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Crianças versus tecnologia: uma relação benéfica ou maléfica?

Crianças versus tecnologia: uma relação benéfica ou maléfica?

Há já algum tempo que a tecnologia domina a vida dos cidadãos, mas, nos últimos anos, esse ‘boom’ acentuou-se ainda mais. Tanto que, praticamente, podemos considerá-la uma parte de nós mesmos, como definiu, em tempos, Marshall McLuhan, a propósito dos meios de comunicação.

Os millenials, jovens nascidos entre 1980 e 1996, também conhecidos como geração Y, e a geração Z, nascidos entre meados dos anos 90 até meados de 2010, sobretudo, vieram ao mundo no meio de uma evolução tecnológica tremenda. Além da dita “tradicional”, como as televisões, os computadores as máquinas fotográficas, deparam-se com smartphones de última geração, tablets, consolas de jogos e outros gadgets repletos de inteligência artificial.

A tecnologia é parte das nossas vidas. Tratamo-la por tu e levamos os mais novos, mal nascem, a estabelecer a mesma relação, quase como se fosse umbilical. E podem ser, muitas vezes, os pais os grandes culpados desta ligação desmedida, que, além de benefícios, produz também bastantes malefícios.

Em média, segundo informações avançadas pelo neurocientista francês Michel Desmurget, no seu livro “A Fábrica dos Cretinos Digitais”, uma criança até aos dois anos passa cerca de 50 minutos por dia em frente a um ecrã. “Entre os 2 e 4 anos, chegamos a duas horas e quarenta e cinco minutos por dia, um quinto do período normal de vigília da criança. Ao longo de um ano, estamos a falar de mais de mil horas”, notou.

A principal fonte de consumo, no caso das crianças entre os 6 e os 10 anos, parecem ser os smartphones, particularmente utilizados para “entreter”, seja com a visualização de filmes e/ou jogos. E, nesse sentido, surge uma nova preocupação: é que cada vez mais as crianças consomem jogos, filmes e vídeos de carácter violento, o que pode, muitas vezes, levar à alteração de comportamentos, alertou Catarina Valente, técnica superior de educação.

“No 1º. ciclo, as crianças anseiam a ida para casa para utilizarem os seus gadgets para jogarem, verem vídeos, filmes, onde, muitas vezes, o conteúdo acaba por ser tudo menos educativo. Cada vez mais observamos, no mercado, filmes e vídeos de carácter violento, que as crianças consomem, e que podem, muitas vezes, alterar o seu comportamento”.

“O tempo de ecrã definido como o tempo gasto com qualquer ecrã (smartphonestablets, televisões, videojogos, computadores ou outras tecnologias) associou-se, em diversos estudos, a atraso no desenvolvimento emocional e da linguagem, a dificuldades na atenção e aprendizagem, bem como a efeitos deletérios no sono. Demonstrou, ainda, estar associado ao aumento do risco cardiovascular, diabetes mellitus, excesso de peso e obesidade”, sustentou, por sua vez, Teresa Rei Silva, interna de Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde Familiar de Cávado, em Braga, no seu estudo “Novas tecnologias em idade pediátrica”.

Além disso, a responsável de saúde considera ainda que além das consequências supracitadas, no que respeita ao desenvolvimento psicomotor e na saúde, o tempo de ecrã tem outras implicações, nomeadamente “no contexto social, podendo substituir tanto o tempo em família como as brincadeiras com outras crianças, essenciais para o desenvolvimento enquanto indivíduos”.

As tecnologias substituíram as brincadeiras ao ar livre, que se distinguiam por uma “imaginação e experiência indescritíveis” e que, de acordo com os especialistas, não podem, de todo, desaparecer. “As crianças necessitam de brincar sem recorrerem única e exclusivamente aos meios tecnológicos. Precisam de se envolver com a natureza e com as ruas. É a brincar que as crianças processam o que já aprenderam e o que é novo, adicionando experiências, imaginação e memória”, sublinhou.

Segundo adiantou ainda, o interesse das crianças pela tecnologia, em contexto escolar, é bastante evidente, com estas a manifestarem especial interesse quando “os docentes utilizam recursos tecnológicos para lecionar ou consolidar alguma temática”. Em alguns casos, apontou, até revelam um conhecimento maior do que os próprios docentes em manusear este tipo de ferramentas, apoiando-os sempre que é necessário.

Ora, se por um lado, a envolvência das crianças com a tecnologia revela conhecimento, experiência e interesse, por outro pode também acarretar determinados malefícios. Além da queda abruta pelo interesse nas brincadeiras ao ar livre, por uma vida cada vez mais dependente de ecrãs e, consequentemente, sedentária, o uso das tecnologias, sobretudo dos telemóveis, pode, muitas vezes, traduzir-se na redução da atenção em período escolar, pelo que, muitas vezes, não deve ser uma opção.

Consciente desta problemática, Ana Margarida teve, desde o nascimento da filha, uma preocupação acrescida no que respeita à utilização do telemóvel. A curiosidade por esta tecnologia, explicou à VIVA!, começou desde tenra idade, porque via praticamente todas as pessoas à volta a utilizá-la, sobretudo os primos, com seis/oito anos.

“Com dois anos e meio já perguntam sobre tudo e querem, naturalmente, o que veem os outros a ter. Então, tanto eu como o pai concordamos, numa fase inicial, em deixá-la explorar estas tecnologias apenas quando estivesse com os primos. Via o que eles viam normalmente nos telemóveis, desenhos animados, e assistia aos seus jogos. Claro que, depois, o interesse foi crescendo e começou a pedir os nossos telemóveis. E nós autorizávamos, ocasionalmente, sempre sob supervisão”, contou, a propósito do envolvimento da filha com esta tecnologia.

Agora, com (quase) 11 anos, tem já o seu próprio telemóvel, que usa para estar em contacto com os amigos e, claro, navegar pelas redes sociais. Os jogos e os filmes também fazem parte dos conteúdos que vê e cujos pais tentam sempre “controlar”. “Sempre achamos muito importante este policiamento do que eles fazem no telemóvel e na internet, e chegada esta idade ainda mais”, apontou.

“Costuma ser na transição de ciclo, habitualmente do primeiro para o segundo, que os pais «autorizam» a entrada do telemóvel na escola. O que costuma acontecer é que as crianças ficam ainda mais ansiosas pelo intervalo, para explorarem os telemóveis, partilharem informações e jogaram uns contra os outros. E, muitas vezes, isso ajuda a diminuir a concentração nas aulas e a aumentar a preocupação com o horário do intervalo”, constatou Catarina Valente.

Por isso, a responsável considera crucial esta supervisão dos progenitores e acrescenta, inclusive, que o tempo que as crianças passam em frente aos ecrãs deve ser gerido muito bem gerido. “Todos os pais devem saber proporcionar aos filhos momentos de trabalho, de família, de brincadeira e o momento “da tecnologia”. Com esta gestão de tempo estarão, a meu ver, a mostrar aos seus filhos que existe tempo para tudo”.

Apesar das consequências negativas naturalmente associadas à era digital, a positividade ou negatividade do acesso das crianças à tecnologia só pode ser avaliado de acordo com “o fim a que as destinamos”, como indicou Teresa Rei Silva. “Em idade pediátrica, quando utilizada de forma adequada, poderá facilitar e promover a aprendizagem e incentivar a função executiva, idealmente acompanhada de interação social. Nos adolescentes poderá ter um papel na educação para a saúde, constituindo um instrumento privilegiado de disseminação de informação”, justificou, acrescentando que poderá representar ainda “um meio de comunicação entre amigos e familiares distantes com redução do isolamento social”.

Felizmente ou infelizmente, de acordo com as várias opiniões, estamos perante uma sociedade em que, cada vez mais, os ecrãs estão presentes à mesa. Em que acordamos e a primeira coisa que fazemos é pegar no telemóvel, que está na nossa mão ao longo de todo o dia. Trata-se de um simples “gesto”, mas que pode fazer a diferença na vida das futuras gerações. Por isso, mais do que nunca, é importante estarmos atentos a elas e evitar o mais possível imagens como uma mesa “onde as crianças só comem com a presença do telemóvel”.

“Os pais não podem utilizar a tecnologia como uma estratégia para manterem os filhos em silêncio e/ou quietos em determinado lugar. Caso contrário, estarão a fazer dela a «chupeta» das crianças”, destacou Catarina Valente.

De referir que as últimas recomendações da Academia Americana de Pediatria dão conta, de acordo com a pediatra, que, até aos 18 meses, os pais devem evitar qualquer ecrã por parte das crianças, exceto as videochamadas. Por sua vez, dos 18 aos 24 meses devem visualizar apenas programas de elevada qualidade, sendo que esta atividade deve ser feita na presença dos pais.

Já entre os dois e os cinco anos é recomendado, no máximo, o acesso de uma hora por dia à tecnologia, através de programas de alto valor educacional e acompanhados pelos pais ou educadores. Posteriormente, os pais devem estabelecer limites, de forma a que as crianças não se tornem dependentes dos ecrãs e que estes não interfiram com a alimentação, o sono ou a sua atividade física.

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