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Casa dos Neves

Casa dos Neves

Em mais um mês de “Lojas Históricas”, a VIVA! foi à descoberta da “Casa dos Neves”. Desde a história do espaço, aos planos para o futuro, passando também pelo grande foco deste negócio local, ficamos a conhecer um espaço emblemático da cidade do Porto, que é abrangido pelo programa “Porto de Tradição”.

Quando surgiu a ideia de abrir?

O estabelecimento abriu em 1965 e a ideia foi do meu pai, fundador da Casa dos Neves, que trabalhava numa loja de tecidos dos Armazéns Carvalho Oliveira Ferreira, em Vila Nova de Gaia. Foi o seu primeiro posto de trabalho, ficou deliciado e estabeleceu-se precisamente a vender tecidos a metro.

Trata-se de um negócio familiar?

É um negócio familiar e já estamos na terceira geração. Temos filhos, netos e empregados a trabalhar, assim como pessoas sem ser da família. Temos empregados que têm 40 anos de casa, por exemplo.

O que podemos encontrar na Casa dos Neves?

A Casa dos Neves tem três espaços comerciais. Um é a casa mãe que é um pronto a vestir de homem e senhora. Outro é um pronto a vestir num registo contemporâneo, desde o casual à cerimónia por excelência. A outra loja de calçado e acessórios de moda, como guarda-chuvas, bonés, luvas, trabalha numa lógica de multimarca com algumas grandes marcas internacionais.

O que diria que tem mudado ao longo do tempo na vossa loja?

As grandes mudanças é que o mercado está muito agressivo e há muita informação. Há 50 anos, tínhamos alguns padrões e alguns modelos e era aquela oferta que havia. Hoje, o mercado é vastíssimo, temos muitas variantes de materiais, de modelos, portanto é um mercado mais exigente. Temos de ter mais informação para ter mais sucesso, pois trata-se de um mercado muito agressivo. Hoje é uma coisa, para o ano já se usa outra coisa e é muito por aí.

Quem acha que é o tipo de público que procura a Casa dos Neves?

Nós estamos agarrados ao nosso público pela história. Temos muitas famílias que se vieram cá vestir na comunhão, depois casaram-se e vieram cá também e hoje os filhos casam e eles também vêm. O nosso ADN é esse também. O turismo está a ter um lugar muito especial neste momento e faz toda a diferença, deu um boost muito grande ao nosso negócio. Não digo que se não fosse isso estaríamos fechados, mas estava muito mais complicado se não fosse o turismo. Nós entramos no online e sentimos que as pessoas vão à loja física por estarmos no online. No entanto, há muito uma questão de cultura também. As pessoas habituaram-se a ir aos centros comerciais, que há em todos os centros nevrálgicos. Contudo, não podemos depender do turismo, mas eu sinto que a mentalidade e as pessoas estão a sentir mais necessidade de comprar no mercado local. Desde o aconselhamento, à qualidade, à seleção distinta do que se vê noutras superfícies, as pessoas procuram-nos.

O online tem tido grande repercussão? Chegam a novos públicos?

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Eu recusei-me sempre a entrar no online, um pouco agarrado à tradição e a pensar que não havia estrutura para isso. Há uns anos, vivemos o Covid, logo não tinha alternativa e fiz qualquer coisa para sobrevivermos. Houve investimento, mas a verdade é que quem não estiver no online tem a vida muito complicada. Não é só as vendas que fazemos, que são diárias, mas é o facto de estarmos lá faz com que as pessoas façam print e entrem na loja. Sabem o que querem. As pessoas agora usam o online para comprar tudo e é um instrumento imprescindível e quem não estiver lá é ultrapassado. 

Quais são as histórias mais engraçadas que já viveu enquanto trabalha no local?

São muitas. Há uma que aconteceu há algum tempo mas que me marcou. Numa das nossas lojas, vendemos casacos de pele, éramos fortes nisso. Hoje, por questões de mercado, abandonamos o setor. Uma família visitou-me, escolheu um casaco, vestiu e no momento de pagar perguntou o preço. Eu disse-lhes que são 325 euros. A pessoa disse que é  muito dinheiro. Eu disse que não, que era o preço justo de um casaco em pele. Acrescentei que há 20 anos, se quisesse pagar um casaco de couro, pagaria 40 ou 50 contos. Esse valor, há 10 anos, dava para muito mais coisas do que os 325 euros agora. Olhou para mim e disse que estava a mentir. Vai à carteira dele e tira a primeira fatura do primeiro casaco de couro que comprou na Casa dos Neves. Ele guardou a fatura e disse que foi o primeiro subsídio de Natal que recebeu e gastou aqui. Fui mostrar ao meu pai, que achou uma graça fantástica. O cliente ficou satisfeito, tanto é que voltou. E é giro porque é um talão feito à mão, nas tipografias, foi muito engraçado.

Qual é a reação das pessoas quando passam no espaço?

Há várias reações e comentários. Se falarmos nos portugueses, sinto que gostam do produto que nós temos. Dão a entender que nós temos coisas diferentes, que não estão nos centros comerciais. Os estrangeiros, na realidade, a nossa bandeira são os 60 anos. Temos guias turísticos que nos visitam por pertencermos às lojas Porto de Tradição, pois temos essa valência. As pessoas ficam encantadas, já que é algo pouco comum e também eles ficam deliciados com um conjunto de artigos que vendemos. Procuramos trabalhar com boas marcas, com valor. As pessoas olham e gostam muito do espaço, do atendimento e das histórias que partilhamos com eles. 

Quais são os melhores elogios que já receberam?

O melhor elogio é, sem dúvida, dizer que sou um bom vendedor (risos). Às vezes, vão lá com ideia de comprar uma coisa e saem com outra. Eu digo sempre uma coisa: não engano ninguém. Vendo sempre com a crença de que não estou a enganar ninguém e que faço sempre o melhor possível pelo cliente.

O que distingue o vosso espaço da concorrência?

Diria que é mesmo a capacidade de aconselhamento e o tentar encaixar o produto certo na pessoa certa.

Desde o período que começou até agora, qual é o balanço que faz e quais as perspetivas futuras?

O balanço resume-se numa palavra: heróis. Acho que somos uns heróis. Havia lojas, há uns anos, que eram grandes referências. Considerávamos os nossos maiores concorrentes e que até achávamos que tinham mais valor do que nós, eles fecharam e nós conseguimos sobreviver. O comércio tradicional passou por fases muito complicadas, mesmo antes do covid. Para nós, foi um problemazinho a pandemia. Chegamos a viver numa altura em que a cidade ficou deserta. Várias coisas aconteceram e a verdade é que nós resistimos a tudo. Hoje, com o turismo a alavancar, que é toda a indústria à sua volta, ajuda a criar emprego e toda a população ganha com isto. A indústria potencia a economia da cidade e do país, claro. O futuro é promissor, diria, mas precisamos de muitos fatores externos para viver com paz de espírito. São as guerras, a inflação, os governos, nós dependemos de tudo isso também. Mesmo o tempo influencia, porque está verão no inverno, depois está inverno no verão. Ainda este ano, abrimos uma estação de verão e tivemos uma chuva imensa. Ano passado em outubro abrimos a estação de inverno e estavam mais de 30ºC. São alguns fatores que nos deixam apreensivos, mas estamos otimistas, claro.

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