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É tão bom ser criança!

É tão bom ser criança!

Longe vai o tempo em que os rapazes jogavam ao pião, as raparigas ao lencinho e, juntos, mantinham viva uma tradição tão portuguesa. Os jogos tradicionais, típicos de rua e de um convívio extremo, foram substituídos pelos digitais. Hoje, os mais novos vivem uma vida dependente de ecrãs, praticamente não saem à rua e poucos são aqueles que conhecem as brincadeiras dos tempos dos avós. Assim, recuamos ao tempo em que “do nada se fazia tudo”, como os próprios dizem, e se era “bem mais feliz”…

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“Com o que se brincava antigamente? Com o que se tinha à mão. Tudo dava. Até de latas de sardinhas com um pau e algumas rolhas se fazia uma brincadeira”. “Eu não brincava muito na rua, porque a minha mãe não me deixava. Mas andava pelo quintal, corria e fazia as típicas casinhas da altura. Depois, na escola, jogava ao elástico, à corda, à macaca, ao mata e ao lencinho…”. “Fazíamos corridas de sameiras pela beira do passeio. Tínhamos que empurrá-las com os dedos, durante muitos metros, e quem conseguisse chegar primeiro à meta ganhava. Corríamos com os arcos e tínhamos o nosso clube de futebol de rua”. “Lembro-me que brincava muito à cantarinha, que era um jogo em que tínhamos que passar o cântaro umas para as outras sem o deixar cair, se não perdíamos. De tudo fazíamos uma brincadeira, e acima de tudo, brincadeiras saudáveis”. São trechos de histórias de mulheres e homens, entre os 60 e os 90 anos de idade, que tiveram a sorte – ou o azar, conforme a avaliação de cada leitor – de sentir na pele a “verdadeira infância”, aquela em que, segundo contam, não havia perigos nas ruas, em que os vizinhos eram todos família e, juntos, inventavam tudo quanto podiam para fazer jus ao verdadeiro significado da palavra “brincar”. Histórias que hoje já não se vêm, raramente se ouvem e correm até o risco de desaparecer.

António, nome fictício, tem 68 anos. Cresceu numa pequena aldeia, em Cinfães, e mudou-se para o Porto em meados dos anos 70. Habituado a grandes passeios entre os vários jardins da cidade, diz que, hoje, “não se vê uma criança a correr num parque” ou um “grupo delas a brincar na rua”. “Saem acompanhadas pelos pais, em horários específicos, e pouco fazem além de andar nos baloiços, correr atrás de uma bola ou jogar no telemóvel”. O sexagenário vai mais longe e afirma, inclusive, nitidamente entristecido, que “já não se brinca”. Pelo menos não como antigamente, destaca Margarida Magalhães, de 62 anos, para quem os jogos tradicionais, como a macaca, o lencinho, as cordas e o elástico “deixam muitas saudades”. “O jogo das cordas e do elástico era muito engraçado porque dava para fazermos muitas habilidades. Podíamos aumentar ou diminuir o grau de dificuldade e quem aguentasse mais tempo no jogo ganhava. Lembro-me que passávamos horas a fio nisso”, conta, adiantando que eram jogos que, na sua opinião, estimulavam muito a paciência e o respeito pelo próximo, e que só trariam benefícios à sociedade se “renascessem”.

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Do lado oposto, os rapazes divertiam-se com outro tipo de jogos, como o do pião, o das sameiras, mais conhecidas como caricas, ou os típicos jogos de futebol, com uma “bola de pano” e “balizas improvisadas”. “Havia uma distinção muito grande entre as brincadeiras dos meninos e das meninas. Até uma determinada altura, não nos misturávamos. Quando isso foi possível, começou a ver-se brincar outro tipo de jogos, que, atualmente, também me parecem estar muito esquecidos, como a cabra-cega, a malha, o jogo do galo, dos sacos, dos berlindes, entre outros”, realça António. Sabe-se que hoje os mais novos priorizam o digital e se entretêm com jogos que vão desde o telemóvel, ao tablet, ao computador à televisão. As novas tecnologias dominam a sociedade e as próximas gerações, naturalmente, não serão uma exceção. O grande problema, aliado à importância – cientificamente provada – de brincar ao ar livre, pode estar no facto de se deixar esquecer uma “cultura tão portuguesa”, resumem.

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Contudo, embora o digital tenha tido um grande impacto na transformação da sociedade, inicialmente impulsionado, sobretudo, com a introdução do jogo do “Super Mário” – ponto de viragem entre as brincadeiras de várias gerações -, há outras valências que se impõem, como “a falta de segurança nas ruas, ou a perceção dela por parte dos pais, a urbanização dos lugares, a carga horária escolar e as atividades extra-curriculares”, que não permitem que as crianças disponham de muito tempo para brincar na rua, sublinha Fernando Nina, de 87 anos, que faz questão de, regularmente, partilhar com os seus netos aquilo que foram “as brincadeiras e as histórias do seu tempo”. Para Maria Magalhães, de 71 anos, este é um panorama visível essencialmente nas grandes cidades, porque nas aldeias, de longe a longe, ainda é possível “ver-se e ouvir-se a felicidade de quem brinca na rua”.

Na rua de Fernando Nina, a Travessa Antero de Quental, onde tantas vezes brincou, nada é como era antes, o que o levou, em 1993, a escrever um poema onde retrata as brincadeiras do seu tempo. Intitulado “A Minha Rua”, o poema foi escrito a olhar para a própria, a chorar, enquanto recordava os “bons velhos tempos”. Cientes de que “nunca nada vai voltar a ser igual”, acreditam que as escolas poderiam ter um papel fundamental no incentivo aos jogos tradicionais portugueses. Afinal, esta “é uma cultura que não se deve deixar morrer” e só desta forma as gerações mais novas teriam oportunidade de “vivenciar aquilo que eram as brincadeiras dos seus avós” e quem sabe, até, “ganhar-lhe algum gosto”, conclui Maria Magalhães.

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