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O acesso à palavra é uma questão de direitos humanos

O acesso à palavra é uma questão de direitos humanos

O braille representa, para uma pessoa cega ou com baixa visão severa, o contacto direto com a palavra escrita e também a possibilidade de comunicar de forma autónoma. O acesso à literatura, enquanto arte que vive da palavra, faz-se, por isso, através desses pontos em relevo que tornam possível ler um livro, folheá-lo, cheirá-lo, transportá-lo para um banco de jardim, para a mesa do café ou qualquer outro espaço de leitura. Ler um livro em braille reveste-se do mesmo encanto, para um utilizador deste sistema de leitura e escrita, semelhante ao de ler um livro a tinta, para todos os amantes da leitura sem qualquer dificuldade de visão que gostem do «cheiro» e do toque de um livro. Não é substituível por softwares de voz ou por uma leitura em voz alta feita por outra pessoa. Ler é um ato individual e intransmissível: carrega consigo um mundo de interpretações e de subjetividade que se constrói entre o leitor e o livro.

Poder ler um livro em braille é, no entanto, raro nos dias que correm. Aceder a livros adequados à sua idade e aos seus interesses, em braille, é, para uma criança cega, quase impossível. Felizmente, a tecnologia já permite a leitura em braille recorrendo aos equipamentos informáticos que o reproduzem de forma instantânea – através das linhas braille ligadas a computadores e a máquinas de tecnologia de ponta.

Sempre que penso nos livros e nos escritores que mais marcaram a minha vida, não consigo deixar de recordar aqueles catorze volumes d’Os Maias que chegaram até mim enquanto estudante do ensino secundário e que foram, anos mais tarde, companheiros de trabalho nas aulas de Português que lecionei aos alunos a quem ensinei a desfrutar do Eça. É-me difícil a relação com o Pessoa sem colocar os dedos sobre as palavras, escritas em relevo, que transportam o sentido dos seus versos. Como ler e ensinar poesia sem a possibilidade de tocar e voltar a tocar nos pontos que compõem as palavras, sem relê-las várias vezes?! E como entrar no mundo de Saramago, com múltiplas vozes no mesmo parágrafo, usando exclusivamente a voz de um qualquer equipamento informático ou mesmo a de um leitor que se disponha a lê-lo para nós em voz alta? Todos esses caminhos são válidos, naturalmente. Mas o verdadeiro contacto com a palavra faz-se através da leitura sem intermediários. É um ato de intimidade mas também de autonomia. De autodeterminação! A linha braille, justiça lhe seja feita, possibilita esse contacto imediato com o braille e talvez seja, nesta era tecnológica, o caminho mais viável e universal. Mas isso não é um livro. Tal como os tablets e os computadores não substituem um livro em papel. São complementos, alternativos, não substitutos.

E tanto que se defende que a leitura deve ser estimulada desde a infância. Tanto que se investe na indústria do livro infantil: tantas cores, tantas belas ilustrações, tantas estórias cativantes. Como será para uma criança cega? Que cores, que ilustrações, que estórias contadas através das letrinhas em tinta poderão elas conhecer se o livro infantil em braille é uma realidade quase inexistente em Portugal?

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Num tempo em que os livros se tornaram objetos de culto, em que escolhemos criteriosamente qual deles o mais adequado para oferecermos àquela pessoa especial, tentando adequar o conteúdo ao seu gosto e aos seus interesses, continua a ser missão quase inalcançável oferecer um livro em braille, a adultos ou a crianças. E porquê? Porque se trata de um público minoritário, que não adquire quantidades de livros que justifiquem esse investimento por parte do mercado editorial? Não será a Arte Literária, ou a mera leitura por lazer, um direito de todos? Não deverão as crianças cegas poder ler um livro em braille desde cedo e participar nas horas do conto, nas atividades de promoção da leitura da biblioteca escolar, da aula de Português, do clube de leitura lá da escola? Ler um livrinho à noite, antes de dormir?

O acesso à palavra, à informação, ao conhecimento, à arte, é uma questão de direitos humanos!

Irina Francisco

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