CIN

Produzir moda de forma sustentável

Produzir moda de forma sustentável

O consumo do produto de moda tem vindo a sofrer alterações ao longo dos últimos anos. Como mercado em constante mutação é sempre necessária uma rápida acção e adaptação por parte das marcas e isto é expectado por todos. Nunca tinha, porém, passado uma fase como aquela que estamos a viver.

Nos últimos anos o consumidor tornou-se mais atento e exigente com as características do produto que procura, como a origem dos seus componentes, o local de fabrico ou o tipo de recursos que são utilizados. Esta procura origina objecto de consumo, e este objecto de consumo está cada vez mais adaptado ao cliente e a uma nova consciência ambiental e social. Existe não só uma preocupação cada vez mais consciente e informada dos danos que a indústria da moda causa no planeta e os recursos que são gastos todos os anos com este fim, como também uma crescente preocupação com os direitos dos trabalhadores das linhas de produção dessas mesmas peças. É gerado assim um ciclo de procura e oferta que tem trazido para as marcas um novo modo de trabalhar. Quem ainda não produzia de forma sustentável está a ser forçado a produzir, quem já o fazia está a ser forçado a comunicar esta sustentabilidade. Qualquer uma destas situações é boa para o meio ambiente e para nós, enquanto seres humanos, não só por pouparmos a nossa casa, o planeta onde vivemos, mas também porque cada acção gera acção. A cada dia em que um gigante do retalho muda um pequeno processo de fabrico para algum mais sustentável há outros que o seguem, há consciências que se abrem, a mensagem chega a novos sítios.

Esperançosamente chegará a todos os consumidores, para que estes exijam cada vez mais respeito pela natureza e pelos trabalhadores de países de terceiro mundo onde os direitos humanos ainda não são respeitados. Isto representa aquilo que idealmente devíamos atingir num futuro próximo, uma consciência colectiva de que o consumo dita o seu próprio objectivo e não o oposto. Temos aquilo que enquanto grupo exigimos, e portanto se todos o fizermos, teremos. Precisamos de um consumo realista, consciente e informado onde os recursos planetários de um ano não se esgotam ainda no primeiro semestre. Só assim seríamos verdadeiramente sustentáveis. A fase que estamos a viver agora com o surgimento de um vírus misterioso que nos fechou a todos num confinamento desconfortável e ansioso, vem provar isto mesmo, há uma necessidade de abrandar, uma necessidade de repensar hábitos de consumo, e foi aquilo que forçosamente aconteceu.

Por força desta infeliz circunstância o mundo parou. Todos vimos notícias de animais a invadir cidades e a natureza a florescer onde já não era vista há muito tempo. As grandes cadeias comerciais fecharam portas, o produto ficou nas prateleiras à espera de ser vendido e uma rápida adaptação foi crucial para a economia. Na realidade a moda não é um bem essencial, não tão essencial quanto a saúde, a boa alimentação e um tecto para viver, muito menos durante uma quarentena de três ou mais meses, mas é, ao mesmo tempo, uma necessidade: todos temos de nos vestir. E vestir as pessoas sempre foi o meu principal objectivo, porque a roupa que vestimos devia ser aquilo que nos faz sentir bem, aquilo que transmite o que somos. Este cenário que vivemos trouxe muitas novidades ao nível do consumo neste aspecto, e muitos opostos também. Por um lado e focando mais no início do confinamento, surgiu uma procura de proporções gigantes, e com toda a razão, de roupa confortável como pijamas e fatos de treino. Por outro lado, mais tarde, houve um pequeno boom de vendas de tudo, um consumo quase saudoso de uma normalidade que ainda não existe. Estes pontos têm apenas duas coisas em comum: o crescimento exponencial das vendas online que traz consigo a esperança de manter uma indústria em queda e uma crise que se adivinha; e uma nova consciência ambiental e humana, um feliz acaso do momento, que pode potencialmente salvar os nossos recursos e em última instância o nosso planeta. A palavra-chave é adaptação. Adaptação do mercado ao consumidor, adaptação do consumidor às novas formas de consumo e, a mais urgente adaptação, a adaptação de todos ao que o nosso planeta precisa. 

Inês Torcato
Designer

PUB
Pingo Doce Sabe Bem

Viva! no Instagram. Siga-nos.