Bando do Mar

As duas faces da Pandemia

As duas faces da Pandemia

Já passou mais de um ano desde a última vez que fiz um concerto sem medos e sem restrições…

Já passou mais de um ano, desde a última vez em que no final do meu concerto, pude abraçar, tirar fotografias, partilhar palavras de afeto e carinho com o meu público…

Já passou mais de um ano, desde a última vez em que pude envolver-me com a energia, com as palmas, com as expressões de sentimentos e, até o som da respiração que a minha plateia me devolvia e me fazia viajar na partilhar da emoção mais pura e nostálgica, que a musica e o Fado em particular, sempre me deram.

Já passou mais de um ano desde a última vez…. e, não sem quanto mais tempo passará até que tudo volte até ao “desde a última vez”.

Além de todo o impacto negativo que esta pandemia trouxe à sociedade, quer moral, financeiro, social, saúde etc… creio que, o que neste momento me está a agonizar a mim e a muitas outras pessoas, independentemente do seu ramo de atividade, é a INCERTEZA.

INCERTEZA, de não sabermos até quando, de não podermos programar, de nos retirar o controlo das nossas vidas, de termos todos os nossos sonhos, projetos e objetivos suspensos.

Recordo-me de no início não ter valorizado muito esta Pandemia, de ter por momentos acreditado na teoria da conspiração e que tudo iria passar em breve, que estaríamos a ser vítimas de uma crise política, etc, etc… Mas, hoje em dia, já nem interessa os “porquês”, o facto é, que esta Pandemia, veio virar do avesso as nossas vidas.

Particularmente nós artistas, estamos a ser severamente penalizados com ela. Não há trabalho, não há espetáculos, os apoios do Estado são escassos, e como disse, não há um fim à vista. Por muito que nos reinventemos, que façamos lives, ou espetáculos por zoom, nada é igual… é “plástico” … principalmente o Fado que é tão visceral… tão de improviso… tão de empatia… tão de emoção partilhada…

Há dois anos atrás, estive prestes a despedir-me do meu trabalho como psicóloga, porque estava a tornar-se insustentável e demasiadamente exaustivo, manter simultaneamente a carreira de Psicóloga com a de Fadista. Hoje agradeço por não o ter feito!

Mas isso não elimina a minha perda, nem o impacto da pandemia na minha vida. Sinto falta de cantar, de estar com o meu público, sinto falta dos meus músicos da minha equipa e de toda a adrenalina, sinto até falta do cansaço e exaustão que a minha velha rotina me causava.

Mas, a Pandemia tem também duas faces, dois lados e, do outro lado também encontrei coisas boas. O “Tempo”, o tempo que tenho e não tinha, para me dedicar mais à minha família, em especial à minha filha de 4 anos.

A Pandemia fez-me repensar nas minhas prioridades, nos meus valores, nos meus projetos. Tem-me dado o privilégio de partilhar momentos com a minha família que de outro modo não o poderia fazer. Voltei a praticar antigos hobbies, como escrever, cozinhar (passo horas a testar receitas), bricolage, etc.

Não sei se me tornei uma pessoa melhor ou pior, mas sei que estou menos egocêntrica e menos centrada nas rotinas e no viver para “ter”. Mudei…todos mudamos… não poderia ser de outra maneira. E sou grata, muito grata à vida!

Cláudia Madur
Fadista

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