio, contudo, que, como em todas as crises, tem necessariamente consequências sérias ao nível da nossa forma de viver em comunidade, em geral, e de olhar para o outro e para o mundo que nos rodeia. A arte e a cultura tonam-se ainda mais vitais para nos fazer parar, refletir e humanizar. Tomando consciência dessa importância precisamos de avançar estabelecendo políticas que permitam aos artistas e profissionais do setor criar e trabalhar de modo minimamente estável e digno.

Sou necessariamente suspeita quando falo do Porto, mas considero de facto que, no que dependeu de nós e até agora, tudo fizemos para minimizar o terrível impacto da paralisação do setor nos artistas e profissionais.

Que fragilidades sente que ficaram à mostra?

A pandemia expôs, sobretudo, a terrível fragilidade financeira em que a esmagadora maioria dos agentes e profissionais do setor cultural tem vivido nos últimos anos. É de salientar e louvar o trabalho conjunto e, de certa forma, profícuo, que as associações representativas do setor, juntamente com grupos informais que se criaram nesta altura, fizeram na reivindicação de apoios para os profissionais da cultura no nosso país. Ainda há muito a fazer, mas acho, sinceramente, que houve uma ação muito significativa e positiva neste sentido.

Como ultrapassaram os problemas que surgiram durante a pandemia? Que estratégias adotaram para fazer face aos mesmos?

Além de muita dedicação e foco nas necessidades do público e da comunidade artística com quem trabalhamos, com as medidas rapidamente deliberadas pelo executivo camarário. Estas permitiram que pudéssemos fazer o máximo para ir ao encontro das necessidades dos artistas e profissionais do setor que connosco trabalham, designadamente adiantando 75% dos valores acordados pelos serviços que não puderam ser prestados na altura da paralisação (a lei aplicável às entidades públicas, apesar de ter sido alterada quanto a esta matéria em consequência da pressão que o Setor fez para tal junto do Governo, não permite o pagamento integral de atividades não realizadas) e reagendando essas atividades para datas possíveis para ambas as partes. As Direções Artísticas dos Departamentos da Unidade Orgânica da Cultura também reinventaram toda a programação de modo a conseguir reagendar a esmagadora maioria dos projetos que não puderam apresentar-se nas datas previstas, o que implicou um trabalho complexo de reelaboração de toda a respetiva atividade. A aposta nas transmissões online foi também uma forma de permitir aos artistas mostrarem o seu trabalho e servir o público impedido de ir aos nossos espaços, mas ávido de cultura e de arte.

Por outro lado, a crise fez com que o setor se mobilizasse e que estruturas formais – como é a Performart de que a Ágora é atualmente Presidente da Direção – e informais que o representam se mobilizassem para, em conjunto, trabalhar afincadamente no sentido de alertar o Governo e a opinião pública, em geral, para a importância de criar rapidamente condições para estes profissionais poderem sobreviver e para que tão importante área da nossa vida em sociedade não soçobrasse perante as dificuldades.

O que acha que poderia ter sido feito para apoiar mais os profissionais das artes?

A fragilidade económica em que o setor esteve mergulhado décadas a fio não se resolve facilmente. Houve alguma atenção política, foram criados apoios específicos e foi assegurado o reforço de verbas para os apoios ao setor. No entanto, ainda há muito a fazer, seja quanto ao melhoramento e reforço financeiro dos apoios existentes como quanto à criação de outros mecanismos legais que permitam aos profissionais do setor desenvolver a sua atividade em condições dignas de sobrevivência e de criação.

De que forma é que a cultura [e os tantos profissionais que dela vivem] poderá sair mais resiliente deste turbilhão de emoções?

Através do trabalho conjunto das entidades formais e informais que representam o setor que, como já referi, se intensificou consideravelmente com a pandemia. Mas também percebendo e afirmando, sem hesitação, a importância vital que a arte e a cultura têm na vida em comunidade, em geral, e na qualidade de vida dos cidadãos, em particular. A cultura nas suas diversas formas e expressões permite-nos ver o mundo que nos rodeia muito além do que os nossos olhos alcançam no quotidiano e só isso nos permite refletir e crescer como pessoas.

Numa fase em que a pandemia deixou grande parte da população mundial à beira de um ataque de nervos – e mim parece-me que, infelizmente, estamos rodeados de sinais diários de uma crescente agressividade e de uma assustadora indiferença ao outro – essa capacidade de reflexão sobre o outro e sobre o mundo é mais vital do que nunca.

Acha que a pandemia veio alterar a forma como a população olha para a cultura?

Acho e espero que sim. Temos sinais claros de que o público estava e está desejoso de poder voltar às salas de espetáculos, aos museus, às galerias e a todos os lugares onde pode usufruir da nossa atividade. Faz parte da natureza humana valorizar mais aquilo que perde, mesmo que seja temporariamente.

O Porto recebeu, entre agosto e setembro, um dos eventos mais icónicos da história da cidade: a emblemática Feira do Livro do Porto. Que balanço faz desta última edição?

Como ouvimos o Senhor Presidente da Républica afirmar na abertura, a Feira do Livro do Porto há muito que vai muito além de uma mera Feira de Livros, transformando-se nos últimos anos num Festival de Literatura muito transversal e completo com concertos, conversas, exposições, etc. É notório o interesse crescente dos portuenses e de muitos visitantes de fora da cidade e até do país.

Esta edição foi mais um sucesso comprovado: apesar das restrições impostas pela pandemia, nomeadamente no que diz respeito à lotação do recinto, teve um crescimento na ordem dos 10 por cento relativamente ao último ano, ultrapassando os 110 mil visitantes no conjunto dos 17 dias do certame.

Como antecipa o futuro da cultura?

Em termos nacionais, difícil, como de resto tem sido até aqui, mas com perspetivas de uma evolução favorável. Há trabalho a ser feito que está a dar frutos e sei que os profissionais do setor e as associações representativas desses profissionais não deixarão de trabalhar afincadamente para, em conjunto e por si mesmas, ir conquistando as condições de que os artistas e profissionais necessitam para criar e viver condignamente.

O que está previsto, em termos culturais, na cidade do Porto, para os próximos meses e anos?

Da nossa parte, está previsto manter em funcionamento a atividade que já temos e que é vasta, mas também o funcionamento de novas atividades, tais como o Batalha Centro de Cinema e a abertura de novas estações do Museu da Cidade. A obra do Matadouro estará, em princípio, pronta em 2023, sendo esse um projeto importantíssimo que, acredito, trará nova vida à parte oriental da nossa cidade.

É importante referir uma aposta atenta no serviço educativo de todos os nossos projetos.

Acreditamos que é essencial formar e informar o público de toda a nossa atividade, nomeadamente o mais jovem, mas também mediar a forma como o público em geral tem acesso a informação sobre a nossa atividade. Estou convicta que essa aposta faz diferença na capacidade de análise critica dos nossos projetos por parte do público que temos hoje e terá, com certeza, um impacto muito significativo no público futuro. 

Como olha para o Porto atualmente?

Como um espaço com uma vasta e robusta oferta cultural, que permite aos portuenses e a todos os demais visitantes aceder a uma cidade vibrante e interessante, onde é possível ter uma qualidade de vida bastante elevada. Há naturalmente aspetos a melhorar e equilíbrios a alcançar, mas isso é inevitável numa cidade com esta dimensão.

Há alguma coisa que sinta que falta na cidade?

Não há nada de que eu sinta propriamente falta, mas, como já disse, há sempre aspetos a melhorar e trabalho a fazer, nomeadamente na procura constante de equilíbrio entre os benefícios e as desvantagens que a elevadíssima procura turística trazem para os portuenses. Há sempre aspetos que carecem de atenção e de ação constante numa cidade com a dimensão do Porto, como, por exemplo, o combate às desigualdades sociais, a segurança e o funcionamento dos serviços públicos.

Como gostava de ver o Porto daqui a uns anos?

Com a mesma vitalidade cultural que agora conhecemos. Infelizmente sabemos que isso não é algo que possamos dar como garantido, já que antes desta fase, iniciada há oito anos, vivemos tempos bastante diferentes em que a atividade cultural sobreviveu apenas graças ao trabalho dos agentes culturais da cidade, públicos e privados e de todas as dimensões e géneros. Mas é inequívoco que o governo da cidade tem um papel determinante na oferta cultural que a cidade pode e deve ter, devendo sempre assumir o papel, que lhe cabe não só como fazedor, mas também como facilitador do que os demais agentes têm a fazer.

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