A Biblioteca Pública Municipal do Porto está, por estes dias, irreconhecível. Onde antes havia estantes cheias e leitores, há agora silêncio e espaços vazios, interrompidos apenas pelo som do embalamento de milhares de documentos que estão a ser transferidos para vários pontos da cidade.
Ao longo do último ano e meio, cerca de um milhão de documentos foram retirados do edifício, o equivalente a 23 quilómetros lineares de acervo, entre monografias, periódicos e livros antigos. A operação, inédita no país, antecipa a reabilitação e expansão da biblioteca, que deverá reabrir nos próximos anos.
Operação inédita mobiliza cidade e envolve logística especializada
Criada em 1842 por decreto régio de D. Pedro IV, a biblioteca é uma das poucas instituições com depósito legal em Portugal, a par de Lisboa. O esvaziamento total do seu acervo representa, por isso, um momento histórico.
De acordo com a autarquia, a transferência dos fundos mobilizou várias unidades municipais e recorreu a soluções logísticas exigentes, incluindo transporte em viaturas climatizadas e acompanhamento permanente por equipas técnicas. Parte do espólio foi encaminhada para espaços como a Casa das Reservas do Museu do Porto, a Biblioteca Almeida Garrett e a antiga Escola Ramalho Ortigão, sempre sob escolta da Polícia Municipal.
Manuseamento rigoroso para proteger obras únicas
Todo o processo foi planeado ao detalhe, com especial atenção às condições de conservação. A documentação foi acondicionada com materiais específicos, como cartolinas desassificadas, e, no caso das obras mais raras da chamada Casa Forte, com proteção reforçada em caixas feitas à medida.
O transporte deste núcleo mais sensível foi assegurado por uma empresa especializada em obras de arte, em veículos climatizados e com acompanhamento técnico permanente. O objetivo foi garantir estabilidade térmica e evitar qualquer risco para o património.
Entre o vazio e a expectativa de uma nova biblioteca
Para quem trabalha há décadas na biblioteca, o momento é difícil de descrever. O esvaziamento do edifício trouxe uma sensação de choque, mas também de expectativa quanto ao futuro.
A operação, iniciada com a revisão do fundo documental em 2022, prolongou-se até 2025, incluindo a transferência de mais de 70 mil documentos especiais, como manuscritos e cartografia. Ainda assim, durante todo o processo, foram mantidos serviços ao público, como o empréstimo interbibliotecas e o acesso a plataformas digitais.
Reabilitação arranca com investimento superior a 30 milhões
Com o edifício agora totalmente desocupado, segue-se a fase de obra. A intervenção, gerida pela empresa municipal GO Porto, representa um investimento de 31,6 milhões de euros e será desenvolvida a partir de projeto do arquiteto Eduardo Souto de Moura.
A empreitada prevê a reabilitação do antigo Convento de Santo António, preservando as fachadas históricas, mas também a criação de novos espaços, como uma cafetaria, uma biblioteca sonora, áreas exteriores ajardinadas e um novo edifício para aumentar a capacidade de armazenamento.
Com uma duração estimada de três anos, a intervenção pretende devolver à cidade uma biblioteca mais moderna, acessível e preparada para o futuro.
Tesouros ficam na cidade durante período de obras
Durante o período de encerramento, o acervo permanecerá sob gestão municipal, distribuído por vários espaços na cidade. Segundo o vereador da Cultura, trata-se de uma opção deliberada para garantir maior controlo, segurança e proximidade.
Além da preservação, está também prevista a continuidade de iniciativas culturais, incluindo novas edições de exposições dedicadas ao património da biblioteca.
Depois de quase dois séculos de história, a Biblioteca Pública do Porto entra agora numa nova fase. Entre o vazio atual e o futuro prometido, fica a expectativa de um regresso renovado, pensado para as próximas gerações.