Nos últimos anos, o consumo de suplementos em Portugal cresceu de forma evidente. Aquilo
que antes estava mais associado a atletas ou a contextos clínicos específicos passou a fazer
parte da rotina de muita gente. Hoje, é comum alguém tomar algo para energia, imunidade,
sono ou foco. E isso, à partida, não é negativo. A questão não é se o consumo aumentou,
isso é claro. A questão é perceber porquê.
Estamos perante uma mudança real na forma como as pessoas cuidam da saúde, ou apenas
mais uma tendência bem comunicada?
Na prática, vejo um pouco dos dois. Por um lado, há sinais claros de evolução. As pessoas
estão mais expostas a temas de saúde, falam mais de prevenção, começam a perceber
melhor o impacto do estilo de vida. Há conceitos que há poucos anos estavam restritos a
contextos técnicos e que hoje fazem parte da conversa. Isso é positivo. Mas, ao mesmo
tempo, o consumo de suplementos tornou-se muitas vezes superficial. As pessoas
começaram a tomar mais, mas não necessariamente melhor.
Na maioria dos casos, a decisão não parte de uma necessidade fisiológica concreta. Parte
de recomendações genéricas, tendências ou da ideia de que “mal não faz”. E esse é um dos
maiores equívocos deste mercado. Suplementar não é acumular produtos. É tomar decisões
com base em contexto. Do ponto de vista científico, a eficácia de um suplemento depende
sempre de três coisas: necessidade, dose e forma. Sem isto, dificilmente existe impacto real.
Um nutriente pode fazer toda a diferença num cenário de deficiência e absolutamente nada
num organismo onde já está em níveis adequados. A mesma substância pode ser relevante
num contexto específico e irrelevante noutro.
Mas isto raramente é explicado. O que se vê com frequência são fórmulas extensas,
ingredientes conhecidos, nomes que soam bem no rótulo, mas doses que não correspondem
ao que foi estudado. E aqui cria-se uma ilusão perigosa: a de que presença equivale a
eficácia. Não equivale.
Ao longo da minha experiência na área, uma das coisas que mais me marcou foi perceber a
diferença entre o que está no papel e o que realmente funciona. Há muitos produtos corretos
do ponto de vista legal, mas com impacto prático muito limitado. E isto não é uma crítica ao
consumidor. As pessoas querem fazer melhor. O problema é o ambiente em que tomam
decisões. Fala-se muito do que tomar. Fala-se pouco do que não faz sentido tomar.
É aqui que entra a diferença entre moda e mudança de hábitos. Uma moda é fácil de adotar,
não exige grande compreensão, muda rapidamente e depende muito do contexto social. Uma
mudança de hábitos implica consistência, critério e integração com o resto da vida. Tomar
um suplemento não é, por si só, um hábito de saúde. Pode fazer parte dele, mas não o
substitui.
Dormir melhor, comer melhor, gerir stress, treinar, isso são hábitos. A suplementação, quando
bem feita, entra para apoiar. Não para compensar.
O que vejo hoje em Portugal é um mercado em crescimento, com intenção genuína por parte
das pessoas, mas ainda com muita falta de profundidade na forma como essa intenção é
aplicada. E isso cria um desfasamento claro: mais consumo, mas não necessariamente
melhores resultados.
Este momento pode ser muito positivo para o setor, mas só se houver uma mudança no tipo
de conversa que estamos a ter. Menos foco em “o que está a dar”, mais foco em “o que faz
sentido”. Menos listas de suplementos, mais critério.
O conhecimento necessário para fazer melhor já existe. Não é esse o problema. O desafio
está em aplicá-lo de forma consistente.
E é isso que vai determinar se este boom é apenas mais uma tendência ou o início de uma
mudança real na forma como olhamos para a saúde.
Tiago Ferreira
Microbiologista, especialista em saúde e suplementos
Co-fundador e CEO da Suplendi