CM Matosinhos

“A romântica greve estudantil de há 60 anos”

Caminhava-se para o final do 1º Período do Ano Letivo de 1961/1962 na então Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, situada na portuense Rua da Firmeza, escola que ministrava os mais variados cursos para os seus mais de 300 alunos, raparigas e rapazes, tais como Pintura, Escultura, Ourivesaria, Cinzelagem, Mobiliário Artístico ou mesmo Cerâmica Decorativa.

Nela, lecionavam alguns dos mais prestigiados Artistas Plásticos do país, como por exemplo António Cruz, Coelho Figueiredo, Fernando Tudela, Isolino Vaz, entre outros de igual relevo.

Naturalmente, muitos dos alunos de então viriam a revelar-se, anos mais tarde, nomes de igual dimensão entre os quais Jaime Azinheira, Marta Resende, Artur Moreira, Margarida Santos, Emerenciano, ou Júlio Capela, para citar apenas aquelas cujos nomes vieram recentemente noticiados nos mais variados Órgãos de Comunicação Social pelas mais variadas razões.

À época desta efeméride, era diretor o prestigiado escultor Sousa Caldas, homem afável e sempre disponível para uma boa conversa com os alunos que a solicitavam por isso mesmo, para dele ouvirem as palavras certas de incentivo, invariavelmente envoltas em sorrisos, quando não mesmo em gargalhadas.

O ambiente era perfeito. Boa camaradagem, bons professores e bons resultados nos trabalhos executados.

Entretanto, tinham chegado à Escola dois novos professores de Matemática, marido e mulher, provenientes de um Liceu da cidade, e que teriam vindo substituir outros tantos colegas, mas não passou muito tempo para que começasse a circular entre os alunos o receio de que o ainda diretor estivesse para ser substituído pelo sisudo senhor.

E toda esta ideia passou a povoar as mentes jovens de um número cada dia maior de alunos, ainda a dois ou três anos de concluírem os seus cursos e,de resto, nada faria supor que um professor da área de Ciências viesse a ocupar o lugar cimeiro de uma Escola de Artes Decorativas. As inquietações foram-se adensando na medida exata da avaliação geral por parte dos seus alunos dada a total ausência de sensibilidade da pessoa em questão, desde logo por apelidar de “picassadas” alguns dos trabalhos expostos nos corredores.

E as suspeitas viriam a confirmar-se assim que o diretor cessante passou a ausentar-se da Escola por períodos cada vez mais longos, aguardando certamente a hora de passar o cargo.

Foi nesse hiato de tempo que a revolta se instalou nos alunos, todos adolescentes, ainda a dois ou três anos de completarem 18 anos.

Uma nota afixada no átrio da entrada, congelou todos quantos a leram: ” A partir da próxima 2a feira, as alunas passarão a utilizar a escada principal da Escola, enquanto os alunos a do lado oposto.” Isto queria dizer que as alunas iriam passar a chegar também primeiro às salas de aula, sendo que, como também serria posto em prática nesse mesmo dia, as primeiras a sair.

Nesta Escola vigorava a velha prática de as alunas terem uma aula de Puericultura no mesmo horário em que os alunos passavam uma hora no ginásio para a aula de Educação Física. Porém, o salutar convívio entre todos sempre foi uma espécie de ponto de honra na Escola, onde as aulas mistas apenas tinham lugar na então Escola Superior de Belas Artes, destino complementar natural após o curso de preparação de dois anos como termo da frequência na “Soares dos Reis”, apesar da opção daquelas e daqueles que seguiam para o ensino de Trabalhos Manuais.

Questionado durante as aulas, o professor em questão esquivava-se sequer a dar mais explicações sobre a sua tomada de posição, mesmo quando o desacordo dos alunos era bem audível à saída da sala de aula.

E depressa circulou a ideia de se fazer uma greve, de forma ordeira, com os alunos aderentes no exterior do edifício, sendo que quem quisesse entrar no mesmo, a fim de não faltar às aulas, estava livre de o fazer.

Apenas com o conhecimento de dois os três professores, na 6a feira seguinte à decisão, a quase totalidade dos alunos posicionou-se nos passeios da rua e noutras zonas circundantes. Alguns dos que entretanto tinham entrado, rapidamente se foram juntar aos “revoltosos”. Apenas uns quantos, poucos, se mantiveram no seu interior, apesar de todas as aulas terem sido suspensas.

O ambiente no corredor que dava acesso à sala dos professores era de cortar à faca, entre olhares severos para os alunos que iam chamando pelo ainda diretor, apesar de ausente da Escola.

Quando o professor na calha para o substituir surgiu, ao fundo do pátio que dava acesso à Escola propriamente dita, um coro de assobios fê-lo sorrir de modo estranho, mas por pouco tempo, pois que regressou ao corredor com outros dois colegas e com a cara de poucos amigos que fez questão de mostrar quando se voltou, uma última vez, para aquele imenso grupo que o criticava.

Não resta hoje a menor dúvida que os “grevistas” nem essa palavra conheceriam até então, muito menos as consequências que dela poderia advir, como pouco depois se confirmaria.

De salientar que as crises académicas posteriores, como as de Medicina, apenas iriam ocorrer no ano seguinte, assim como mais tarde ainda a de Coimbra. 

Sem arredar pé dos seus “postos de combate civilizado”, aquela multidão de alunos assistiria, cerca de uma hora mais tarde, à serena chegada de Sousa Caldas, sem qualquer sinal de aprovação ou reprovação pelo que já soubera por telefone, e nessa ocasião, ao vivo. Mas esta onda de juventude sentia o que lhe iria na alma. Apenas ia fumando um cigarro enquanto dava os seus passos calmos até ao interior da Escola. Foi um momento de júbilo, entre aplausos e vivas ao diretor.

Então, como que uma tempestade que se abate sem aviso, eis que chegam à rua dois ou três carros da Polícia de Intervenção, cujos elementos saltam dos mesmos em jeito de ameaça sob as ordens de um oficial, de pingalim em riste, mandando dispersar os “arruaceiros”. Das palavras aos atos passaram-se uns 15 segundos, e as primeiras bastonadas fizeram-se sentir no corpo de quem estava mais próximo da entrada do átrio.

Uma “debandada épica” a destes agora perigosos ativistas revolucionários, como brevemente iriam perceber. Foi o caos, como nos relembra aqui o mais penalizados dos alunos, acusado de agitador pelo professor/inquisidor da Escola, palestrante de serviço nos dias 28 de maio e outras efemérides exultantes do Estado Novo, como mais tarde, já adultos, estes alunos melhor compreenderiam.

– O chamado piquete de greve foi dispersado pela Polícia de Choque da PSP do Porto, cujo comandante fora transportado numa carrinha de madeira, chapa Mercury. No mesmo instante, chegavam alguns “jeeps”.

Escassos dias, foi a Escola avisada de que seria obrigatória a deslocação de todos os alunos a um determinado gabinete a fim de responderem às perguntas de um bem conhecido professor sobre os acontecimentos dessa greve.

E assim foi. Praticamente toda a Escola foi responder ao “Inquisidor de serviço”. Na sua presença, recusei responder-lhe, a menos que tivesse um mandato de alguma autoridade publicamente reconhecida. Resultado da sentença: fui expulso. Outros colegas suspensos por 8 ou 30 dias. Outros, sem que pudessem faltar a uma aula que fosse, de outro modo seriam igualmente afastados da Escola. No meu caso, fiquei mesmo impossibilitado de frequentar qualquer outro estabelecimento de ensino.

Ainda assim, tempos mais tarde, fui aceite nas “Belas Artes” como aluno assistente das cadeiras de Pintura, História da Arte e Geometria Aplicada.

Mas ainda hoje tenho pesadelos devido a este injusto e severo castigo, simplesmente porque era um dos mais populares alunos da Escola.

Abílio Coutinho.

Ainda não satisfeito com as punições infligidas aos que, supostamente, teriam agido ao mando de algum professor ou familiar, o inquisidor em questão fez questão de, em vésperas de Natal, se deslocar às residências dos alunos mais penalizados avisar as respetivas famílias da expulsão ou longa suspensão dos seus educandos. Um desses alunos viria a ser realizador da RTP e mais tarde Professor Universitário na Universidade Católica.

No ano seguinte, pareceu mostrar-se levemente arrependido desses atos, mas alguém lhe atirou esta frase: “Pois, tinha que mostrar serviço!”, logo após os exames finais de 1964, ano de “correr com aquela gente, demasiado popular na Escola”, como aconteceu, mesmo com quem praticamente não abriu a boca no exame oral.

Desta história, resta ainda acrescentar que um professor, muito cordial mas discreto, acabaria por ser chamado à PIDE. Não mais voltou a lecionar na “Soares dos Reis”.

Cumprem-se agora sessenta anos sobre estes factos, certamente ainda pouco conhecidos no meio estudantil. Decorria o período do Estado Novo, cujos defensores e justiceiros não sabiam sequer entender, neste caso, que os adolescentes, protagonistas desta história, apenas esperavam do futuro diretor um convite para regressarem ao interior da Escola e ouvir o que alguns representantes dos alunos em greve lhe queriam transmitir. Mesmo sabendo ele bem qual o motivo daquela posição. 

Não foram fáceis os tempos seguintes, apesar de alguma brandura no comportamento da Direção, mas o gesto deixou-lhe um sinal claro de que a Arte deve ser vivida de forma livre, mesmo que apenas no contexto do convívio, pois quanto à obra, essa ainda iria ser submetida à Censura por mais 13 anos.

 Álvaro Nazareth 

PUB
www.pingodoce.pt/pingodoce-institucional/revista-sabe-bem/natal-a-mesa-com-a-sabe-bem/?utm_source=vivaporto&utm_medium=banner&utm_term=banner&utm_content=181121-sabebem64&utm_campaign=sabebem

Viva! no Instagram. Siga-nos.