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Dicionário à moda do Porto

Dicionário à moda do Porto

Dizem que o Porto tem locais e expressões que só as suas gentes conhecem, um dicionário próprio, designado por glossário tripeiro, e que vai, cada vez mais, além-fronteiras. Com base no “Dicionário de Calão do Porto”, escrito por João Carlos Brito, a VIVA! revela-lhe e explica-lhe o significado de curiosos nomes e expressões portuenses:

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– Tripeiro: Designação que se dá aos portuenses, por causa dos sacrifícios que fizeram para apoiar a preparação da armada que partiu, em 1415, para a conquista de Ceuta. Perante um cenário de crise e de fome, a população do Porto ofereceu aos expedicionários toda a carne disponível, ficando apenas com as tripas para a alimentação.

Esse, seria, contudo, segundo alguns, apenas o momento da confirmação da alcunha, já que existe também a hipótese de o termo tripeiro aplicado aos habitantes do Porto ter nascido três décadas antes, nos anos da crise 1383-1385 e subsequentes, com o conflito com Castela, em que os portuenses teriam igualmente feito esse sacrifício, tendo com as tripas confecionado um prato saboroso, que hoje não pode faltar em nenhum restaurante do Porto.

– Esperto como um alho: Muito esperto. Também se diz “Fino como um alho”. Há vocábulos que, pela sua formação, histórica e socialmente, indicam que, quase de certeza, nasceram na Invicta. É o caso, por exemplo, da expressão “fino como um alho”, que vem da corruptela “fino como o Alho”.

Sabendo-se que a expressão remete para o mercador Afonso Martins Alho que, no século XIV, foi destacado para negociar o primeiro tratado anglo-luso e que veio de lá com excelentes condições para os portugueses, rapidamente as pessoas começaram a divulgar a expressão é “fino como o Alho”, referindo-se a alguém discernido, esperto. A expressão terá seguramente nascido em terras portuenses, porque o Afonso Alho era do Porto e serviria de autoelogio a toda a massa populacional destas terras, provavelmente em confronto com os congéneres do resto do país.

De referir que no Porto existe uma pequena rua (que não terá mais de 20 metros de comprimentos e, por vezes, aperta até aos dois metros e pouco de largura!) com o nome deste mercador. Trata-se da antiga Travessa das Flores.

– Bai no Batalha: É mentira; Significa que a pessoa está a fazer um grande filme; que está a exagerar. Referência ao cinema Batalha, na praça com o mesmo nome, palco de excelência da cidade onde passavam os grandes filmes, durante muitos anos, até vir a moda das salas dos centros comerciais. O cinema Batalha fechou há muito a bilheteira, mas a expressão ficou e é usada sempre que alguém pretende refutar o seu interlocutor quanto à veracidade dos factos que relata. De pouco credíveis, mais se aparentam a um filme!

– Ir para o maneta: Diz-se de alguma coisa que se perdeu. O ‘maneta’ alude a um General francês das invasões napoleónicas e existiu mesmo. Um dos maiores tesouros do Porto esteve perto de ‘ir para o maneta’. Mas não foi tudo para o maneta! O altar do Santíssimo Sacramento, na Sé do Porto, está associado a uma história interessante.

Diz-se que, a seguir ao desastre da ponte das barcas, estavam familiares e amigos na Sé, prestando homenagem aos defuntos, quando alguém avisou que as tropas napoleónicas estavam a chegar ao local com o objetivo de pilhar o que houvesse de valor, como era habitual.

Conta-se que o sacristão teve a luminosa ideia de caiar o altar do santíssimo sacramento, que era (e é) em talha de prata maciça. Isto para enganar os franceses e para que o altar não fosse para o maneta, expressão muito em voga na altura (que quer dizer ‘perder tudo’), devido a um general gaulês especialmente cruel (o general Loison), que era conhecido pelo ‘maneta’ por ter perdido um braço num acidente de caça. O truque resultou. E assim o nosso altar ‘não foi para o maneta’!

– Falar para a central: Falar sem ser ouvido; já desliguei. Alusão à refinaria Galp, antes Sacor e às suas chaminés de formato fálico. Assim, a associação com o falo designa que nada do que está a dizer interessa; Alusão à Central da Borracha, com os mesmos objetivos, até mesmo porque quem via os calendários da empresa (réplica do Porto aos calendários da Michelin e da Pirelli), já não prestava atenção a mais nada, no momento.

– Piolho (café Âncora d’Ouro): Nome carinhoso por que é conhecido o Café Âncora d’Ouro, na praça Parada Leitão, frente à atual reitoria. Local de encontro de estudantes, terá sido por isso que alguém, em tempos, o batizou de “piolho”: devido à “piolhice” que por lá parava sempre. Abriu em 1909.

– Francesinha: É, talvez, a maior criação gastronómica do Porto, do século XX. Uma das hipóteses sobre a sua origem remonta às invasões napoleónicas. Sabendo-se como os franceses eram – e são – apreciadores de pão e de queijo, dois dos principais ingredientes da francesinha, circulam histórias sobre uma espécie de tosta com muito queijo, dentro e por cima do pão (o que era, então, atendendo às poucas posses e, ainda mais, à altura crítica que se atravessava, de fome e privação, um verdadeiro atentado à pobreza) e com vários tipos de carne, também, no seu interior. Poderá até ser real, mas a verdade é que, para ser francesinha, faltava-lhe o complemento que a caracteriza: o molho.

Mas, parece não haver grandes dúvidas em atribuir a Daniel David Silva a sua invenção. Foi na década de 50 (provavelmente em 1953) que este poveiro de nascimento e ex-emigrante na França e na Bélgica criou, enquanto empregado do restaurante A Regaleira, a primeira francesinha. O objetivo era esse mesmo: reinventar um prato, uma especialidade. Evidentemente, inspirou-se no croque-monsieur francês, uma tosta com bastante queijo, gratinado por cima, mas juntou-lhe as carnes e, claro, o molho picante.

O nome de batismo tem, claro, um pouco das terras do croque-monsieur, mas também uma boa dose de malícia, suportado pela conotação do adjetivo picante do molho: a ideia era ir à ao restaurante e regalar-se, comendo uma francesinha. Sobre os ingredientes, a francesinha clássica leva linguiça, salsicha fresca, queijo, bife, mas também pode conter fiambre ou fiambrino, mortadela. Outros acompanhamentos habituais são as batatas fritas e o ovo estrelado. É possível ver muitas variantes, algumas de bom gosto e outras nem tanto… O prato está espalhado, já, um pouco por todo o país, mas parecem não restar dúvidas de que é no Porto que estão as melhores francesinhas do mundo.

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