Há espaços que se explicam com uma carta. O Orpheu explica-se com uma história. Sofia e André Santos abriram o bar no Porto em outubro de 2020: em plena pandemia, com um bebé pequeno em casa e sem saber muito bem o que ia acontecer. “Era um desafio novo, numa altura desafiante, que não sabíamos como iria resultar”, recorda André.
O nome veio da paixão de Sofia pela literatura. Não diretamente da mitologia grega, mas da revista Orpheu, ligada ao movimento futurista português, com Fernando Pessoa como figura central. A premissa era olhar para a frente sem olhar para o passado. “Calhou como uma luva”, diz André.
Começaram a vender tábuas de queijo à porta
Com tudo fechado, as contas a pagar e um conceito de bar de tapas e cocktails que ninguém conseguia usufruir, a solução foi reinventar. “A primeira coisa que fizemos foi vender tábuas de queijo e enchidos para fora.”
Em 2021, quando as pessoas começaram a querer brunches e pequenos-almoços especiais para oferecer, o Orpheu adaptou-se. Foram vivendo de efemérides: Dia dos Namorados, Dia da Mãe, Dia do Pai, até poder abrir ao público e voltar à ideia original.

O que se come e bebe
Hoje, o Orpheu é um bar de tapas e petiscos pensado para partilhar. Sem fritos, sem pratos pesados. “Trazemos aquilo que fazemos em casa quando recebemos amigos, mas um bocadinho mais trabalhado.”
Saladas, carpaccios, tártaros e as famosas tábuas de queijos e enchidos, que continuam a ser a imagem de marca. Há hotéis e Airbnbs no Porto que já mandam os hóspedes diretamente ao Orpheu com esse propósito.
A cocktailaria é outro foco. E para isso, há o Panóplia: um espaço à porta fechada, inaugurado há seis meses, com entrada por campainha, sem sinalização exterior. Um bar quase secreto dentro do próprio espaço, com bebidas mais trabalhadas, vinhos aconselhados ao perfil de cada pessoa e queijos europeus vendidos ao peso.

O que os clientes mais elogiam
Quanto ao que os clientes mais elogiam, para além da qualidade inegável da comida e das bebidas, há um aspeto muito destacado: “o serviço”. “A comida pode ser boa, mas se o serviço não for, a probabilidade de se voltar baixa muito” – explica André.
Nas reviews, o que mais é enaltecido é a qualidade das tapas e dos cocktails, o ambiente descontraído, a proximidade entre mesas na esplanada, cada degrau das escadas é uma mesa e a forma como a equipa recebe.
O público é maioritariamente estrangeiro, seja turistas ou estrangeiros a viver no Porto. No inverno chegam mais portugueses, quando a baixa respira e o caos do turismo abranda.

O futuro, com calma
O espaço ainda é recente, mas os planos para o futuro já estão traçados. Provas de vinho com produtores no Panóplia, um evento de verão aos domingos chamado Bubbles and Oysters (cocktails gasificados com ostras) e possivelmente uma garrafeira.
Estes são alguns dos planos, mas claro: tudo isto com cautela. “Não temos investidores. Somos nós os dois e é o nosso trabalho”, explica André. “Todos os passos têm que ser dados com mais cuidado.”
O Orpheu nasceu numa crise. Cresceu devagar, mas rapidamente se tornou um nome a ter em conta, no contexto gastronómico da Invicta. E continua, acima de tudo, a querer que as pessoas se sintam em casa.
