O escritor António Lobo Antunes morreu esta quinta-feira, aos 83 anos. Considerado uma das figuras centrais da literatura portuguesa contemporânea, deixa uma obra vasta e profundamente marcante, que atravessou mais de quatro décadas de escrita.
Nascido em Lisboa, a 1 de setembro de 1942, licenciou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa em 1969 e especializou-se em Psiquiatria. Exerceu no Hospital Miguel Bombarda antes de abandonar a prática médica em 1985 para se dedicar inteiramente à literatura.
Ao longo da sua carreira recebeu várias distinções nacionais e internacionais, entre as quais o Prémio Camões em 2007, o mais importante galardão da literatura em língua portuguesa. Foi também condecorado pelo Estado português com o Grande Colar da Ordem de Sant’Iago da Espada em 2004 e com a Ordem da Liberdade em 2019. Em França recebeu o grau de Commandeur da Ordem das Artes e das Letras.
A guerra, a memória e a mente humana
A experiência como médico psiquiatra e a participação na guerra colonial marcaram profundamente a sua obra literária. Entre 1971 e 1973 serviu como médico militar em Angola, episódio que transformaria a sua visão do mundo e que viria a tornar-se matéria central de muitos dos seus romances.
O contacto com os limites da mente humana também influenciou a sua escrita. Em várias ocasiões reconheceu que a prática da psiquiatria lhe ensinou a escutar as pessoas e as suas histórias, algo que transportou para a literatura.
A estreia literária aconteceu em 1979 com “Memória de Elefante”, romance de forte componente autobiográfica que acompanha um psiquiatra em crise durante um dia em Lisboa. Nesse mesmo ano publicou “Os Cus de Judas”, obra que se tornaria um dos romances mais marcantes da literatura portuguesa contemporânea, revisitando a experiência da guerra em Angola.
O ciclo inicial da sua obra ficou completo com “Conhecimento do Inferno” (1980), frequentemente interpretado como parte de uma trilogia sobre trauma, memória e desencanto.
Uma obra exigente e influente
Ao longo das décadas seguintes, António Lobo Antunes construiu uma obra literária reconhecida pela complexidade formal, pela intensidade psicológica e pelo uso de múltiplas vozes narrativas.
Entre os seus romances mais conhecidos encontram-se “Fado Alexandrino” (1983), “Auto dos Danados” (1985), “A Ordem Natural das Coisas” (1992), “Manual dos Inquisidores” (1996) e “Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?” (2009).
Para além dos romances, publicou também várias coletâneas de crónicas, onde revelou uma faceta mais íntima e autobiográfica. Muitos desses textos foram originalmente publicados na imprensa portuguesa.
A crítica literária frequentemente destacou a sua escrita densa e fragmentada, marcada por monólogos interiores e por uma linguagem poética exigente. A sua obra foi traduzida em várias línguas e estudada em universidades de todo o mundo.
Uma das vozes maiores da literatura portuguesa
Com dezenas de livros publicados e uma carreira literária que atravessou mais de quarenta anos, António Lobo Antunes afirmou-se como um dos grandes nomes da literatura portuguesa contemporânea.
Os seus romances, profundamente marcados pela guerra, pela memória e pela exploração da consciência humana, continuam a desafiar leitores e a ocupar um lugar central na história literária recente de Portugal.