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Ciência

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Depois de um conjunto de ensaios clínicos realizados em humanos, o Bonelike – substituto ósseo sintético com a capacidade de mimetizar a composição química do osso mineral – vai começar, agora, a ser comercializado em formatos apropriados à cirurgia ortopédica e já despoletou uma nova linha de estudos. Investigadores da Faculdade de Medicina/Centro Hospitalar de São João estão, nesta segunda fase do projeto, a tentar obter um “substituto ósseo mais próximo do osso”, através da adição de células estaminais ao Bonelike.

De acordo com Manuel Gutierres, professor de Ortopedia da FMUP e autor do trabalho, a utilização de substitutos ósseos têm a vantagem de evitar que os doentes sejam submetidos a uma cirurgia adicional para a recolha de enxerto ósseo autólogo. “Classicamente, quando temos que tratar um determinado defeito ósseo, aborda-se a região ilíaca e retira-se o osso necessário para preencher o defeito, ou seja, fazemos um transplante de osso do próprio doente”, explicou. Contudo, apesar das “características perfeitas” deste osso, esta técnica tradicional não evita os problemas associados à colheita, como a dor na zona dadora. “Por isso, com o recurso a substitutos ósseos, podemos poupar aos doentes essa cirurgia adicional. Além disso, por vezes é necessária uma quantidade de osso tão grande, que não é possível, apenas utilizando a crista ilíaca, preencher o defeito”, acrescentou o médico, salientando que, sem os substitutos, a solução passaria por recorrer a bancos de ossos, com todos os riscos que lhes estão associados.

bone2Até ao momento, o Bonelike tem sido mais aplicado em medicina dentária, devido à sua forma de apresentação. “A sua utilização comercial tem sido feita sob a forma de pequenos grânulos, que são bons para preencher cavidades de dimensões relativamente reduzidas, como as que ocorrem nos maxilares. Na ortopedia é por vezes necessário tratar cavidades maiores”, esclareceu Manuel Gutierres, revelando que “começa a surgir interesse da parte de algumas empresas para comercializar o produto” nos formatos mais apropriados à cirurgia ortopédica.

O substituto ósseo, cuja investigação foi distinguida com o Prémio Professor Carlos Lima 2006, pode ser aplicado em doentes que tenham sofrido perdas ósseas ligadas a tumores; em situações de trauma em fraturas com afundamentos da superfície articular; em utilizadores de próteses que sofreram descolamento e necessitam revisão, assim como diversas patologias de caráter degenerativo. O projeto foi desenvolvido por José Domingos dos Santos, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e investigador do Instituto de Engenharia Biomédica Universidade do Porto (INEB), juntamente com dois estudiosos do Reino Unido. Por sua vez, os ensaios clínicos foram realizados com o apoio de uma equipa do S. João, liderada pelo Professor Gutierres. “O professor José Domingos contactou-nos, na altura, no sentido de colaborarmos na execução dos estudos, quer de laboratório – in vitro – quer depois na sua aplicação em doentes”, contou, em declarações à Viva. “O passo seguinte foi o da elaboração de um ensaio clínico, previamente aprovado pela Comissão de Ètica do Hospital e a ser aplicado a 30 doentes submetidos a osteotomias da tíbia para o tratamento da artrose do joelho, no qual preenchemos pequenos orifícios ósseos, com seis ou sete milímetros de diâmetro, com o substituto que estávamos a testar. Alguns meses depois, combinámos com os doentes a sua colheita no momento da extração do material utilizado para a osteossintese da osteotomia”, descreveu o ortopedista. Os resultados do estudo provaram que, com o Bonelike, as células cresceram e multiplicaram-se bem, apresentando uma também boa capacidade de osteointegração.

bone3Novo substituto ósseo em investigação
Apesar de ser um material com “capacidade osteocondutora, isto é, que se deixa atravessar pelas células ósseas e que serve de matriz, de suporte”, o Bonelike aplicado isoladamente é desprovido de capacidade osteoindutora e osteogénica, características que só estão presentes nas células vivas. Por isso, esta equipa médica decidiu prosseguir a linha de investigação no sentido de tentar obter “um substituto que melhor mimetize o osso primitivo, substituindo não só a matriz, mas também as restantes células que integram o osso humano”. A solução poderá ser a adição de células estaminais ao substituto ósseo.

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João Torres, outro dos investigadores envolvidos, já efetuou a aplicação destes materiais em ovelhas, seguindo-se uma fase de testes em doentes com fraturas do colo do fémur, nas quais será aplicado Bonelike misturado com células estaminais. “Ainda estamos nos estudos preliminares”, esclareceu Manuel Gutierres, acrescentando que os primeiros resultados já foram submetidos para publicação.

Pela sua experiência profissional, o ortopedista considera muito gratificante constatar a forma como os pacientes se disponibilizam para participar nos ensaios clínicos. “Depois de devidamente esclarecidos, quando questionados se estão disponíveis para integrarem os estudos, os doentes mostram geralmente uma grande generosidade porque sabem que estão a contribuir para o progresso da ciência e, consequentemente, a ajudar outras pessoas”, apontou.

Em termos pessoais, o médico sabe que a sua contribuição representa apenas “um pequeno tijolo” na ajuda da construção do “edifício” científico. “Antes de mim trabalharam mais pessoas e, futuramente, outras vão seguir com o trabalho, portanto, o importante é irmos contribuindo para esta construção. É assim que a ciência progride”, concluiu.

Mariana Albuquerque

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