Recheio

Uma achega para a Cultura

Uma achega para a Cultura

O que é a Cultura?, ou a que chamamos cultura? Se recuar até aos anos 50, dois antropólogos identificaram mais de duzentos sentidos na utilização do termo. Todavia, deixemos a polémica filosófica e partamos de um resumido princípio:”cultura é tudo o que se opõe a natureza, isto é, tudo o que resulta da intervenção humana sobre a natureza.”1 Este conceito leva-me a recuar até aos latinos para chegar ao Renascimento e ao Romantismo onde se desenvolve a noção de “alta cultura (em oposição a baixa, que também era cultura) e que era das gentes mais ‘cultivadas’ — passe a redundância — nos domínios das letras e das artes.”2 Actualmente, em Portugal, mantemos esta noção de cultura.

O que seria necessário para termos uma melhor cultura?, pergunto e respondo: uma melhor educação, de certeza. E para isso necessitaríamos de um melhor ensino, que ensinasse os nossos alunos a argumentar com saberes adquiridos e não com um saber de papagaios, que durante a vida papaguearão definições sem qualquer interesse prático. Basta abrir um qualquer canal da televisão, ver um qualquer programa, para se perceber que maioritariamente grassa a incultura e a desonestidade intelectual nivelando a mediocridade por onde vamos caminhando alegres e contentes, por vezes, até felizes.

Para isso era preciso remodelar o ensino, rever os currículos, tirar os professores de funções administrativas, para serem substituídos por funcionários preparados para estarem nas secretarias (sei que o país é pobre mental e financeiramente), para que os professores tivessem finalmente tempo para se dedicarem aos seus alunos, para que pudessem finalmente pensar num melhor ensino.

Uma vez remodelado o secundário seria a vez da universidade também refrescar os seus currículum limpando-a do ar bafiento que de lá, por vezes, sai. Penso mesmo que nas Ciências tem havido bons e bastantes progressos o que não se verifica na maior parte dos restantes cursos.

Para termos uma Cultura forte e reconhecida é necessário:

— educação familiar (“E quem educa os pais? “, verso final de um poema de José Gomes Ferreira) e educação escolar;

— remodelação profunda do ensino (secundário e universitário), aproximando, melhor, aproximando as Ciências das Humanidades;

— temos, de uma vez por todas, de abandonar esta cultura de circo pobre que não nos enobrece.

Claro que um povo culto, com dúvidas e que pergunta quando não sabe, se torna mais difícil de manejar, de aldrabar. Mas isso são consequências da própria Cultura. Falei da Cultura em geral, podia sectoriá-la. Podia, por exemplo, falar do Teatro e do Cinema, que me tocam particularmente. Sei, todavia, que um povo culto é também um povo que necessita de Teatro e Cinema, por isso escrevi sobre Cultura em geral. E para concluir não esqueçam que não é a Cultura que tem de descer ao povo, é o povo que tem de subir à cultura.

1 In: Onésimo Teotónio Almeida, De Marx a Darwin — a desconfiança das ideologias, pp.57
2 Ibidem

Paula Guedes

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