O antigo presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, marcou esta terça-feira, 11 de novembro, o arranque do novo ano académico do ISAG – European Business School, naquela que foi a sua primeira intervenção pública em contexto académico desde que deixou a autarquia.
A sessão, dedicada ao tema “Empreender cidades, inspirar pessoas: uma estratégia para o futuro”, acabou por se transformar num momento de balanço do seu percurso, com espaço para críticas, revisões e desafios às novas gerações.
Perante uma sala cheia, Rui Moreira revisitou a transformação urbana do Porto, mas foi na fase de perguntas que surgiram as declarações mais marcantes e mais polémicas.
“O meu maior erro foi ceder ao pânico”. Moreira assume falha no hospital de campanha
Questionado sobre o maior erro dos 12 anos que passou à frente da Câmara, o ex-autarca não hesitou: “Seguramente que foi instalar o hospital de campanha no pavilhão Rosa Mota.” Rui Moreira explicou que, no início da pandemia, foi pressionado pelo então presidente da delegação do Porto da Ordem dos Médicos, António Araújo, para montar uma estrutura de resposta de emergência.
“Havia o receio de que a capacidade instalada dos hospitais não fosse suficiente e cedi ao pânico que vi no Dr. António Araújo”, afirmou, sublinhando que o equipamento acabou por ser “praticamente inútil”. “Instintivamente achei que não ia ser necessário, mas não fui capaz de dizer que não”, acrescentou.
Matadouro, biblioteca e Circunvalação entre as obras que ficaram por concluir
Quando questionado sobre o que ficou por fazer, Rui Moreira apontou três dossiês que passam agora para a nova presidência da Câmara do Porto:
- a conclusão do Matadouro Municipal,
- o alargamento da Biblioteca Municipal, em São Lázaro,
- e a intervenção na Estrada da Circunvalação, um problema que considera “estrutural”.
O antigo autarca reconheceu ainda que ter sido o único presidente independente da Área Metropolitana do Porto trouxe “dificuldades acrescidas” na defesa dos interesses da cidade.
Críticas à nova lei da imigração e à associação entre imigração e criminalidade
Confrontado por um aluno angolano sobre o impacto da nova lei da imigração, Rui Moreira afirmou que a legislação “não era urgente” e criticou quem associa imigração a insegurança: “É errado fazer essa relação.”
Sustentabilidade, cultura e competitividade: a visão para as cidades do futuro
Durante a palestra, Rui Moreira voltou aos temas centrais da sua estratégia autárquica. Defendeu que as cidades terão de ser autossuficientes em termos ambientais, produzindo energia e reduzindo efluentes, e alertou que a transição ecológica só será bem-sucedida se houver também sustentabilidade social. “Isso tem de se refletir no bolso das pessoas”, afirmou.
Recordou ainda o papel da cultura na viragem do Porto, da Capital Europeia da Cultura ao impacto da rede de metro, e insistiu na importância da marca “Porto.” enquanto estratégia para atrair investimento e talento.
Críticas à Linha Rubi e ao impacto para a cidade
Já fora da parte institucional da palestra, Rui Moreira reforçou críticas que tem repetido nos últimos anos. Considera a Linha Rubi do Metro do Porto “um mau projeto para a cidade”, argumentando que foi pensada sobretudo para movimentos pendulares com Gaia. Alertou que as novas habitações previstas no concelho vizinho, anunciadas como estando “a cinco minutos da Casa da Música”, podem sobrecarregar o Porto, com benefício financeiro “a cair do lado de Gaia”.
“O Porto tem alma regateira”
No momento mais descontraído, desafiado a definir a alma da cidade, respondeu prontamente:“Gostamos das pedras e dos gatos vadios, mas o Porto é irresoluto, é irrequieto, essa é a alma regateira da cidade.”
A sessão encerrou com uma mensagem da direção do ISAG, que apelou ao papel das novas gerações como agentes de mudança na construção de cidades mais inclusivas, inovadoras e sustentáveis.