“Vivi na agricultura toda a minha vida”, afirmou, com orgulho, o jovem de Vila do Conde. E a verdade é que, todos os jovens agricultores que Tiago Silva conhece têm raízes familiares no ofício. “Os meus pais e avós eram produtores de leite e, há cerca de 4 anos, mudaram de atividade para a criação de vacas de carne, da raça minhota, exatamente por adivinharem a crise que iria afetar a área”, contou, em declarações à Viva. Há cerca de quatro meses, o jovem engenheiro agrícola decidiu dar um passo em frente. “Quis dar o impulso de me iniciar como jovem agricultor, mas fi-lo no pior timming possível porque coincidiu com a suspensão das candidaturas de apoio à instalação e ao investimento”, acrescentou.
Firmino Cordeiro, responsável da Associação de Jovens Agricultores de Portugal (AJAP) também revela preocupações em relação ao setor da agricultura no nosso país. “Está muito envelhecido. Somos o país da Europa com a menor percentagem de Jovens Agricultores (2,9%) , quando a média Europeia é de 5,3%”, destacou, salientando que “como se isso não fosse extremamente grave, somos também o país com maior percentagem de agricultores mais velhos – 48,0% detêm mais de 65 anos”.
O presidente da AJAP considera também que, atualmente, a agricultura é uma área “pouco produtiva”. “Algumas culturas estão mesmo a desaparecer e está a verificar-se uma redução muito grande de área cultivada”, notou, referindo que, segundo dados de 2009 do INE, “as terras aráveis registaram um decréscimo generalizado, com particular incidência nas culturas industriais (-67%), batata (-63%), leguminosas secas (-49%) e cereais para grão (-43%)”.
Assim sendo, Firmino Cordeiro considera que sem um forte investimento na instalação e na formação profissional dos jovens associados à agricultura, “dificilmente conseguiremos rejuvenescer a atividade primária que cada vez mais ex-políticos, pensadores, economistas e outras individualidades destacam como estratégica para Portugal”.
Segundo Tiago Silva, tentar chegar a um consenso num grupo de agricultores é uma tarefa complicada. “É uma solidão, uma ausência de ideias. Vejo isso nas reuniões que às vezes fazemos. A ideia de investir em novas tecnologias é muito mais difícil de implementar porque, lá está, há um grande contraste de ideias”, assegurou o jovem.
O dia-a-dia de um jovem agricultor
Apesar de variar consoante as diferentes instalações, o dia-a-dia de um jovem agricultor poderá desenhar-se em moldes pouco semelhantes aos de um jovem de qualquer outra profissão. “Há culturas muito sazonais. E, por exemplo, na área animal, o trabalho é diário. Uma vaca não deixa de dar leite por ser Natal ou não deixa de comer nos feriados”, afirmou Tiago Silva, entre gargalhadas.
Para Firmino Cordeiro, é extremamente difícil de descrever o dia-a-dia de um agricultor. No entanto, assegura que, “para todos eles, o dia começa muito cedo, pelas 6 horas, e acaba bastante tarde, para além de que apenas aqueles que ainda conseguem ter mais do que a mão-de-obra familiar a trabalhar, se podem dar ao luxo de terem, pelo menos, o domingo para descansar”, salientou o responsável da AJAP.
do pacote”, ilustrou. De acordo com o presidente da AJAP, ao longo dos anos, “perpetuou-se a ideia de que é uma atividade pouco nobre, suja, enfim, o parente pobre da economia”.
Mariana Albuquerque