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Somos do Porto, carago!

Somos do Porto, carago!

“Bai-me à loja e traz-me o troco”

Das incontáveis expressões para transmitir a alguém impaciência, a minha preferida é esta: “Bai-me à loja!”. Adoro. É fantástica. Muito melhor do que “Vai chatear o Camões”, “Vai ver se eu estou lá fora” ou “Vai pentear macacos”. Mas, para ser perfeita, tem de ser escrita e pronunciada bem ao modo do Porto: com “bê”, claro!

Hoje, além do fabuloso “Vai-me à Loja”, uma das melhores “tiradas” tripeiras, gostaria de abordar a questão sempre atual da troca dos “bês” pelos “vês”. Aliás, a expressão ganha redobrada força e eloquência quando dita e grafada desta forma. Isso é inegável. Mas por que motivo nós, no Norte, trocamos o B pelo V?

Em jeito de brincadeira, diz-se que se Deus não quisesse que o fizéssemos não colocava estas letras lado a lado no computador (é verdade. Pode confirmar, caro leitor). A verdade é que o betacismo (é assim tecnicamente que se designa a permuta da letra e do som) tem várias explicações. A primeira é de ordem sociológica, pois a aprendizagem da língua faz-se de forma “cega” e por tentativa-erro. Nenhuma mãe ou educador diz à criança que, para pronunciar determinado som, deve colocar a língua no palato, firmar os dentes, etc, etc. Nada disso, a criança ouve e vai, por ela própria, tentando repetir o que ouve. Ora, é evidente que existe muito mais tolerância da parte dos adultos para esta troca do que para outros erros, que são imediatamente chamados à atenção e corrigidos com vigor. Costumo dizer que se um puto de Rio Tinto disser “Olá, rica, tá bôa?” vai ser muito pior do que o “normal” e nortenho “bai-me à benda”. É berdade. Desculpem, é verdade. Por outro lado, para realizar o som “vê”, o nosso aparelho fonador necessita de muito mais impulsos cerebrais do que para realizar o som “bê”. Dá muito mais trabalho. Mas a razão principal é histórica. E a troca do “bê” pelo “vê” remete para a fundação da nacionalidade e da língua portuguesa, pois era quase de certeza assim que os primeiros falantes do que haveria de ser a nossa língua falavam. É berdade. Desculpem mais uma vez. É verdade. Era assim que se falava nos inícios da língua portuguesa nesta parte do noroeste da península ibérica (num território similar à Galécia), onde haveria de nascer Portugal. Ah, orgulho nortenho! Mas, claro, combém ter algum cuidado, pois, ao contrário de outras línguas bem próximas, existe no português também o som “vê”. Porém, de bez em quando, a gente perdoa…

Vai-me à Loja!

Não me chateies! | Vai ver se estou lá fora!

Expressão que denota descrença ou desdém, normalmente antecedida por uma enfadada interjeição de impaciência e contrariedade (por exemplo, “oh” ou “caramba”) com o sentido de reforçar a intenção de aborrecimento por algo ou alguém que insiste num objetivo que não nos é claramente favorável. Esclareça-se que a grafia correta, pela boca do povo, é “Bai-me à loja!”, ou seja, reproduz-se o registo oral do falante portuense e do Norte, num betacismo (troca do “v” pelo “b”) muito peculiar nesta região.

É pertinente referir que loja era, antigamente, a parte baixa da casa onde se alojavam, à noite, os animais. Nesse sentido, por analogia visual, poderá ser uma referência às partes “baixas” do indivíduo, uma alusão de insulto, isto é, um convite a visitar as partes menos recomendáveis. Até mesmo porque “loja” pode significar também “pequena cavidade”!

Será assim, dito num outro registo, “Não me chateies” ou “Vai ver se estou lá fora”.

Finalmente, é de mencionar que esta expressão tem uma outra de sentido perfeitamente equivalente que é o “Vai-me à Venda!” e que é utilizada pelo mesmo conjunto de falantes (sendo verdade que esta última é mais frequente nos falantes do Minho). Nada tem, portanto, a ver com o primeiro sentido semântico, que remete para “Venda”, não o resultante diretamente do verbo vender, mas do substantivo por derivação regressiva do verbo e que, no presente caso, alude a uma pequena mercearia, que era muito tradicional até meados do século XX e que continua ainda a existir nos meios mais rurais. É um espaço onde se vende mercearias, mas também vinho e petiscos, que são bebidos e comidos no local, que se transforma, assim, num tasco onde muitos homens permanecem horas a fio a beber, a comer, a conversar ou a jogar cartas.

João Carlos Brito
Professor, linguista e escritor

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