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Nesta travessa do Porto ninguém vive sozinho e até o Presidente quis fazer parte

Nesta travessa do Porto ninguém vive sozinho e até o Presidente quis fazer parte

Na Travessa das Águas, no Bonfim, a vida não se mede em metros quadrados nem em regulamentos municipais. Mede se em vasos partilhados, pratos pousados em mesas improvisadas e conversas que juntam gerações e línguas diferentes. É difícil perceber se são as pessoas que dão cor às flores ou se são as flores que mantêm viva a comunidade.

Esta sexta feira, a mesa voltou a crescer. O convite para almoçar estendeu se, desta vez, ao presidente da Câmara do Porto, num gesto que simboliza bem o espírito desta pequena artéria onde ninguém passa despercebido.

“Este é um excelente exemplo de uma ideia de cidade que queremos implementar. Pode e deve ser ocupado pela população”, afirmou Pedro Duarte, que marcou presença acompanhado por elementos do executivo municipal.

Para Carminda Oliveira, moradora há mais de seis décadas no número 141, as plantas que cuidam a entrada de casa são mais do que decoração. “Trazem mais alegria, dão nos mais vontade de fazer coisas. Embelezam e nós precisamos desta alegria”, desabafa, com um “especial orgulho em pertencer a esta rua e em ter a vizinhança que tenho”.

Quando uma planta morre, alguém aparece para a substituir

Na porta ao lado, Carla Soeiro não esconde a identidade. O letreiro “Crazy Plant Lady” denuncia a paixão que rapidamente se transforma em cuidado coletivo. “Esta rua tem pessoas bastante idosas e isto também é uma maneira de elas estarem aqui unidas”, explica. Quando alguém não está, outro vizinho rega. Quando uma planta morre, aparece outra para ocupar o lugar. “Isto é uma questão social, comunitária. Nós precisamos das plantas, é importante dar lhes valor.”

A centralidade das plantas nas conversas recentes deve se ao receio de que as floreiras tivessem de ser retiradas do espaço público, após uma queixa relacionada com dificuldades de circulação. Um cenário que o presidente da Câmara afastou de forma clara.

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“A ideia que surgiu de que havia qualquer vontade de limitar este tipo de iniciativas é manifestamente errada”, garantiu Pedro Duarte, sublinhando que as regras estão a ser cumpridas e que a presença das floreiras “não prejudica ninguém e valoriza muito a rua e as pessoas”.

“As pessoas conhecem melhor a sua rua, sabem melhor que ninguém a forma de lutar por maior bem estar, mais propício ao convívio e esta é uma forma de o fazer”, afirmou o autarca, defendendo que este é “um excelente exemplo do que deve ser uma vida em cidade”.

Pedro Duarte adiantou ainda a vontade de estimular iniciativas semelhantes noutros pontos da cidade, nomeadamente através de micro jardins de proximidade e hortas comunitárias, à semelhança do recém inaugurado Jardim Senhora do Porto.

“Sendo o Porto uma grande cidade, gostávamos de poder viver como uma aldeia no sentido de nos conhecermos uns aos outros, nos tratarmos pelos nomes, de nos entreajudarmos quando necessário, sermos solidários e termos momentos de convívio em comum e espaços que sentimos que são nossos na cidade”, afirmou.

O almoço foi feito de bifanas preparadas por Carminda Oliveira, mas a mesa encheu se com pratos caseiros trazidos por quase todos, incluindo bolachas feitas por um casal norte americano que se instalou recentemente na travessa. Um retrato fiel de um lugar onde a porta está sempre aberta.

No ano passado, os próprios moradores deram corpo a essa identidade no espetáculo “A Epopeia das Águas”, uma peça contra o individualismo e o egocentrismo. O mote resumia tudo: para lá do quintal, havia o mundo.

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