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25 de Abril

25 de Abril
Quando “a poesia está na rua”

Maria Helena Vieira da Silva e Sophia de Mello Breyner, duas importantes figuras da pintura e da poesia portuguesa, foram cúmplices. E é exatamente dessa relação de intimidade – e do facto de ambas terem celebrado, na sua arte, os valores do 25 de Abril de 1974 – que nasce “A Poesia está na rua”, uma exposição celebratória dos 40 anos da Revolução dos Cravos, que vai ser inaugurada esta sexta-feira, às 18h00, na renovada Galeria Municipal Almeida Garrett. A mostra, que resulta de uma parceria entre a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva (FASVS), o Millennium bcp e o Pelouro da Cultura da autarquia portuense, vai estar disponível ao público até 22 de junho.

A expressão utilizada para batizar a iniciativa esconde um pormenor curioso: faz alusão ao icónico cartaz elaborado por Vieira da Silva, a pedido de Sophia de Mello Breyner, para celebrar a revolução. Hoje, quatro décadas depois do golpe militar que depôs o regime ditatorial do Estado Novo, a galeria municipal, anexa à Biblioteca Almeida Garrett, vai recordar o dia que viria a mudar por completo o curso da história do país, em paralelo com a vida e a obra da pintora, que, um dia, foi também vítima da ditadura. Assim, para além de obras das instituições parceiras, o público poderá contemplar vários cartazes de particulares que responderam ao apelo da FASVS e da Câmara Municipal do Porto, destinado a reunir um número significativo de testemunhos em conjunto com os cartazes que, desde 1974, dão corpo à imagem gráfica da revolução.

poesia_rua3Resgatar o génio de Vieira da Silva

Tal como indicou a curadora da exposição, Raquel Henrique da Silva, “há um simbolismo neste evento, que envolve duas das mais brilhantes personalidades da cultura portuguesa do século XX”. “Sophia, então deputada da Assembleia da República, pede a Vieira da Silva que construa a imagem da revolução em que não participou”, explicou a responsável, frisando que artista se mudou para Paris, em 1928, para construir uma carreira, “que, em Portugal, não era possível”. Apesar de nunca ter deixado de ir a Lisboa, Maria Helena e o seu marido (o pintor húngaro Arpad Szenes) obtiveram a nacionalidade francesa em 1956, acabando de vez com o estatuto de apátridas que tiveram ao longo da 2.ª Guerra Mundial e que os obrigara, em 1940, a emigrar para o Brasil. Antes disso, em 1939, o Estado português negou a Arpad a nacionalidade lusa, ainda que muitos amigos do casal tenham tentado interceder, mesmo junto de Salazar.

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“Magoada, Vieira da Silva manteve, a partir de então, uma atitude de desprezo militante para com o regime, mas acolheu, na sua casa em Paris, muitos jovens artistas portugueses, bolseiros da Fundação Calouste Gulbenkian ou emigrados políticos, protegendo-os e apoiando os seus sonhos”, frisou a curadora. A intenção de Sophia foi, assim, a de “resgatar o génio de Vieira”, admirado em grandes museus mundiais e “ignorado” pelo regime salazarista. A artista decidiu responder afirmativamente ao repto lançado, conciliando a pintura com a frase da sua amiga: “A poesia esta(va) na rua”. Nasceram, então, duas pinturas diferentes, que podem ser apreciadas na exposição: “uma mais abstrata e a segunda mais realista, como a revolução reclamava”, segundo descreveu o vereador da Cultura da autarquia portuense, Paulo Cunha e Silva.

poesia_rua1Mostra organizada em três núcelos

A tripla homenagem que a exposição propõe – ao 25 de Abril, a Vieira da Silva e a Sophia de Mello Breyner – está organizada em três núcleos, nos quais é possível ver a coleção Vieira da Silva da Fundação Millennium bcp, a biografia da artista, organizada pela FASVS e “pontuada com belos retratos seus”, pela mão de Arpad, e ainda os dois cartazes que a pintora concebeu para ilustrar a Revolução dos Cravos. Às duas têmperas, a organização decidiu juntar também o cartaz “Liberdade”, realizado para o 10.º aniversário da efeméride.

De acordo com o vereador, a iniciativa representa também “um estudo de caso interessante sob o ponto de vista da mobilização dos públicos, pois conta com o resultado de um anúncio colocado na imprensa há dois meses solicitando aos proprietários de cartazes desta série a sua cedência para constarem na exposição”. A organização pediu ainda a Pedro Cabrita Reis que reinventasse o momento, produzindo um cartaz comemorativo dos 40 anos da Revolução, “o que ele fez adicionando ao título da exposição um inquietante ponto de interrogação, que usa o vermelho e verde da bandeira nacional”. “Melhor forma de celebrar o 25 de Abril e, com ele, uma certa atmosfera de revolução cultural que a cidade quer protagonizar, seria difícil de encontrar”, concluiu Paulo Cunha e Silva.

Texto: Mariana Albuquerque

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