Há um novo projeto cinematográfico da produtora Olhar de Ulisses que tem como cenário principal as ruas do Porto. Chama-se “A Cidade e os Mapas” e foi criado por Alexandra Guimarães e Gonçalo L. O filme documental tem como protagonista Akash, um jovem estafeta bengalês.
Guiado pelos mapas digitais de uma aplicação de entregas, Akash percorre a cidade sobre duas rodas, num movimento constante que espelha a forma como os algoritmos moldam o quotidiano urbano. Com câmara 360º, o filme segue o seu percurso, criando uma cartografia alternativa onde o físico e o digital se fundem. A abordagem aproxima-se da estética do Street View e de videojogos, permitindo uma montagem que escolhe livremente “para onde olhar, como olhar” (via CM Porto).
A ideia do projeto nasceu inspirada na fábula “Sobre o Rigor da Ciência”, de Jorge Luís Borges. Aqui, um império constrói um mapa que se torna indistinguível do próprio território. A analogia serviu de ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre o impacto das plataformas digitais. Como explicam os realizadores, “pareceu-nos a imagem ideal para refletir sobre como as plataformas digitais, cada uma com o seu próprio mapa, vão alterando as cidades e a forma como as vivemos.”
Escolher Akash como figura central revelou-se tanto uma decisão estética quanto política. Os realizadores destacam que “quando conhecemos o Akash, tivemos logo a certeza de que queríamos filmar com ele. Tinha um discurso muito poderoso sobre a precariedade em que as plataformas os colocam, mas, ao mesmo tempo, estava encantado com a cidade.”
A obra percorre também zonas esquecidas da cidade e espaços à margem dos roteiros turísticos. Um dos momentos cruciais do filme decorre na Rua do Loureiro. Aqui, a presença de uma das mesquitas da cidade está ameaçada por um plano de requalificação que poderá transformar o bairro num ponto de turismo de luxo. “Quando soubemos disso, sentimos uma urgência ainda maior de filmar ali. O filme começou a ser reconfigurado.”
Durante o processo de filmagem, a equipa uniu-se a visitas orientadas pelo arquiteto Pedro Figueiredo, que organiza percursos pedestres por bairros históricos do Porto, como as ilhas e zonas SAAL. Esses passeios permitiram aprofundar o entendimento das camadas sociais e históricas que constituem a cidade.
Segundo os autores, a cidade atual é um espaço profundamente moldado pelas plataformas digitais, onde as fronteiras entre cidadão e consumidor se esbatem. “As plataformas digitais, que operam à base de mapas, estão a mudar radicalmente a forma como vivemos as nossas cidades e a definir quem tem direito a elas e quem fica à margem. A cidade contemporânea é uma fábrica de dados cedidos passivamente por nós, que passamos de cidadãos a consumidores, mas para que estes serviços existam, cria-se um submundo precário, de trabalho imigrante e turnos indefinidos.”
Mais do que retratar uma cidade, “A Cidade e os Mapas” propõe pensar o Porto como um organismo em constante transformação, atravessado por fenómenos como a gentrificação, a imigração e a crise da habitação. “Ouvimos muitas vezes: ‘está tudo muito diferente’. Mas ninguém sabe exatamente o que está a acontecer, nem como o impedir. Este filme é uma tentativa de nomear essas forças que moldam as cidades por dentro e nos afastam uns dos outros.”
A estreia está marcada para o próximo ano no festival Porto/Post/Doc. O documentário foi distinguido com a bolsa Working Class Heroes em 2024, financiada pela Filmaporto e pela Fundação La Caixa, e conta ainda com apoio do ICA.
(Foto: Renato Cruz Santos)