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Tiago Nacarato: “Coliseu do Porto? Será um concerto cheio de surpresas que só no momento se vão revelar”

Tiago Nacarato:

A VIVA esteve à conversa com Tiago Nacarato, um dos artistas com mais sucesso da nova geração e que anunciou recentemente que irá celebrar os seus 10 anos de carreira com um concerto no Coliseu do Porto, dia 30 de janeiro, às 21h30.

Desde o espetáculo, ao percurso até aqui, foi possível conhecer melhor Tiago Nacarato, que, apesar da influência da cultura brasileira, é nascido na cidade do Porto. Pode ler a entrevista na íntegra, em baixo.

O Tiago é da casa, neste caso do Porto. Mas o Coliseu é sempre o Coliseu. O que é que significa para um músico do Porto que cresceu aqui e vê finalmente o seu nome no cartaz daquela que é a sala mais icónica da cidade?

É um sonho a ser realizado. Já estive lá por algumas ocasiões, mas nunca com o meu nome. É um passo muito importante na minha carreira e que eu estou a levar com muita felicidade e carinho. Já estive na Casa da Música, já enchemos várias vezes a Casa da Música. Acho que este era um passo necessário para a carreira.

Sendo um concerto tão diferente, até pela sala que é, o público que está habituado a ver concertos de Tiago Nacarato pode esperar alguma coisa de diferente?

Haverá sempre possibilidade para trazer novidades. Vamos ter pelo menos músicas de dois discos, acabei de lançar um chamado Não Saber o Desamor e hei de lançar outro até ao final do ano, se tudo correr bem. Essa será a grande novidade do show, e depois vamos ter também as músicas que marcaram a carreira, músicas do primeiro disco Lugar Comum, do segundo disco Peito Aberto e os clássicos que costumo tocar nos shows e pelos quais as pessoas vão e compram bilhetes.

Foto: via RTP

O álbum que ainda aí vem é uma espécie de continuação deste? Podemos esperar uma temática diferente?

Acho que ele é a resposta a este período. O Não Saber o Desamor é um álbum que traz muita reflexão interior. O grande motivo para eu ter escrito isto foi a morte da minha avó, a música central do álbum é a Avó. O próximo disco vai ser um antagónico. Porque também não dá para passar muito tempo aqui, senão enlouquecemos.

Sendo um disco tão pessoal, isso mexeu com o processo criativo? Foi diferente de trabalhos anteriores?

A grande diferença foi eu ter recorrido a muitas mais pessoas, a muitos mais compositores. Pela primeira vez tenho músicas que não são minhas no álbum inteiro, a Luísa Sobral, o Diogo Brito e Faro e a Picas. A temática em si fez com que eu refletisse sobre músicas que estavam na minha gaveta, algumas muito antigas. A certa questão foi eu querer escrever sobre este assunto e pedir auxílio aos meus amigos compositores que admiro muito. Essa foi a grande novidade do disco.

O concerto vai celebrar uma década de carreira. Como é que se resume 10 anos de histórias num alinhamento?

É assumir as músicas que fizeram mais história, as que estiveram mais presentes nos concertos até hoje, e tentar tocar aquilo que nos está mais no coração na altura. É muito difícil para mim cumprir repertórios muito específicos, no próprio dia pode mudar-se alguma coisa. É como estares a escolher o almoço de amanhã, não sabes o que te apetece. Quero guardar espaço para isso acontecer e preparar um show com a máxima potencialidade que consigo tirar de mim e dos meus músicos.

Vai haver algum tipo de aposta em conteúdos multimédia? Vai perder um bocadinho aquele caráter intimista que muitas vezes associamos às performances?

Não sei bem responder a isso, porque não estamos no início do processo. Falta quase um ano.

O Tiago é do Porto, mas é indissociável a sua raiz brasileira. Depois de várias passagens pelo Brasil, sente-se mais músico de Portugal ou do Brasil?

Pelas minhas raízes serem brasileiras e a maior parte da cultura que absorvi no início da minha vida ter sido principalmente cultura brasileira, cinema, gastronomia, música, sinto e sempre sentirei mais afinidade com a música popular brasileira. Mas sinto um sentido de missão de querer escrever sobre a minha vida, e a minha vida passou-se em Portugal. Divide-se o coração. Este disco, Não Saber o Desamor, é um disco muito português, diria eu. Mas musicalmente sinto mais atração pela música brasileira, que para mim é uma das melhores músicas do mundo.

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Quais são as principais diferenças que sente entre o público português e o brasileiro?

O público brasileiro tem uma característica que é do povo: o botão da emoção sempre no máximo, há um calor muito grande. Em Portugal as pessoas são mais refletidas, demoram a demonstrar aquilo que estão a sentir. São pessoas que querem ser conquistadas, que querem perceber o contexto. O povo brasileiro é mais transparente emocionalmente — não quer dizer que seja melhor nem pior, são características diferentes. O público italiano sinto-o bem parecido com o português. O espanhol é mais emocional. Mas são todos bons públicos e cabe-nos a nós moldarmo-nos a eles.

Do ponto de vista do performer, o que é mais desafiante: esse lado mais desconfiado do público português ou o lado brasileiro com o botão no máximo?

É mais desafiante, com certeza, o público português. Quando não temos uma resposta, estamos ali a tentar preencher um buraco vazio. Mas depois de tantas experiências compreendemos que há um tempo determinado para as coisas acontecerem, e aquele nervosinho miudinho vai desaparecendo.

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Esse nervosinho é algo que ainda se sente, ao final de tantos concertos e palcos?

Diminuiu muito ao longo dos tempos. A grande diferença de quando comecei para agora é perceber que antes eu tinha medo do erro. Agora sei que o erro é onde a sorte está e consigo brincar com ele. É no erro que vamos conseguir fazer algo de novo. E assumir o erro, sem medo. Hoje em dia, principalmente numa época da inteligência artificial, o erro mostra muita coisa… é quase como se fosse premium.

Ao longo destes anos colaborou com nomes como os irmãos Sobral, Roberto Menescal. Consegue destacar algum encontro ou parceria que tenha mais marcado?

Tenho que parar para agradecer muito a uma pessoa que foi muito importante para mim no início da carreira, depois do The Voice: o Miguel Araújo. Ele estendeu-me a mão, abriu-me um estúdio, gravou guitarras para mim, tocámos várias vezes juntos, com ele a querer dividir o cachê de igual forma. Deu-me a noção de que eu estava no caminho certo. De todos os encontros, foi o que mais significou ao nível da carreira aqui em Portugal. Depois, o encontro com o Roberto Menescal, um dos pioneiros da Bossa Nova, foi muito emocionante. Mas gosto de todos: Salvador Sobral foi maravilhoso, a Luísa Sobral, o Zé Ibarra, o JP. Tive a oportunidade de tocar com muita gente que amo e admiro.

Como é que encara hoje o facto de muita gente ainda o associar ao The Voice?

Dou graças a Deus que isso tenha acontecido. A vida de um músico vai sempre oscilar entre uma coisa como foi o The Voice ou um disco que não bateu muito. Agradeço muito a quem ainda se lembra, já foi há 10 anos. Logo a seguir ao The Voice lancei A Dança, que teve lugar na Rádio Comercial, e fui ao Brasil e as pessoas já cantavam essa música. Só tenho a agradecer. Quando fazes música do coração, que muitas vezes não está a seguir modas, ficas mais vulnerável ao mercado.

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Qual foi a maior aprendizagem que o programa trouxe e que carrega ainda hoje?

A aprendizagem é que a televisão é chata, mas vale muito a pena. É chato porque temos que esperar muito e aquela coisa do “tudo a postos” tira a magia do momento. Mas o que compreendi mais é que esses meios de comunicação e esses concursos trazem à tona muita gente. Se pensarmos em quem faz sucesso em Portugal e espalhamos pelos programas de televisão como o The Voice, o Festival da Canção, a Operação Triunfo, quem conhecemos normalmente passou por aí. É importante, não digo que seja o único caminho, mas é importante.

Há algum artista com quem ainda gostasse de colaborar no futuro?

Aqui em Portugal tenho artistas que já colaborei e de quem gosto muito: a Ana Bacalhau, que está sempre presente na minha vida, a Garota Não, a Milhaninhas. Tive a sorte de tocar com toda a gente que admiro em Portugal. No Brasil, Caetano Veloso, já o conheci na casa do Salvador Sobral, mas nunca tivemos a oportunidade de cantar juntos, isso seria muito fixe. E o Marcelo Camelo, que tenho a sorte de estar a produzir comigo o meu próximo disco.

De salas, depois do Coliseu, o que se segue?

Não sei. Para fazer o Pavilhão Super Bock Arena ainda preciso de algumas condições, estamos um bocado vulneráveis às vontades do mercado. Mas acho que o Coliseu vai ser um ponto em que ok, já passei por tudo aquilo que sonhava fazer. Depois acho que a vida nos trará coisas boas, com certeza.

Complete a frase: “Devo ver o concerto de Tiago Nacarato no Coliseu do Porto porque…”

Vai ser um concerto cheio de poesia, canções bonitas, e surpresas que só no momento se vão revelar.

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