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Recheio 2024 Institucional

Beatriz Gosta

Beatriz Gosta

“O Porto é a raça, o Porto é coração na boca, o Porto é malta calorosa. Porto é tudo de bom, Porto é uma nação, Porto é Porto. Eu abro a boca e sou do Porto, não há volta a dar.”

Falar em Beatriz Gosta é falar numa personagem muito querida do público, que ficou conhecida, não só pela forma descomplexada e divertida com que quebra tabus, mas também pela música que faz, ao abrigo da sua alcunha artística, M7.

Desde vida pessoal, ao percurso na área da comédia, ao papel da mulher na sociedade, Marta Bateira, que dá vida à personagem Beatriz Gosta, deu uma entrevista à VIVA!, onde foi possível conhecer melhor um nome incontornável do entretenimento em Portugal.

Vamos começar pelo início. Antes de falar do teu percurso, como é que era a Marta em pequena? Com que é que a Marta sonhava? Algo minimamente perto da vida artística que hoje levas?

Não, até porque a minha infância não foi muito feliz. As pessoas dizem sempre “ah, a vida adulta, com contas para pagar, é muito dura” e, realmente, é difícil, mas a mim a infância custou-me. Era muito solitária, muito tímida, muito introspetiva, brincava sozinha, logo o que eu sempre quis foi ser grande. Eu nunca soube qual era o meu dom ou a minha vocação. Nunca imaginei que seria comunicadora ou rapper, ou designer de moda. Gosto de roupa, gosto de design, gosto do belo, do vintage, mas quando era miúda, não fazia a menor ideia. Sabia que gostava de roupa, punha 7 saias umas em cima das outras, usava muitas pulseiras, muito vaidosa, muito tchanan, por isso já mandava ali uma pausa extra (risos).

Abordando agora as várias vertentes que marcaram o teu percurso. Chegaste a ser Marta Bateira, a designer de moda. És a Beatriz Gosta, a comediante. Há também quem te conheça como M7, a rapper. Olhando para a diversidade do teu percurso, fazer sempre a mesma coisa é algo que te assusta? Ou dirias que encontraste o teu habitat natural?

Há uns anos, trabalhavas na mesma empresa para a vida inteira. Hoje em dia, cada vez mais, é normal teres uma profissão em que aquilo que estudaste nem sequer exerces. Ou então um hobby que passou a ser profissão. Agora, é uma coisa louca. Quando fazes uma coisa durante 10 anos e depois dás uma guinada. Por exemplo, tiras um curso de engenharia e depois és taróloga, noutro dia és maquilhadora… está um bocadinho assim. Então, eu como disse, nunca soube a minha vocação, logo fui para design de moda, porque o meu irmão foi para design de moda. Eu fui, até porque gostava de roupa, mas era um verdete. Era má. Eu tenho alguma sensibilidade mas é rasa. Não sou nenhum génio em moda. Então, tirei o curso bem arrastada, mas depois identifiquei-me com isto do hip-hop, sendo que hip-hop não é só rap, é toda uma cultura com várias vertentes e uma forma de estar na vida, em que te envolves. Eu entrei nessa parada e com a Capicua tentamos fazer umas rimas e a coisa deu-se. Acabei por, mais tarde, ganhar um bom ordenado com a moda e com o rap. Depois, larguei a moda, ficou só o rap, porque entrou o humor. Sou sincera: nunca imaginei. Sou engraçada a contar histórias e tal, mas nunca achei que me fossem chamar de humorista. Não fui eu que me intitulei, foi o povo, que se riem das coisas que eu falo (risos).

Se fosses só uma coisa, cansavas-te?

Digamos a verdade: trabalhar num escritório, tu olhas para o relógio e dá-te vontade de furar um olho. Eu não sei mesmo como é que há pessoal que trabalha num sítio tanto tempo, tipo 30 anos. Houve empresas em que eu acordava e chorava, eu não queria ir. Já ia no metro e o tornozelo já engrossava com a retenção de líquido da tristeza.

Dirias, então, que alguém criativo tem sempre de ter um escape?

É assim, temos de pôr o pé no chão. Há que pagar contas e eu sou uma privilegiada por me conseguir sustentar com o que faço, no entanto digo-te que não é só o facto de tu estares fechada num escritório. É, também, as pessoas. Elas matam-me. A infelicidade fica entranhada nas pessoas. A intriga, a fofoca, aquela vidinha que não tem a ver com a minha vida, que não tem nada a ver comigo. Por mais que gostes das pessoas, não havia identificação. O que eu faço agora, permite-me conhecer pessoas. Hoje conheço-te a ti, amanhã conheço outra pessoa. Há uma identificação maior. Contudo, ainda posso ir parar ao escritório. A gente tem de se sustentar e a vida dá guinadas. Especialmente em Portugal.

Disseste, há algum tempo, que ficas feliz e emocionada quando te chamam rapper. De onde é que vem todo esse sentimento?

Primeiro, porque não faço rap desde 2008. Logo, se me chamam de rapper, é porque eu deixei uma semente e porque toquei nas pessoas com a minha música. Quando me reconhecem na rua como M7, eu fico “ei, meu deus, és mesmo old-school, és mesmo velha”. Eu fico muito emocionada, mesmo. Tenho várias paixões, a moda eu gosto, ainda borbulha, o humor, a comunicação, adoro tudo isso de paixão. No entanto, a cantar rap, a cena é diferente. 

E se tivesses de escolher?

Entre todas as áreas, eu escolhia ser rapper

Ainda assim, hoje em dia, isso é algo que descartas?

Acho que, na vida, não podemos descartar absolutamente nada. Tudo fica armazenado em ti e pode dar jeito em alguma circunstância da tua vida. Seja em trabalho, num date, ganhas pontos com algo que dominas. Conhecimento e informação é vida. Mas rap tenho mesmo paixão violentíssima. Tenho 41 anos, não consumo só rap, mas consumo muito e tenho muita moca pela musicalidade e pela cena toda. Num concerto de rap, eu vibro, eu emociono. Eu canto sertanejo com jinga de rap. Na pandemia, o pessoal viu. Eu e a minha gata nós demos-lhe.

Numa das tuas músicas, “Martataca”, dizes “Obrigada Capicua pelo apoio que me dás, Sem ti já tinha deixado o R.A.P. para trás. Tu elevas a fasquia, tu mostras como se faz”. Posto isto, pergunto-te, não só de que forma é que a Capicua tem sido importante na tua vida, mas também, e citando a letra, “como é que se faz” para chegar onde chegaste?

A Capicua, eu conheci-a com 15 anos. Convidei-a para o meu aniversário de 16, entretanto já se passaram mais de 20 anos e, realmente, eu admiro-a muito. O método de trabalho, a determinação, a confiança, a segurança, o acreditar, a fé. Ela é mesmo positiva e eu sou pessimista. Ela não. Então ter uma pessoa assim de perto, extremamente talentosa e rica, dá um grande empurrão. Ela, sendo minha amiga, sempre me tentou ajudar em todas as minhas inseguranças e bloqueios. No rap, foi bambora fazer uma banda, mas ela é que foi o motor. Ainda agora, ela vira-se para mim e diz “está na hora do teu novo espetáculo”. Ela empurra-me, muitas vezes quando estou sem fé de que consigo voltar com força. Ela agarra-me e diz bambora. Ela tem isso e é um exemplo. Escreve poesia, escreve livros, é rapper, escreve letras para outras pessoas, tirou o Doutoramento em Sociologia. É discreta, mas faz e acontece. Vários álbuns, crónica semanal. Quanto ao segredo de onde eu cheguei, cada um tem o seu percurso, não há segredo. Podes sentir o pico da tua realização aos 60. Cada vez mais, é assim. “Ah, estou velha, já não dá”. Nada disso. Aos 60 de repente, as coisas acontecem. Outras conseguem aos 20. Cada um tem o seu percurso e olhar para o lado dá cabo do cenário todo. Gera frustração e as redes sociais deixam-te assim, pois vês um recorte da vida da pessoa e pensas logo “tanto sucesso”. Isso gera frustração, por vezes. Acabas por comparar o teu bastidor com o recortezinho que até pode ser mentira. Nunca sabemos das coisas. E ao contrário também acontece. Olharem para nós e invejarem muito uma coisa que, para ti, é fácil. O meu percurso foi sofrido. Nunca festejo uma vitória minha. Faz de conta, tenho um programa na rádio e eu só penso: ei e agora?

Mas o que é que te faz não festejar as vitórias?

É insegurança e achar que não vou conseguir fazer bem. Sou extremamente exigente comigo. Sou dura com os outros, mas mais comigo. Será que vou fazer bem, que vou dar conta do recado? 

Dirias que tens uma espécie de síndrome do impostor?

Tenho. Sem dúvida. Faço um espetáculo, acabei de arrasar. Saio do palco, o pessoal adorou. Tudo o que eu penso é: tive sorte, consegui desta vez. Enganei-os.

Não consideras que isso vai melhorando, ao longo do tempo, com o que vais fazendo?

Melhora muito. Aliás, acho que o meu trabalho deu-me muita auto-estima. Não a vou buscar fisicamente, ou intelectualmente. Eu tenho muito complexo de não ser muito intelectual, de não ler muitos livros, etc. Acho que a minha auto-estima veio do meu trabalho. Do reconhecimento do carinho, de ter conseguido fazer algumas coisas bacanas que adoro. Acho que veio daí e é isso. Melhorou muito, mesmo. 

Enquanto Beatriz Gosta, rapidamente viraste fenómeno da Internet em Portugal, com vídeos que surpreenderam o público pelo à vontade com que falas de coisas que costumam ser tabu, de uma forma bastante cómica. Esta naturalidade ao mesmo tempo cómica foi algo que aprendeste a fazer, ou já vem contigo?

É assim, eu já era assim no meu núcleo de amigos mais íntimo. Sou uma contadora de histórias e aquilo acaba por ser uma extensão exagerada da Marta. Agora, quando era miúda, estávamos num grupo, eu era muito tímida e calada, alguém mandava uma piada e eu já estava a pensar noutra piada para mandar. A cena é que eu pensava, “ei, ninguém vai rir, vão ficar todos a olhar para mim” e não mandava, perdia a coragem. Depois, alguém mandava uma parecida e todos se riam. Eu ficava algo triste, porque queria que fosse para mim. Queria dar opiniões, mas depois achava que não ia saber argumentar direito. Agora eu não me calo. Mando a piada que tiver de mandar. Foi todo um processo, acho. Tinha o bichinho lá atrás de raciocínio rápido e, com os anos, ligas um bocadinho o modo “f*da-se” e perde-se algum filtro. Eu, com 80 anos, penso que vou perder o filtro total, que me vou largar à frente das pessoas e tudo (risos). É um bocadinho isso, perde-se o filtro e ganha-se segurança e não se quer tanto saber sobre o que os outros dizem. Se pago as minhas contas, faço tudo direitinho, vão dizer o quê?

Naquele que é o conteúdo cómico que produzes, sentes que o facto de seres mulher te ajuda ou te prejudica,  no que toca a oportunidades de trabalho? 

Ajudou e atrapalhou. Ajudou, no sentido em que se fosse um homem a fazer aquilo, não teria o impacto que teve. Até porque as mulheres se sentiram mesmo representadas. Eu sinto que houve uma geração de mulheres que eu mudei aquela confiança e segurança de sair à noite. Há muito o pensamento de que a mulher que eu quero para ter filhos não é a mulher com quem eu estou na balada. Acho que aquilo, na altura, empoderou-as. Acho que não regrediu, mudou alguma coisa mesmo. No entanto, perco, claro. Há marcas que são muito fãs, mas que não se querem associar a mim, por causa daquilo que eu digo. Se fosse no Brasil, por exemplo, marcas de toys, de preservativos, já eram comigo. Lubrificantes, essas coisas todas. Outras marcas também viriam ter comigo para falar de outros temas. Só depois de ter sido mãe é que me puseram um carimbo de confiança, de mais séria, de menos maluca. Agora tenho a Luisinha, que trouxe um público diferente, as mães. Isso amaciou-me, antes era vista como uma mulher muito agressiva. Cabelo rapado e tal. Até hoje eu perco trabalho.

Sentes-te, então, um guilty pleasure, de alguma forma?

Claro. Gostam muito, mas é arriscado a marca estar associada a ti. Há medo de perder os conservadores, os púdicos. Ainda há muita gente que acha, “ah, ela é ordinária, é promíscua”. Só que depois conhecem-me e eu nunca digo palavrões nem isso. Não sou propriamente vulgar nem grosseira. Eu digo uma piscininha no pirilau, um tchuca-tchuca mais tolo. Não uso termos grosseiros. A verdade é que ninguém falava de sexo como eu falei. E perco homens! Afunila muito. Se o homem heterossexual já é o que é, quem se aproxima de mim tem de ser mesmo muito seguro, até porque eu não gosto de deslumbrados. Temos de estar de igual para igual. Há aquele medo de olhar para mim e pensarem, “tu falas de sexo, se eu estou contigo, passo por corno”. Logo, para alguém estar comigo, tem de ser mesmo alguém muito seguro para estar com uma mulher independente, que fala de sexo sem problemas nenhuns. É complicado! O homem, no geral, tem dificuldades de estar com alguém que ganha mais do que ele, segura. Isso, por si só, já é complicado.

Sentes que há alguma evolução nisso?

Eu até pergunto aos meus amigos se gostam de mulheres independentes e seguras. Todos eles dizem que adoram, mas depois escolhem sempre as princesas. As bonitinhas e melhor comportadinhas, para desfilar tipo troféu. Não querem as punks, essas são só como amigas. Até porque está no imaginário deles, está muito entranhado.

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No mundo da comédia, há muito mais homens do que mulheres. No entanto, és prova viva que não é por falta de piada do lado feminino. Porque é que achas que isto acontece? Mais vergonha da mulher em se expor? O próprio público que olha de lado, quando vê uma mulher a fazer piada com o que a rodeia?

As mulheres ficavam em casa a tomar conta dos filhos, nem sequer tinham carreira. Por isso, os homens começaram há muito, nós começamos há pouco. Então, acho que os homens não permitem que as mulheres falhem. Tu podes ter um homem excelente, um mediano, outro medíocre. Tu permites que ele seja medíocre. Uma mulher não deixas. Ou ela é excelente, ou então não pode fazer aquilo. Se for mediana já não interessa. O meu humor é muito mais virado para mulheres. Acho que o homem heterossexual tem dificuldades em gostar do meu humor, no geral. Primeiro, porque eu ataco-os. Faço um humor feminista e interventivo, pelo que a mensagem é mais para eles. As mulheres vão-se identificar mais com o que eu digo e com as questões que falo. Os homens nem tanto, pensam “ela está a pisar-me o calo”, sentem-se inseguros. E depois há aquela eterna questão de “ah, não são todos os homens”. Eles ficam muito revoltados e dizem “eu não”. É um bocado como no racismo. Quando alguém negro diz que vivemos num sistema de supremacia branca, os brancos às vezes sentem-se atacados. E  a verdade é que se não faço isso, não me devo sentir atacado. Tu tens de aceitar, são números e estatística. Acho que muitos não reconhecem isso, é não quereres abdicar do teu privilégio. Está bom assim, logo não há interesse em mudar. Claro que um branco, tendencialmente, não quer mudar o privilégio. A verdade é que, muitas vezes, uma pessoa negra não parte do mesmo ponto, sob o ponto de vista do privilégio que nos favorece a nós e os desfavorece a eles. Mais vale mesmo baixar a cabeça e dizer que têm razão. É preciso sensibilizarmo-nos uns aos outros. Acho que os homens, entre si, são demasiado leais e não tocam nos erros uns dos outros. Do género, “olha, fizeste isto com a tua mulher, não está certo”. Isso não acontece e as mulheres fazem-no.

Não vês qualquer tipo de mudança?

Está demasiado entranhado e a mudança está muito lenta, nos homens. Acho que as mulheres têm evoluído bastante. Têm tido um grande auto-cuidado, em cursos, em evoluir. A vida delas já não está à volta do homem, da relação, do casamento. Eu sinto que as mulheres apostaram mesmo em ter filhos, mas carreira sempre, skincare, tudo isso. Parece coisa pouca, mas não é. Eu sinto que o homem está, não só resistente a essa mudança, mas também não está a acompanhar os tempos. Está lento, eles não querem mesmo abdicar do privilégio e acompanhar esta mulher moderna e sem medo. Devíamos ir embora de mãos dadas juntos, num sentido de mudança, senão nós vamos e os homens ficam. A gente, assim, pensa: então se eu trabalho, tomo conto das lides da casa e tu não fazes nada? Assim, mais vale ficar sozinha. Ou caminhamos juntos ou então…

Lembras-te da tua primeira experiência em cima de um palco? 

A primeira vez em palco com o rap foi mesmo punk, no sentido em que subi eu, a Capicua e a Maria José Fontes. Eu canto com muita raça, sou pequenina, mas pareço um pitbull (risos). Tive de olhos fechados o tempo inteiro. Uma hora e não vi o público, logo as filmagens estou sempre de olho fechado. A primeira vez de stand-up, eu estava a fumar um cigarro pensante na cozinha a pensar “onde é que eu me fui meter”, já que vou ter 300 pessoas a verem-me e vou ter de arrasar num show que nunca fiz. Posto isto, subestimei uma bufa e borrei-me. Estava com a tripa a acusar e borrei-me e borrei o tecido da cadeira. Por isso, é para veres que a cena bate forte.

E como é que ficou a cadeira?

Detergente da louça e ficou tudo resolvido (risos). Quanto ao primeiro espetáculo do Resort, é incrível que tu não entras em palco, o que entra é a tua adrenalina, estás no pico máximo. Nem tens noção do que disseste há um segundo. Como os temas são as crises dos 40, a pandemia, entre outras questões de indignação, eu sem saber disse muitas vezes “car*lho”, sem saber. A pausa era sempre “car*lho”, “car*lho”, sempre assim. Ainda por cima, em Lisboa. Disseram-me: “olha, Marta, tens que limar esses ‘car*lhos’ todos” (risos). Eu não tinha noção, estava só a viver mesmo. Acabei por limar isso, teve de ser. A experiência de palco é muito intensa, tu nem sentes nada. Isso e há outra coisa, tu tens um público em Lousada, outro em Lisboa, outro no Porto, vão ser todos diferentes. Logo, tens de adaptar. Tenho público que vai até aos 70 ou 80 anos, até por causa de ter feito o 5 para a Meia Noite, por exemplo. Às vezes, tenho pessoas no público que nunca tiveram um orgasmo. Por isso, não posso falar de certas coisas, temos de ir com calma e nivelar por baixo.

Para quem não sabe, foste mãe recentemente e disseste que não adoras a maternidade, ainda que adores a tua filha. O que é que menos te seduz na maternidade? Dirias que a pressão de ter um filho te muda criativamente?

Claro. Agora, passaram-se quase três anos, logo os desafios são outros. Quando nasce, tu não dormes. Por isso, imagina-te todo maluco, sem dormir, com o corpo a libertar hormonas marotas e despenteadas. Isso e repara: saiu do teu pipi uma pessoa. Entende só que o teu corpo gerou e fez um corpo, tipo fábrica. Quando sai tu ficas: Luísa, és mesmo tu? É incrível. No entanto, a tua vida é um luto da vida que tinhas antes. Tudo que conhecias de ti e do teu dia a dia, tu mudaste. Já não gostas do mesmo perfume, da mesma roupa, não sabes quem és, já não és a mesma pessoa porque já não te ris desde 1914. Só tens olheiras, mau humor, olhas para o teu corpo e vês que não era o teu corpo, ficou diferente. Uma barriga estranha, um rabo caído. Nem sei se é de dia ou se é de noite. A mama gretada. Assim, onde é que tu te encontras ali? Quem eu era, divertida, que ia para aqui, ia para ali, e agora não posso ir para lado nenhum. Eu tenho de levá-la, mas não estou livre. O homem diz “olha, vou correr”, a mãe não pode dizer isso. É toda uma logística, sendo que o mundo pensa que a filha é da mãe e que o pai está só na back. Desde que sou mãe, sou cada vez mais feminista. Quanto à parte de brincar com a minha filha, sou-te sincera: eu não amo brincar, não adoro brincar às bonecas nem aos Legos. Encontrei o puzzle que eu gosto e o PlayMobile. Ela quer brincar a toda a hora e isso também é um desafio. Nunca dorme a noite inteira, ou porque é os dentes, ou os sonhos, os pesadelos, ou porque quer leitinho, ou porque tenho de ir às urgências. Posto isto, no meio, como é que tens aquela mente fresca que absorve, para ser criativa, quando a tua vida está assim? Só há pouco tempo é que me consigo pintar, escovar o cabelo, fazer um skincare. Nem ir à casa de banho em paz, às vezes. Estás sempre a ver se não se magoou, se não pôs os dedos numa ficha. Como é que, depois, de repente, se fica criativa? O que podes ter é um olhar de quem está a viver o drama e a fazer piada dele, como fiz no “Embaraçada”. Fiz humor na desgraça.

Isso vai ao encontro daquela máxima que diz que o Humor = Tragédia + Tempo, de certa forma.

Sim! Eu com pouquíssimo distanciamento consegui, até por uma questão de sobrevivência, porque estava bem no lodo. Desgosto de amor, pandemia. No Resort, falo disso tudo. Pandemia, crise dos 40, relações, até questões femininas, como incontinência, por aí fora.

Fazes comédia, logo és artista. No entanto, o artista também é público. Ver comédia ainda te diverte? Ou sendo um trabalho, já é algo que deixas para segundo plano, quando tens algum tempo livre?

Há fases em que não me apetece, em que prefiro ver um drama ou um reality-show, um casamento às cegas, essas coisas. Também gosto de um bom filme indie, mais sobre a vida. Gosto de um blockbuster do cinema. Adoro uma boa série como um Game of Thrones. No último espetáculo, por exemplo, eu fiquei muito tempo a ver comédia, vi muito Dave Chapelle. Aquilo põe-te no lugar e faz-te lembrar e acordar o estado, até porque a Beatriz Gosta (em palco) é um estado. Eu, antes de entrar no palco, faço uma reza a Deus e peço para que esse estado não me abandone só desta vez. Eu bato sempre o olho no texto, porque sou supersticiosa. Vejo as punchlines e digo sempre: vou-me divertir. Isso é importante para aproveitares e estares sempre presente. Mas adoro ver comédia, stand-up brasileiro, americano. O Chapelle inspira-me muito e é o meu favorito.

Em Portugal, tens alguma referência?

Adoro o Bruno Nogueira, o Ricardo Araújo Pereira, nunca vi o Salvador Martinha ao vivo, mas acho que ia adorar. Prefiro comédia stand-up do que revista. Adoro os tempos e as pausas, como a pessoa joga com isso tudo. O stand-up é cru, é seco, é só um indivíduo. Adoro a Bumba na Fofinha, também, por exemplo, entre muitas outras pessoas que admiro muito!

O sotaque provavelmente denuncia-o, mas para quem não sabe tu és do Porto. O que é que mais te orgulha em ser do Porto?

Em primeiro lugar, se perco por ser mulher, também perco por ser do Porto e por viver no Porto. Centralizaram tudo, as oportunidades estão todas em Lisboa. Por outro lado, quando se passa alguma coisa no Porto, ou querem uma gaja do Norte, lembram-se logo: Beatriz Gosta. Por isso, ganha por ser mulher, perco por ser mulher. Ganho por ser do Porto, perco por ser do Porto. Mas perco mais do que ganho. Mas já sabes como é a malta daqui: o Porto é a raça, o Porto é coração na boca, o Porto é malta calorosa. Porto é tudo de bom, Porto é uma nação, Porto é Porto. Eu abro a boca e sou do Porto, não há volta a dar.

Passatempos favoritos?

Garimpar e descobrir coisas. A mala que tenho agora, por exemplo, é única. Eu gosto de chafurdar no meio do lodo e encontrar aquela mala, aquela coisa. E depois negociar, adoro isso. Gosto de estar sozinha, também. De estar com amigos a beber vinho. De encher a cara e ir para a night. Gosto de ir ao shopping andar em todos os carrosséis. Tudo o que eu não andei, a minha filha anda.

Comida favorita?

Se cozinharem para mim e estiver bom, eu vou sempre fazer “hmmm” (risos). A minha filha também faz isso. Quanto ao prato, só tem de ser bem feito. Um bom tempero. A minha vizinha tem um café à frente de minha casa, ela faz um rancho apimentado que me apanha na curva. Aquele rancho é o rancho. Parece o da minha avó. Gosto de uma boa francesinha, claro. Gosto de um bom bacalhau com natas. Mas tem de ser o bacalhau com natas. É por isso que há sítios onde comes uma coisa. Vou comer o pernil ao Guedes, por exemplo. A francesinha ao Lado B. E o rancho da Dina (risos).

Melhor e pior sítio para te levarem num date?

Eu não gosto de sair para jantar, em date. Uma pessoa cozinhou para mim num date e a comida estava muito boa, mas não havia quinoa, então fez cuscuz, logo fiquei com uma caganeira e o glúten inchou-me. Na hora do sexo, eu estava mal. Fui à casa de banho muitas vezes. Por mais que passes uma toalhita, não estás confiançuda. No primeiro date, gosto só de ir tomar um café ou beber uma cerveja, assim se quiser bazar rápido, vou só embora e está tudo bem. Jantar ainda fica o espinafre no dente e não consegues dizer à pessoa. Também não gosto de jantar, porque se não gostar dela, levo com ela o tempo inteiro e é chato (risos). Isso e uma vez cheguei a ir a um sushi em que rachamos a meias uma conta de 90 paus. Numa primeira vez, com alguém que não conheço de lado nenhum, ainda por cima arrotar esse dinheiro todo, não! Cafezinho está ótimo. Ir às Virtudes é o clichê do clichê. Já me conhecem ali, já tive com dez homens ali, e eles também, já levaram mil mulheres. Por isso, Virtudes é proibido, já está muito queimado, mas pronto, se me quiserem levar para lá, vamos embora (risos).

Coisa que mais te irrita nos outros?

As pessoas acharem que a Beatriz Gosta é exagerada e que vinca muito o sotaque. Quem me conhece, depois vai-me dizer que eu sou igual. Claro que a Beatriz Gosta está mais a sacar cavalão, está mais na cena, mas não sou assim tão diferente. Não sou uma farsa. Irrita-me dizer que sou muito exagerada. Até pode soar mal, mas irrita-me, por vezes, estar no metro a ter um mau dia e as pessoas insistem. Eu digo “estou num mau dia” e dizem-me “anda lá”. Se estou ao telefone e me interrompem e põem o telemóvel na cara. Se estiver a comer com o meu pai, também não gosto que me peçam fotos nesse contexto, comigo ali a comer frango. Irrita-me pessoal muito bêbado e a agarrar-me. Até no cabelo do meu pai já agarraram, uma vez. Isso eu não gosto. Irrita-me acharem que tenho de estar sempre num modo de mandar piadas. Se fores músico, a abordagem é mais calma.

Mas também há aquele “toca aí uma musiquinha”…

Certo. No hip-hop, é faz aí um freestyle. Depois, também não gosto que digam “ei, ganda maluca!”. No outro dia, estava no ginásio e ouço do fundo “ganda maluca!”. Uma pessoa só pensa, ei que grande tono. Deixem-me correr. A pessoa de leggings, t-shirt larga, eu vou miserável para lá. Vou obrigada, nem quero ir treinar, só porque faz bem à saúde. Há muita coisa que chateia. Homens machistas, que acham que as mães estão desesperadas para arranjar macho. Esse preconceito irrita-me. Uma vez tive um date com um assim, fui-me embora, estava a contar às minhas amigas, ele estava atrás e ouviu (risos). Só me lembro da minha amiga me dizer para olhar para trás (risos). Eu a dizer que ele só falava das mães e a falar mal da experiência e ele atrás de mim… só comigo (risos).

Coisa que tu fazes e que mais irrita os outros?

Digo muitas vezes “sabes”. Uma vez disse “vão haver” e diz-se “vai haver”, oralmente às vezes sai-me. Há sempre o fiscal da gramática portuguesa de Camões (risos).

Para acabar, não te pergunto o que dizem os teus olhos, mas pergunto o que encanta os teus ouvidos. Ou seja, qual foi o maior elogio que guardas, até hoje, sobre o teu trabalho?

Uma coisa que me marcou foi o Bruno Nogueira ter-me marcado para o “Bicho”. Eu, no Porto, esquecida no mundo, e ele lembrou-se. Mal ou bem, estive a representar o Porto e fiz parte de um projeto que foi muito importante neste país, numa altura tão difícil na vida de muitas pessoas. O Ricardo Araújo Pereira, uma vez, arranjou o meu número e ligou-me às nove e meia da noite para o telemóvel e elogiou-me a dizer que não é o que eu falo que tem graça, mas a forma como eu falo. Foi incrível receber uma chamada dele. Gosto muito dele. Dá-te auto-estima e carrega a bateria. As pessoas na rua ou no Instagram dizem-me que as ajudei numa altura difícil, que as fiz rir num momento complicado, através da música ou do humor. Dizem “empoderaste-me, representas-me”. Também acontece o público de 70 ou 80 anos dizer que gosta de mim. Eu gosto muito de pessoas, de as conhecer, saber as histórias e assim. Gosto que as pessoas gostem de mim, ainda que saiba que seja impossível agradar a toda a gente.

Agradecimentos: Grande Hotel do Porto, pela cedência do espaço para a entrevista e sessão fotográfica

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