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Porque foi o coração de D. Pedro IV doado à cidade do Porto?

Porque foi o coração de D. Pedro IV doado à cidade do Porto?

Numa altura em que muito se tem falado na transladação coração de D. Pedro IV para o Brasil, no âmbito das comemorações do bicentenário da independência daquele país, a VIVA! quis saber o motivo pelo qual o monarca decidiu entregar a parte mais importante e simbólica do seu corpo à cidade do Porto.

Para isso, é necessário recuar até 1832, época em que D. Pedro liderou as tropas liberais no conhecido “cerco do Porto”, um período em que a cidade foi cercada pelas tropas de D. Miguel durante um ano.

“O cerco liberal deveu-se a uma decisão que havia sobre como governar Portugal e qual o regime político mais consentâneo. Basicamente, dividiu-se em duas forças: os liberais comandados por D. Pedro e os absolutistas comandados pelo seu irmão. D. Miguel”, explicou o professor doutorado em História Contemporânea na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Felgueiras (ESTGF.IPP), José António Oliveira.

Foto: Filipa Brito (CM Porto)

O esforço heróico e a resistência das tropas liberais de D. Pedro e dos portuenses garantiram a vitória frente a D. Miguel e às suas forças absolutistas. D. Pedro aquando da sua morte, em 1834, decidiu, assim, doar o seu coração ao Porto, “em testamento como um sinal de agradecimento pela coragem e pelo apoio que a cidade lhe deu a ele e à causa liberal”, relata o professor.

Por outro lado, o historiador Ribeiro da Silva lembra que o processo de colação do coração na igreja da Lapa, onde está desde 1837, foi longo e conturbado. “Depois da morte de D. Pedro, em setembro de 1834, a sua mulher, D. Amélia, fez encerrar o coração num escrínio (uma espécie de vaso, ou guarda-jóias) com duas tampas e entregou-o ao ajudante de campo do rei que veio de Lisboa para o Porto num navio”, descreveu à Lusa o historiador. O coração chegou ao Porto apenas em fevereiro de 1835, quase cinco meses após a morte de D.Pedro, tendo ido “em procissão da Ribeira para a Lapa”, onde “toda a cidade esteve presente”.

O órgão chegou à igreja numa urna de madeira, dentro da qual estava um estojo e, lá dentro, um vaso de prata dourada com duas tampas. “Uma era uma espécie de adorno e a outra, presa com parafusos, dava acesso ao coração, inserido em líquidos conservantes desde a primeira hora”, referiu Ribeiro da Silva.

Seguiram-se “dois anos de espera” para a Câmara do Porto e a Irmandade da Lapa “chegarem a acordo sobre sítio” onde devia ficar o órgão, período durante o qual o coração “ficou na capela-mor à guarda de uma sentinela, porque havia receios de que fosse roubado”, acrescentou.

A primeira ideia foi levá-lo para a igreja da Serra do Pilar, uma vez que tinha sido um local estratégico, defendido heroicamente pelas tropas liberais, apesar das constantes investidas dos soldados de D. Miguel que, se tivessem ocupado aquele local, teriam facilmente destruído a cidade. Neste sentido, justificava-se, de certa forma, que o coração de D. Pedro IV tivesse ficado ali. 

Outro local lembrado como sendo digno de receber o coração do monarca foi a catedral, a igreja mais representativa do Porto e sede episcopal. Nesta incerteza, foi necessário que a filha de D. Pedro IV, D. Maria II, resolvesse o dilema.

Foi então que a sua filha quis saber onde o pai ia assistir à missa dominical e a outros atos religiosos. Ao perceber que D. Pedro IV se dirigia sempre à igreja da Irmandade da Lapa mandou entregar o coração do monarca à cidade que, depois de obter a devida autorização de Irmandade da Lapa, o depositou na igreja desta corporação.

Referir que, de acordo com José António Oliveira, foi também nesta época que o Porto recebeu a designação de cidade Invicta. “A designação de Invicta é atribuída três anos mais tarde (1837), pela Rainha D. Maria II”, e é uma forma, “quer do poder político de Lisboa, quer do poder político do Porto, de reconhecer o papel do Porto, que não se rendeu durante o cerco miguelista e que foi muito importante para a vitória dos liberais sobre os absolutistas”, concluiu.

Foto: Filipa Brito (CM Porto)

Recorde-se que o presidente da Câmara do Porto e guardião das chaves do cofre que contém a urna, Rui Moreira, deu autorização, bem como a assembleia municipal da cidade, à “trasladação temporária” do coração de D. Pedro para o Brasil, no âmbito das comemorações do bicentenário da independência deste país.

Para esta decisão foi fundamental “a peritagem que o Instituto de Medicina Legal (IML) do Porto realizou, após surgirem algumas preocupações quanto à vulnerabilidade da trasladação (uma relíquia com 187 anos)”. “Estas preocupações foram por mim ouvidas”, sublinhou Rui Moreira, que revelou “ter contactado também o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o reitor da Universidade do Porto, António Sousa Pereira, sobre este assunto”.

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