A VIVA esteve à conversa com Sara Moreira. É um dos maiores nomes da história do atletismo português e já venceu várias medalhes nacionais e internacionais. Atualmente, é vice-presidente da Federação Portuguesa de Atletismo e desempenha funções na Câmara de Santo Tirso.
Nesta entrevista, que pode ler em baixo na íntegra, foi possível aprofundar o lado pessoal e profissional de Sara Moreira.
Quando olha para o início da sua carreira, o que diria hoje à Sara que estava a começar?
No fundo, dizia-lhe para nunca deixar de acreditar, porque tudo é possível. Foi exatamente aquilo que aconteceu. É claro que aquela menina de 9 anos, que começou a correr por acaso, não sabia o que era o atletismo, que havia os Jogos Olímpicos, campeonatos onde pudesse representar o país. Tudo acabou por acontecer de forma natural, porque acreditei sempre. Acho que essa naturalidade, numa criança daquela idade, fez com que tudo acontecesse da forma que aconteceu.
Houve algum momento em que percebeu: ok, isto é mais a sério do que eu achava?
Foi precisamente no ano de 2006/07, porque eu tinha entrado na faculdade e nesse ano não pude transitar para o 2º ano de Fisioterapia, por causa de uma cadeira. Na altura, tinha 20/21 anos, fiquei com mais tempo e a vida fez com que tivesse mais tempo para treinar. Comecei a treinar e a dedicar-me e percebi que se calhar ia mesmo ser a minha vida. Em 2007, faço os mínimos para ir aos Jogos Olímpicos de 2008, faço o meu primeiro contrato profissional, foi aí que fui para o Maratona CP. Aí, comecei a auferir um vencimento que me permitia fazer apenas atletismo. Nessa altura, entendi que ia ser a minha vida.

Ficou o “bichinho” de retomar o curso de Fisioterapia?
Sim! Ficou sempre o bichinho. Durante muitos anos, dedicava-me apenas ao atletismo e tinha sempre uma intenção de retomar e ir fazendo, de acordo com a minha disponibilidade, o que nunca aconteceu. Isto porque mudaram alguns métodos, que exigiam que passasse mais tempo na faculdade. Eu não tinha disponibilidade e, ao longo dos anos, o tempo vai passando, tive o primeiro filho, as coisas foram acontecendo, mas a vida não me tem proporcionado condições para que eu retome os estudos. Acabou por não ser uma realidade, mas sem dúvida que ocupa ainda o espaço de uma coisa por concluir. Nunca é tarde, mas também não tenho planos para isso, neste momento.
Já ganhou múltiplas medalhas de grande prestígio internacional. Desde logo, Amesterdão 2016, Barcelona 2010, Helsínquia 2012. Qual a conquista que teve mais sabor?
Curiosamente, uma que não referiu. No ano de 2009, foi a minha primeira medalha internacional, fui vice-campeã da Europa de pista coberta, na distância de 3000 metros. Foi aquela que eu acho que foi mesmo o ponto de viragem. Foi a minha primeira medalha como absoluta e recordo-me perfeitamente de ter tido a noção de que, se consegui isto uma vez, ia conseguir mais vezes. Foi quase como um sonho palpável que eu senti que ia conseguir mais vezes. Foi o ponto de viragem em termos internacionais, na minha carreira.

Pegando no aspeto mental do desporto, particularmente em provas longas, o que costuma passar pela cabeça quando o corpo começa a pedir para parar?
O meu estado mental difere muito, já tive muitos estados de espírito. Lembro-me que, na minha primeira maratona, o meu estado de espírito foi muito direcionado para o facto do meu filho mais velho ter feito 1 ano, no dia anterior à maratona. Eu parti a pensar que aconteça o que acontecer, a minha maior vitória foi o facto do meu filho ter feito 1 ano ontem. Parti com uma felicidade tal que desfrutei ao máximo da maratona, em Nova Iorque. Foi a minha estreia, não sabia para o que ia, estava a correr com um lote de atletas das melhores do mundo. Mas parti muito relaxada e aberta a qualquer resultado. Qualquer um seria perfeito. Preparei-me bem e se estava ali ia desfrutar ao máximo. Depois, tive outras maratonas em que jogou contra mim a parte mental, ou porque a preparação não correu tão bem, ou porque o estado de espírito naquele dia não é o melhor, ou porque estás com muitos pensamentos que não te deixam estar bem. Quando assim é, não corre bem. A minha experiência diz-me que tens de estar completamente tranquila, focada, a desfrutar e, quando assim é, não me lembro de pensar em mais nada. Cumpres os ritmos, vais focada em perceber toda a dinâmica da corrida, lês os momentos da prova, a respiração, tudo. Esses dias são perfeitos. Quando não é assim, ou estás super capaz fisicamente ou não vai correr bem.
Falou da prova que fez após o filho mais velho fazer 1 ano. É curioso que, no Instagram, a primeira coisa que aparece na descrição é “Mãe do Gui e da Clara”. Acha que esta forma de abordar o desporto lhe permite ir de cabeça mais fria para as provas?
Sim, sem dúvida. Engraçado que eu sempre quis ser mãe e, no mundo do desporto, quando atingi o alto rendimento, tive muitas pessoas que diziam “esquece, não vais ser mãe tão cedo”. É claro que ser atleta permitiu-me ser tudo aquilo que eu sou hoje, mas eu também queria ser mãe. Tinha essa vontade, independentemente do que viesse a acontecer na minha carreira. Contra muitas vozes, fui mãe e voltei a um nível ainda superior ao que tinha anteriormente. Eu reconheço a atleta Sara antes de ser mãe e depois de ser mãe. Precisamente por isso. Quando fui mãe pela primeira vez e voltei ao ativo, a forma como encarava a competição era completamente diferente. Apesar de tudo o que fosse acontecer, chegava a casa e tinha o meu filho, que era a coisa mais importante para mim. É claro que ser mãe é exigente, as noites mal dormidas, tudo isso influencia o rendimento. No meu caso, felizmente tive um bebé muito fácil e as coisas correram logo bem. Mas, ao contrário do antes de ser mãe, em que o resultado era quase uma exigência, onde, se o resultado não fosse bom, o dia já ia ser mau, a partir daí eu sabia que queria competir bem, ganhar medalhas, ser melhor, mas se isso não acontecer, está tudo bem. Essa leveza trouxe-me excelentes resultados.

Por esse mindset, tem sido mais fácil para a Sara o desporto após a alta competição, comparando com outros atletas?
Curiosamente, sim. Nunca é fácil, porque fomos atletas durante uma vida inteira. Crias hábitos de atleta, que depois nunca mais consegues ter na tua vida. O hábito de treinar duas vezes por dia, a liberdade que a corrida te dá. É algo que não dá para replicar noutras áreas da vida. Mas ao mesmo tempo, o desporto deu-me ferramentas e permitiu-me ter uma leveza tal e uma capacidade de ver a vida que eu transferi para o que é a minha vida neste momento. Quer como vice-presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, quer para o cargo que exerço de assessora do presidente da Câmara de Santo Tirso. A vida de um atleta molda-te de tal forma que te permite ser extremamente resiliente, positiva, capaz de enfrentar qualquer coisa. Isso eu transferi muito bem para a minha área de trabalho de agora. Sem dúvida que ser mãe me fez deixar a minha carreira de forma mais fácil. Porquê? Porque o tempo que dedicava ao meu filho era escasso. Entre treinos, recuperações, descanso, ficava com pouco tempo, apesar de estar com ele. Estava sempre focada no treino. Agora, com a minha filha Clara, pude aproveitar de outra forma que não podia antes. Pelo facto de ter um trabalho que é mais convencional, em que tenho um horário, consigo gerir melhor sem a exigência de treinar. É claro que foi muito bom ser atleta, mas também é muito bom estar agora a aproveitar desta forma. Sem dúvida que acabou por tornar tudo mais simples, naquela que foi a passagem da carreira desportiva para a vida que tenho neste momento.
Quais têm sido os maiores desafios de ser vice-presidente da FPA e assessora de uma autarquia?
Os maiores desafios são o facto de eu ser muito exigente e querer tudo de uma forma muito minuciosa. Por exemplo, na vice-presidência, querer deixar uma marca vincada do que eu sou e do que quero para o atletismo. Daquilo que foi a minha visão como atleta e do que eu não quero que aconteça com os atletas atuais. Isso é um desafio, faz com que tenhas de bater o pé, dizer não muitas vezes, dizer que vamos fazer de outra forma. Tudo o que é mudança cria dificuldade e esses têm sido os maiores desafios. Na autarquia, é mais ou menos igual, é deixar uma marca, dizer o que pretendo para o desporto, dizer de que forma devemos olhar para o desporto, para a atividade física, tudo isso. Exige muito, passar essa mensagem a pessoas que não são do desporto nem sempre é fácil, porque são 30 anos de desporto que me moldaram e eu entendo que quem não teve essa ligação não tem sequer noção. Tens de transmitir a tua forma de ver as coisas para os outros. Isso é um desafio, mas é um desafio bom, fazem-me levantar todos os dias motivada, a querer deixar a minha marca. Do género, ok, isto é difícil, mas vai ser algo bom.
Que mudanças considera já terem sido implementadas e quais é que faltam implementar?
As que já foram implementadas têm a ver com as oportunidades que nós podemos proporcionar aos atletas. Não haverá certamente medalhas no futuro, se nós não dermos experiências quando eles são jovens. E quando digo experiências, falo em experiências internacionais que permitam perceber em que ponto é que estão e onde querem chegar. Claro que alguns perceberão que não é aquilo que querem para a sua vida, e está tudo bem. Aí é que a entra a parte de investir ou não investir. “Ah, porque muitos vão desistir”, pois, mas se não investirmos, muitos outros vão desistir também. Este paralelismo foi aquilo que já conseguimos implementar e mudar. Houve um período anterior em que eu senti que a Federação só queria levar aos campeonatos, aqueles que tinham garantia de fazer um bom resultado. Isso não pode ser. O que eu quero implementar e que levará o seu tempo é olhar-se para o atletismo de uma forma diferente, desde muito cedo. Nós temos o fenómeno do futebol que é aquilo que nós sabemos, os miúdos todos querem jogar. O que eu pretendo é que se comece a ter experiências de atletismo, numa fase muito inicial, que permita aos miúdos escolher o atletismo. Claro que nem todos vão ser atletas, mas quanto maior for a base que criarmos, maior será o recrutamento, logo mais atletas teremos a praticar e a ter bons resultados. Todos sabemos que a competitividade faz toda a diferença. Eu tive essa experiência. Na minha altura, tive duas atletas que me fizeram querer ser mais competitiva, querer mais e conseguir mais: a Dulce Félix e a Jéssica Augusto. A competitividade tem de existir, se queremos mais resultados.

A propósito da competitividade, costuma haver menos aposta no desporto feminino, por tendência. Sente que isso também se sente no atletismo?
Felizmente, nós no atletismo não sentimos essa dificuldade tão grande no feminino. Há muitas meninas/mulheres a praticar. Há efetivamente uma fase, da faculdade, em que há muitas desistências, por ser uma altura de estudar, namorados, decidir o que queres para o teu futuro. O atletismo exige muito tempo, é fins de semana, é finais de dia. O desporto exige muito tempo, nem sempre é fácil. No entanto, não sentimos isso, porque acabamos por beneficiar pelo facto de ainda não se ter massificado o futebol feminino. É claro que agora há cada vez mais praticantes e ainda bem, está a crescer imenso. Num período em que praticamente não havia futebol feminino, havia muitas meninas que iam para o atletismo e os rapazes para o futebol. Talvez se sinta isso com o crescimento do futebol feminino, não sei, temos de trabalhar para que isso não aconteça.
A sua trajetória foi feita de grandes conquistas, mas também de paragens forçadas. Qual foi o momento mais difícil de aceitar?
As lesões são, sem dúvida, o pior para qualquer atleta. Às vezes, há paragens que nunca sabemos quando vão ter fim. Há lesões em que não detectamos o que é o problema, ou não se resolve de forma fácil. Por vezes, andamos com tratamentos e há necessidade de operar. Isso é o mais difícil de gerir numa carreira. No meu caso, pela forma como aconteceu e pela parte emocional que trouxe para mim, o pior foi nos Jogos Olímpicos do Rio, em que me lesionei em prova. Tive uma fratura de stress, durante uma maratona, não pude terminar a maratona e foi muito difícil de gerir e aceitar, porque eu tinha sido campeã 1 mês antes dos Jogos Olímpicos. Eu sabia que podia lutar para estar nas 5 primeiras, estava em super forma. Não poder concluir a prova e ter sentido o que senti por parte da opinião pública foi difícil. Senti naquele momento o que é passar de bestial a besta, num mês. Era a bestial que ia conseguir um grande resultado nos Jogos Olímpicos, eu própria tinha esse sentimento. De repente, naquele momento em que eu falho, senti que, para a opinião pública, já não era nada. Estive muito tempo lesionada, 2 meses só para o osso cicatrizar, depois o tempo de retomar e voltar à forma em que estava. Foi um processo longo. Tive até necessidade de recorrer a ajuda psicológica. Só no ano seguinte é que voltei a ter alguma alegria a competir. Deixou uma marca profunda em mim e foi, durante muito tempo, difícil de lidar.
Para finalizar, pergunto-lhe: quando se falar no nome Sara Moreira, o que gostava que dissessem sobre si?
Acima de tudo, que falassem de mim como alguém que acreditou sempre e que lutou sempre pelos melhores resultados possíveis. Efetivamente, é assim que eu me vejo. A vida foi boa comigo no desporto, mas sei que trabalhei muito para ter os resultados que tive.
