Hoje em dia, o Porto é uma cidade muito avançada e que chama a atenção de vários pela sua cultura e constante renovação. No entanto, nem sempre assim foi. Assim sendo, na “Máquina do Tempo” deste mês de maio, recuamos até ao século XVI.
Como explica a Câmara do Porto, à medida que o século XVI avançava, o Porto entrava num período de crescimento e transformação. A cidade, até então marcada por uma paisagem dominada por quintais e campos agrícolas, começou a abrir espaço a novas vias e edifícios.
Um dos projetos mais simbólicos dessa mudança foi a abertura da Rua das Flores, traçada em terrenos pertencentes ao bispo e ao cabido. A distinção de propriedade ficava gravada nas fachadas: uma roda de Santa Catarina para o bispo, e a figura de S. Miguel Arcanjo para o cabido.
Segundo a autarquia portuense, esta nova rua não só unia o Mosteiro de S. Bento da Avé-Maria ao Convento de S. Domingos, como também criava uma ligação entre duas importantes praças comerciais da época.
Fora da malha urbana principal, também se sentiam os efeitos da renovação. Na Foz do Douro, o bispo de Viseu, D. Miguel da Silva, promoveu diversas obras de valorização do espaço beneditino. Entre elas, destaca-se a construção de uma igreja de estilo renascentista (entre 1527 e 1546), mais tarde protegida pelo Forte de S. João Baptista, erguido em 1570. Nessa mesma zona, surgiu o farol de S. Miguel, sinal de crescente atenção à navegação.
Com o aumento do tráfego fluvial e marítimo, tornou-se essencial reforçar os pontos de referência para os navegadores. Em 1542, um velho pinheiro usado como baliza foi substituído por uma torre de pedra – a Torre da Marca, em Massarelos – sinalizando um novo cuidado com a segurança na barra do Douro.
O panorama educativo também se alterava. Em 1560, S. Francisco Borja fundava o Colégio de S. Lourenço, da Companhia de Jesus. Primeiro instalado na Viela do Colégio Velho, viria mais tarde a ganhar um edifício de raiz no Largo do Colégio, contribuindo para a presença jesuíta na cidade.
A prosperidade comercial e o dinamismo da construção naval trouxeram novas gentes ao Porto, o que pressionou os limites físicos da cidade. A resposta foi o crescimento além das muralhas, com uma nova abordagem à estética urbana e à organização do espaço público.
Durante o domínio filipino, entre 1580 e 1640, foram fundados diversos edifícios religiosos, como o Mosteiro de S. Bento da Vitória, erguido no local da antiga judiaria; o Mosteiro de S. João Novo, construído sobre a antiga igreja de S. João de Belmonte; e o Convento dos Carmelitas Descalços, localizado já fora do núcleo muralhado.
No campo da justiça, 1583 marca o nascimento do Tribunal da Relação do Porto, inicialmente sediado no paço do conde de Miranda, e mais tarde transferido para um novo edifício junto à porta do Olival.
As preocupações com o bem-estar coletivo deram origem a novos espaços públicos, como a Alameda da Cordoaria e a Calçada das Virtudes, projetadas para o lazer e o convívio dos cidadãos.
Em paralelo, houve também uma reorganização administrativa significativa. No mesmo ano da criação do tribunal, a diocese decidiu dividir a única freguesia da cidade em quatro: Sé, S. Nicolau, S. João de Belmonte (que duraria pouco mais de duas décadas) e Nossa Senhora da Vitória.
Por fim, este período (século XVI ao século XVII) assistiu à formação de comunidades estrangeiras no Porto e arredores. Flamengos e germânicos fixaram-se sobretudo em Vila Nova, enquanto os franceses adotavam estadias prolongadas, mas temporárias. Os britânicos, por sua vez, consolidaram presença definitiva através de casas comerciais, especialmente no final do século XVII.