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Sementeira: há mais de 90 anos a vender sementes no Porto

Sementeira: há mais de 90 anos a vender sementes no Porto

Há lojas que vendem produtos. E há outras que, com o passar das décadas, acabam por vender também uma parte da memória de uma cidade. É esse o caso da Sementeira, negócio familiar que nasceu no Porto em 1933 e que, mais de 90 anos depois, continua ligado às sementes, à agricultura e à própria história da cidade.

Pedro Dias está ligado à empresa desde 1995 e assistiu, ao longo de mais de três décadas, às profundas mudanças no setor agrícola e na Baixa do Porto. Hoje, a loja física representa apenas uma parte do negócio, mas continua a ter um significado especial para quem conhece a casa e para várias gerações de clientes.

Uma empresa familiar nascida em 1933

A história da Sementeira começou em 1933, pelas mãos do avô e do tio-avô de Pedro Dias. A empresa nasceu depois de uma experiência anterior do avô noutra sociedade ligada ao comércio de sementes e estabeleceu-se no Porto, onde se mantém desde então.

Ao longo dos anos, a atividade foi crescendo. A empresa dedica-se à seleção e multiplicação de sementes, à venda direta e à revenda para diferentes pontos do país.

A estrutura também mudou. O setor de máquinas, que anteriormente funcionava no mesmo espaço, passou para uma outra loja em Gaia. No Porto ficou a loja central, ligada à área das sementes e com uma função que ultrapassa a simples venda ao público.

“Se hoje tivéssemos de viver só desta loja, manifestamente que era difícil”, explica Pedro Dias. A horticultura profissional é atualmente o grande núcleo da empresa, enquanto a loja portuense mantém uma dimensão mais pequena, mas também uma forte componente sentimental.

“Ainda cá estão”

É precisamente essa relação com os clientes que Pedro Dias destaca quando fala das histórias que ficaram ao longo das décadas. Uma das frases que mais satisfação lhe dá ouvir é simples: “Ainda cá estão. Ainda são os mesmos.”

A Sementeira passou recentemente por uma transformação do edifício e chegou a mudar a loja para outro número da mesma zona. A alteração levou alguns clientes a pensar que a casa poderia desaparecer.

A preocupação, contudo, não se confirmou. “Isso dá-nos uma certa alegria, perceber que as pessoas reconhecem a casa, gostam da casa”, conta.

Essa ligação também passa por memórias familiares. Há clientes que chegam à loja porque os pais ou os avós já a visitavam. Há ainda histórias de pessoas que se deslocavam ao Porto de comboio e que tinham na Sementeira uma paragem quase obrigatória.

São memórias que ajudam a explicar porque é que, para Pedro Dias, a marca está “enraizada na família portuense”.

Uma loja especializada numa época em que são cada vez mais raras

Apesar da transformação do comércio da Baixa, a Sementeira manteve uma característica que Pedro Dias considera diferenciadora: a especialização.

Numa altura em que é possível encontrar sementes em grandes superfícies, cooperativas ou outros espaços generalistas, continuar a existir uma loja dedicada exclusivamente a este universo permite oferecer algo que vai além do produto. O aconselhamento é uma das mais-valias.

Nem todas as sementes devem ser semeadas na mesma altura e nem todas as plantas respondem da mesma forma às condições existentes. Pedro Dias dá o exemplo das tulipas: é possível cultivá-las fora da época adequada, mas isso não significa que o resultado seja o mesmo.

Para a Sementeira, essa experiência acumulada é parte da identidade da casa.

A aposta nas sementes portuguesas

A diversidade é outra das marcas da empresa.

A Sementeira procura manter variedades autóctones e portuguesas, ao mesmo tempo que disponibiliza variedades híbridas. Para Pedro Dias, preservar esta diversidade é importante, mesmo quando isso significa competir com sementes semelhantes que chegam de outros mercados a preços diferentes.

A estratégia não passa por entrar numa guerra de preços.

“Nós não fazemos, normalmente, guerra pelo preço. Fazemos, sim, guerra pela qualidade”, afirma.

É uma filosofia que acompanha a empresa há décadas e que pretende manter a Sementeira como uma referência especializada para quem procura sementes e aconselhamento.

Da horta familiar à procura durante a pandemia

A relação dos portugueses com a agricultura também mudou muito desde 1933.

Pedro Dias recorda que, antes do 25 de Abril, era habitual haver pessoas que procuravam a Sementeira para comprar sementes destinadas aos seus próprios quintais. Esse hábito perdeu força depois da revolução, mas voltou a ganhar expressão a partir de meados dos anos 80.

Em períodos de dificuldades económicas, a procura voltou a aumentar. Houve pessoas que compravam sementes para cultivar em casa e até para ensinar os filhos a tratar de uma pequena horta nas varandas.

Durante a pandemia de Covid-19, a procura voltou a crescer, embora com uma diferença: muitas pessoas procuravam sobretudo plantas já desenvolvidas.

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Segundo Pedro Dias, isso acontece porque muitos consumidores não conhecem o processo que vai da semente à planta e preferem começar com algo que já está desenvolvido.

A pandemia acabou por representar, para a empresa, uma inversão positiva de um período anterior mais difícil para o setor agrícola.

Uma relação que vai além das sementes

A ligação da Sementeira ao Porto também se estende a projetos relacionados com a cidade.

A empresa participou, em parceria com a Câmara Municipal do Porto, num estudo relacionado com caldeiras-vivas. O objetivo passou por perceber de que forma estes espaços junto às árvores poderiam contribuir para a biodiversidade, a permeabilidade da água e uma manutenção mais simples.

Foram testadas várias misturas em diferentes locais.

Para Pedro Dias, este tipo de intervenção pode contribuir para trazer mais biodiversidade para a cidade, favorecer a presença de polinizadores, ajudar a reduzir a temperatura e melhorar a qualidade do espaço urbano.

É uma forma de aplicar o conhecimento da empresa fora da loja e de participar diretamente na construção de uma cidade com mais espaços verdes e biodiversidade.

O turismo mudou a Baixa, mas também trouxe curiosidade pela loja

A Sementeira está numa zona do Porto onde a presença turística se tornou cada vez mais evidente. No entanto, Pedro Dias faz questão de sublinhar que o turista não é o principal público da casa.

A maioria dos clientes continua a procurar a loja pelas sementes e pelos produtos agrícolas.

Ainda assim, há uma curiosidade crescente por parte de quem visita a cidade. Os vitrais existentes no espaço são um dos elementos que mais chamam a atenção dos turistas, que entram muitas vezes para fotografar.

A empresa está, por isso, a estudar a criação de algum merchandising associado à identidade da marca. A ideia é aproveitar essa procura sem perder aquilo que tornou a Sementeira relevante durante décadas.

“Temos de repensar o turismo que temos”

A relação entre comércio tradicional e turismo é, aliás, uma das preocupações de Pedro Dias quando olha para o futuro do Porto.

Na sua perspetiva, a cidade precisa de encontrar um equilíbrio entre a pressão turística, a vida dos residentes e a manutenção de um comércio diversificado.

Também considera importante recuperar espaços onde as pessoas possam simplesmente estar e melhorar as condições de circulação e segurança na Baixa.

“Eu penso que temos de repensar o turismo que temos, mas temos de dar qualidade”, afirma.

Para o responsável da Sementeira, a continuidade do turismo depende também da capacidade de criar uma cidade que ofereça diferentes experiências e segmentos, sem perder qualidade nem identidade.

Uma nova linha “retro” e um site para chegar mais longe

Apesar da história, a Sementeira não pretende ficar parada no tempo.

Um dos projetos em preparação passa pela criação de uma linha com uma identidade “retro”, recuperando elementos gráficos da marca e de antigos catálogos.

A ideia é juntar essa estética à informação prática: explicar aos clientes como cultivar, quando semear e qual o ciclo de desenvolvimento esperado para cada semente.

A empresa está também a preparar um novo site, que terá uma componente de comércio eletrónico dedicada às sementes nacionais.

A aposta surge numa altura em que a Sementeira já regista procura além-fronteiras, nomeadamente em França, Inglaterra e Espanha.

Mais de nove décadas depois de os seus fundadores abrirem portas no Porto, a Sementeira continua, assim, a tentar fazer aquilo que sempre fez: vender sementes, acompanhar quem cultiva e manter uma ligação próxima à cidade.

Num Porto onde muitas lojas desapareceram e onde o comércio mudou profundamente, a permanência da Sementeira é, para Pedro Dias, mais do que uma questão empresarial. É também a continuação de uma história familiar que se tornou parte da própria memória portuense.

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