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Junta da Galiza

Adriano Luz

Adriano Luz

“Há um lado mais exuberante no Porto. As pessoas não se sentem inibidas de aplaudir, de mostrar que gostam”.

A VIVA! esteve à conversa com um ator que dispensa apresentações. Chama-se Adriano Luz, nasceu na Invicta e, ao longo da sua carreira, soma dezenas de projetos de enorme relevo no panorama da representação em Portugal.

Para os portuenses, a boa notícia é que podem ver o ator em ação, no Teatro Sá da Bandeira, até ao dia 21 de abril, domingo. Adriano Luz é protagonista na peça “O Regresso de Ricardo III no Comboio das 9h24”.

Ao longo da conversa com a VIVA, foi possível conhecer algo mais sobre o percurso pessoal e profissional do artista portuense.

O Adriano, ao longo do seu percurso, já fez vários tipos de trabalho. Desde ator, a encenador, a dobrador, a realizador, já navegou por várias áreas criativas. Qual é a magia que vê em cada uma delas?

É muito diversa. Todas elas têm a sua magia. Depende da fase da minha vida e do que mais me apeteceu fazer. Antes de tudo, sou ator. As outras coisas sou fruto das circunstâncias. Ou por curiosidade, ou por outro motivo qualquer. Gostei muito de realizar. Já realizei em contexto de televisão, novelas, séries, mas sempre como algo complementar ao ser ator. Volto sempre ao sítio onde se encontra a minha matriz, que é ser ator.

Já trabalhou em cinema, teatro e televisão. Qual é que considera ser o registo em que se sente mais confortável?

A resposta não difere muito da anterior. Neste momento, estou em palco no Porto, acabado de terminar uma série de televisão que gostei muito de fazer. Já houve peças de teatro que adorei fazer, outras que não gostei assim tanto e alguns, escassíssimos, que não gostei de fazer. Isto aplica-se também à TV. Há trabalhos que gosto de fazer, outros nem tanto. No cinema, também é assim. Eu costumo dizer que há processos que nós entramos e só depois é que percebemos o que aquilo que nos vai dar. Por vezes, somos surpreendidos em trabalhos. Cheguei a fazer uma peça com o Ricardo Neves Neves, que fui com uma expectativa média, contudo diverti-me imenso. A proposta do Ricardo era extremamente interessante. Foi a primeira vez, inclusive, que fiz um personagem que fazia de mulher. De repente, deu-me um prazer enorme em fazer essa peça que eu não achei que me fosse divertir tanto. Às vezes, há surpresas. Esta é positiva, às vezes é ao contrário. Diria que é mais fácil as coisas correrem bem com pessoas que já conhecemos, quando vamos trabalhar. 

Anteriormente, chegou a referir que tinha uma certa apetência para cantar. Chegou a equacionar, em algum momento de carreira, em apostar de forma incisiva na música? 

Não, são contextos diferentes. Nunca tive a profissão de ser cantor. De facto, cantei e toquei alguns instrumentos, viola, flauta, bombos. Mas numa circunstância diferente. Foi a seguir ao 25 de abril e eu era mais militante de causas do que músico. Não me via como artista. Era mais uma vocação ideológica. Por causa disso, conheci pessoas maravilhosas: José Mário Branco, Zeca Afonso, Sérgio Godinho, entre outros. Não conseguia compor nada, mas sentia-me grato de estar ali e partilhar momentos históricos. Sempre mais num registo de vocação política do que artística. Depois, isso levou-me ao teatro, mas foi por um acaso. O João Mota da Comuna chamou-me a mim e a alguma dessa malta que cantava para participar no espetáculo. Eu fui ficando. Há aqueles que dizem que tinham o bicho do teatro, eu não tinha nada. Fui encontrando, fui descobrindo coisas. Através da música, descobri o teatro. Na música, não ganhei um tostão. Do pouco teatro que fiz no Porto, também não era a minha profissão. Só comecei a ser profissional do teatro quando vim para Lisboa, para a Comuna, e o João Mota me convidou a vir. Vim pé ante pé, não havia um projeto de vida, simplesmente fui-me moldando ao que a vida me dava e ia descobrindo. Tive muitas hesitações, se era isto que queria fazer ou não. A certa altura, comecei a perceber que gosto de estar por aqui.

Ao longo da sua carreira, trabalhou com inúmeros atores e atrizes. Há algum conselho que, no início, levou para a vida e que sente que fez a diferença no seu percurso?

Se me deram conselhos, esqueci-me. Há muitas pessoas que me marcaram. No teatro, antes de mais, o João Mota, que me trouxe do Porto para Lisboa. Deu-me um pontapé para fora do ninho. Isso foi o princípio de tudo. Depois, há outro encenador que me marcou, também enquanto ator e na forma como represento ainda hoje. Essa pessoa é o Luís Miguel Cintra, com quem trabalhei na Cornucópia. Todo o ambiente que lá se vivia marcou-me muito enquanto ator. A minha forma de dirigir atores é muito parecida àquela com que gosto que me dirijam a mim. Adorei a forma como o Luís Miguel Silva me dirigiu enquanto lá estive.

Fotografia: Instagram Adriano Luz

Por falar em percurso, o Adriano estudou engenharia. Acha que teria sido tão feliz no seu percurso se tivesse enveredado por esse caminho, profissionalmente?

Seguramente que não. Eu fui para Engenharia por uma razão muito simples. Na altura, fiz o 11º mais um ano sabático, que era uma espécie de serviços cívicos. Eu nunca fui um grande aluno, mas acabei por fazer uma espécie de exame e aí sim, acabei. Simplesmente fiz isso porque comecei a ser chamado para a tropa. Na altura, era obrigatória e há quem queira que volte a ser. Fui chamado e a única forma de não ir era continuar a estudar. 

O Adriano nasceu no Porto. Diria que a alma da cidade moldou-o, de alguma forma? O que mais a orgulha em ser portuense?

Eu ainda tenho família no Porto. Acho uma cidade lindíssima. Neste momento, estou em Azeitão, por isso estou transformado num aldeão. Posto isto, o que é que me acontece no Porto? Nós estivemos hospedados no Grande Hotel do Porto, um espaço belíssimo. Contudo, a Rua de Santa Catarina está cheia de pessoas. O turismo é bestial e não há como contornar isso. As grandes cidades precisam disso e o património agradece. No entanto, aquele Porto que me lembro de pequeno desapareceu. Procuro aquela tasca que gostava atrás do São João e já lá não está. A mesma coisa acontece em Lisboa. Acho que as grandes cidades poderiam crescer de uma forma diferente. Na restauração, por exemplo, as minhas referências de espaços antigos, como as verdadeiras tascas, isso já não existe. Já não vinha ao Porto há algum tempo e senti isso. Tive algumas saudades do Porto que conhecia antes. As casas estão muito parecidas, há francesinhas na farmácia, se for preciso (risos). Há uma grande quantidade de casas que ou não existem ou estão descaracterizados

O Adriano está com “O Regresso de Ricardo no Comboio das 9h24”, no Sá da Bandeira. Sem ser spoiler da peça, o que é que pode revelar ao público mais curioso sobre a mesma?

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É uma comédia muito improvável, na premissa inicial. É um homem que diz ter uma doença terminal, que diz ter perdido a família toda e que contrata atores para fazer o papel da família mais próxima. Há muitos equívocos por causa disso. Depois descobre-se que nem tudo o que ele diz é verdade. Nem tudo o que parece é. Nem o casting do meu personagem é muito bem feito e a comicidade surge a partir disso. O texto é muito inteligente, está muito bem escrito e muito bem encenada. Tivemos por vários lados do país, Guarda, Estarreja, Vila Real, por aí fora. Em todos os sítios, a peça funcionou muito bem. Tem um grande espetro de público. Um filho de um amigo meu tem 13 anos e divertiu-se imenso com a peça. É uma peça transversal. Dá para todos.

Na peça, tem contracenado com vários nomes conhecidos do mundo da representação. Entre estes, Rui Melo, Susana Blazer e Jéssica Athayde. Como é que tem sido trabalhar com este elenco?

Eu conheço bem o Rui que já trabalhamos juntos. A Jéssica conheço-a desde que ela começou a fazer os Morangos. Quem eu conhecia menos bem era a Susana Blazer e o Miguel Tihré. A Ana Nave já tinha trabalhado algumas vezes. A Sónia Aragão é a primeira vez que trabalho e o Samuel conhecia mais de o ver do que contracenar com ele. Sempre lhe achei graça. Foi uma oportunidade ótima. 

Sendo do Porto, somos sempre suspeitos, mas costuma dizer-se que o público do Porto é especial. Sente isso, de alguma forma, quando cá atua?

Sinto. As gentes do Porto são mais efusivas. Tenho família do Porto e eles também são assim. São pessoas que gostam de falar, de comunicar com as pessoas e de receber. São efusivas dentro e fora do teatro. Sente-se essa vontade de partilhar. Não sei como o Porto, se ainda há o hábito de ir aos cafés. No meu tempo, íamos muito ao Piolho, era aí que nos encontrávamos. Na altura, eu cheguei a Lisboa e aí não havia tanto isso. Aquele típico convívio de café. Há um lado mais exuberante no Porto. As pessoas não se sentem inibidas de aplaudir, de mostrar que gostam. No entanto, sim: o público do Porto é bastante caloroso.

Nas redes sociais, o Adriano pronuncia-se muito sobre causas sociais e questões de justiça social. Num ano em que se celebram os 50 anos do 25 de abril, considera que a cultura nunca foi tão importante?

Uma cultura e não só. Claro que é importante uma cultura larga, de largo espetro. É importante que consigamos falar da nossa política, mas também falar do resto do mundo. Acho que a cultura tem um papel muito importante, assim como a educação. Outra questão é que as pessoas dão tudo como adquirido do que leem nas redes sociais. O jornalismo é importantíssimo. As pessoas devem ter boas fontes de informação. Sempre que me dizem alguma coisa, eu digo: leste isso, onde? É decisivo saber isso, para saber que é confiável. Nas redes sociais, é o que nós quisermos. Então com a Inteligência Artificial vai ser bonito… Acho que tudo está relacionado com informação. Há muitos casos que eu gosto de partilhar no meu Instagram, como por exemplo o que se passa no Médio Oriente. A Europa está a dormir, ou pior, a fazer-se de morta. Como se não estivesse a acontecer. Espero que daqui a uns anos não se fale num Holocausto 2. 

O Adriano já é ator há algumas décadas. Quais considera ser as grandes diferenças de ser ator antes e agora?

Eu quando comecei como ator tinha chegado ao paraíso do teatro. Estava no topo do teatro. Estive dois anos na Comuna e o horizonte dos atores na altura era a partilha diária com as pessoas que faziam teatro connosco. Fosse que grupo fosse, todos vivíamos como se fôssemos uma família. Se me perguntassem se queria essa modelo agora, diria que não. Na altura, era assim. Um era da Comuna, o outro da Cornucópia. Hoje, já não é assim, a geração mais nova é individual. Cada um é o que é, são eles, são indivíduos. Reflete uma sociedade menos preocupada com o outro, mais individualista e menos coletiva. No entanto, não vale a pena chorar o leite derramado. Está a acontecer o que está a acontecer no Mundo. Mesmo em Portugal com a ascensão da extrema-direita e vamos aos Instagrams dos artistas e pouco se fala sobre isto. Acho que é importante tomar partido sobre questões como o racismo, a homofobia, xenofobia, o fascismo. Cá em Portugal, chegamos a ter nomes como Zeca Afonso ou José Mário Branco. Eu sinto que, hoje em dia, há poucos a tomarem posições. Tenho pena que não sejam mais. Muitos atores vivem de patrocínios e as marcas não gostam de ver isso, mas pronto, é o que é. Não digo que seja vender a alma ao diabo. Há pouco teatro político, por exemplo. Agora, fazem-se vários espetáculos sobre o 25 de abril, mas muitos são movidos por uma coisa chamada dinheiro. Não tem nada de mal, são profissionais e precisam de ganhar a vida. No entanto, não devia ser só no dia 25 de abril. Ele está sistematicamente em causa. Basta olhar para Itália, por exemplo. O mundo contamina-se, porque é uma aldeia global. Ninguém diria que quando era o André Ventura sozinho na Assembleia, iríamos ter 50 pessoas semelhantes. O perigo para regimes totalitários não acabou. Está presente. 

Fotografia: Instagram Adriano Luz

 Passatempos favoritos?

A minha família. Não é propriamente um passatempo, mas passo muito tempo com eles. Vou ao ginásio, gosto de me cuidar e tento fazê-lo, mesmo quando estou em trabalho. Posso não ir ao ginásio, mas vou dar uma corrida ou uma caminhada. Correr e andar também nos permite conhecer sítios. Tenho cães, é um dos meus passatempos. Mas também nunca tenho muito tempo livro. Estou sempre limitado, o que é bom sinal. Não me posso queixar de trabalho, felizmente. Agora, estou a começar uma novela. Como sou diretor artístico da SP, tenho o meu tempo muito ocupado. Também gosto de jogar ténis, de vez em quando vamos jogar. Fazem-me bem ao corpo e à cabeça.

Séries ou filmes favoritos?

Ultimamente, não tenho visto nada. Só futebol e telejornais. Tenho pouco tempo, não dá mesmo. Quando vejo, é muito em contexto de trabalho. Em casa, não. Estou a ler um livro do Ricardo Araújo Pereira e também um do Valter Hugo Mãe. Prefiro ler, porque passo a vida com imagem à frente dos meus olhos. O que me relaxa mais é ver futebol, mesmo que não seja o Porto. Desliga-me um bocadinho o cérebro e gosto de ler, porque viajo mais do que com imagens. A imagem condiciona. Há séries magníficas, atenção. Eu não tenho visto, não é por não serem incríveis. Por exemplo, “Cuba Livre” só vi quando chegou à Netflix.

Tradição do Porto que mais aprecia?

Não posso dizer que seja o São João. Não sei se é por ter muita gente ou não, mas fico algo inquieto, mesmo quando vivia aí. Eu acho que era tudo o que era a gastronomia do Porto. A minha irmã cozinhava muito bem, os meus irmãos também. Em família, nós tínhamos tradições de Natal, que eu gostava imenso. Não por sermos religiosos, mas pela parte gastronómica. De vez em quando, ainda venho aí passar o Natal. Já não voltamos há algum tempo, mas gostávamos de voltar a fazer. No Porto, come-se mais. Os atores costumam dizer que vêm ao Porto e engordam (risos).

Fotografia: Facebook Margarida Vila Nova

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