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Os artistas vão continuar a lutar

Os artistas vão continuar a lutar

A pandemia…

Vivia em plena euforia com as comemorações dos 100 anos do Teatro São João! A alegria transbordava por todos os lados… Em finais de Fevereiro voltámos aos ensaios de um dos espectáculos mais icónicos do S. João, o Turismo Infinito de António Feijó com textos de Fernando Pessoa e encenação do Ricardo Pais! Revisitar aquele espectáculo, voltar a senti-lo na pele, a emoção de ser de novo a doce Maria José, da Carta da Corcunda, de ter ao meu lado aqueles colegas e saborear as memórias boas como cerejas luzidias e doces, foi mesmo muito especial… Sabíamos todos que estávamos a viver um momento extraordinário e superlativo, que ficaria para sempre nos nossos corações! Só não sabíamos – não podíamos – o quanto a memória desses dias nos ia ajudar a aguentar o que aí vinha…

E, de repente, as notícias de um vírus mortífero de nome estranho, que fechava tudo à sua passagem, que afastava as pessoas e proibia os afectos, a chegar perto… na nossa cidade, já! E o medo a espalhar-se de mansinho, insidioso…!

Foto: João Tuna

Somos actores, vivemos de inquietações, de impossíveis, do inexplicável! Fizemos o espectáculo, fizemos a festa no dia 8 de Março, trocámos beijos e abraços apertados – os mais apertados que alguma vez demos – e dias depois as portas fecharam-se, a cidade parou e o país incrédulo percebeu que o pesadelo tinha vindo para ficar.

E num abrir e fechar de olhos o tempo ficou suspenso!

Fechada em casa, o choque e a perplexidade eram avassaladores. Percebi que o dia tem muito mais horas do que julgava saber…  Sentia uma inutilidade nos meus dias que me angustiava. Ler ajudava, sim, ler muito!!! Ver séries e filmes, há muito tempo nos planos por falta de tempo. Apanhar sol sempre que podia.

E quando percebi que já não íamos começar os ensaios do espectáculo que deveria estrear em Maio… quando percebi que já não íamos começar os ensaios do espectáculo que deveria estrear em Julho… quando percebi a dimensão do tremendo cataclismo que se abatia sobre os artistas, os técnicos e as suas famílias… Fui-me abaixo! A dor é mais feroz quando nos acerta no ponto exacto!

Comecei a fazer caminhadas pelas redondezas, cada vez mais longas, cada vez mais difíceis, para cansar, para não pensar, para acalmar o medo! Ainda haveria sentido ou vontade de criar depois disto?

Deitámos mãos à obra no Ensemble: era preciso reagendar toda a programação do ano, perceber como ajudar os colegas mais desprotegidos, conciliar as disponibilidades dos elencos e dos criativos, encaixar os espectáculos nos calendários dos teatros, propor, recuar, substituir, baralhar e voltar ao início…

Foto: Hugo Rodrigues

Há um momento que me ficará na memória para sempre: quando, finalmente, pudemos sair, aceitei dar uma entrevista e propuseram-me escolher o sítio. Sem hesitar escolhi a Praça da Batalha, numa das suas esplanadas. E lembro-me, com uma nitidez desconcertante, de achar a minha cidade belíssima, silenciosa, com uma luminosidade como nunca a vira antes… As poucas pessoas que se atreveram a sair caminhavam devagar, em silêncio, como eu, e sorriam umas às outras enquanto olhavam espantadas os edifícios, as ruas, os pássaros nas árvores como se lhes agradecessem por terem ficado à espera delas!

A sensação estranha e boa de estar a acordar de um pesadelo e precisar de um duche de água fria para estremecer e gritar desalmadamente.

E a verdade límpida e cristalina aos nossos olhos: muita coisa vai ter de mudar no mundo! A esperança profunda de que seja um passo em frente!

Não sei por quanto tempo teremos todos de manter esta bizarra e cruel distância social, mas sei que os artistas vão continuar a lutar, a reflectir, a reinventar-se, a trazer sentido ao mundo e a manter o foco no que verdadeiramente importa: a nossa bela e estranha humanidade!

Emília Silvestre
Atriz

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