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Livraria Académica

Livraria Académica

Em mais uma edição de “Lojas Históricas”, a VIVA foi até à Livraria Académica do Porto, uma das lojas abrangidas pelo programa “Porto de Tradição”. À conversa com o proprietário, Nuno Canavez, ficamos a conhecer a história do espaço, a evolução ao longo do tempo e muito mais.

Qual é a história da livraria?

Eu sou o proprietário atualmente, mas a livraria já foi aberta em 1912, aqui na Rua das Oliveiras. Eu só entrei para aqui em 1948. Sei que em 1916 passou aqui para o sítio onde está. Eu estou cá há 77 anos.

Como tem visto a evolução do público ao longo do tempo?

Nós somos uma casa especializada em livros usados, mas, dentro dos livros usados, também tínhamos as primeiras edições de autores consagrados, que eram encadernados luxuosamente. No entanto, fomos sempre evoluindo, tendo livros cada vez melhores. Isto agora é se calhar uma amostra do que foi noutros tempos já. Nós tínhamos diferentes tipos de clientes. Um deles era o bibliófilo, que era o cliente por excelência. Era o indivíduo que sabia o que comprava, conhecia o autor, conhecia tudo, procurava as melhores edições, por vezes até autografadas. Depois, tínhamos o bibliómano, que era o indivíduo que vinha, mas que não se preocupava muito com o grau de raridade. Tinha de saber que aquilo que ia comprar era suscetível de se valorizar. Se nós lhe disséssemos que era de um autor consagrado e que era bom, ele comprava e guardava. Se não disséssemos, ele desistia. Portanto, ao comprar, o objetivo principal era o investimento do seu capital. Tínhamos ainda o leitor normal, que comprava para ler, para se distrair. Eram estas as três espécies de clientes que nós tínhamos.

Disse que trabalha cá há 77 anos. No entanto, há quanto tempo é que lidera os destinos da livraria?

Eu entrei como moço para limpar o estabelecimento, arrumar, fazer encomendas, tudo isso. Comecei do nada e fui progredindo. Tanto é que eu, quando vim de Trás os Montes para aqui, pensava que o emprego ideal para mim seria uma mercearia ou uma drogaria. Até porque o meu pai tinha lá na aldeia um pequeno recinto onde se vendiam as coisas essenciais à sobrevivência humana. Mas não, felizmente que isso não aconteceu. Eu respondi a um anúncio, apresentei-me e depois apareci aqui. Acabaram por me chamar a mim, tinha apenas 13 anos. Estavam mais 3 ou 4, ainda. Talvez me tenham escolhido a mim por ter vindo da aldeia, de um meio rural, sem vícios. Depois, fui progredindo, claro, e teco aqui a minha homenagem ao fundador Guedes da Silva, na medida em que, tendo apenas a quarta classe, sabia muito de livros. Ele tinha uma bibliografia mesmo muito completa, que foi comprando ao longo dos anos. Era um indivíduo que se interessava muito e dizia-me muitas vezes que, sempre que passasse por uma estante, para fazer de conta que era a primeira vez que estava a passar por lá.

Por falar em estantes, o que é que mais se pode encontrar nas vossas estantes, atualmente?

Os autores clássicos caíram na vertical: um Ferreira de Castro, um Fernando Namora e outros tantos dessa época. Caíram. Hoje o que se vende é mais de caráter ligeiro, coisas mais modernas. Autores portugueses vendem-se relativamente poucos, mas há uma série deles, uma vintena. De igual categoria, autores estrangeiros, maioritariamente para juventude.

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Quem mais visita a Livraria Académica do Porto?

Mais os portugueses, os turistas não compram muito. O turista de hoje em dia chega aqui, vê, às vezes nem sequer diz nada, só entra e sei, e perguntam se temos livros em ingleses. O francês foi “banido”, já ninguém quer livros franceses, nem os próprio franceses.

Quais as melhores recordações que guarda da livraria, ao longo dos últimos 77 anos?

Se andarmos 7 ou 8 anos para trás, tivemos ali 30 ou 40 anos que foram muito bons, porque tínhamos uns clientes certos: os tais bibliófilos e bibliómanos. Era certinho, eles vinham todas as semanas, tinham poder de compra e compravam muito. Hoje em dia, vender um livro acima dos 10 euros já é muito difícil. Naquela altura, qualquer um comprava livros por 1000, 2000 ou 5000 escudos, ou até bem mais. Hoje nem pensar, acima de 10 euros ou 15, já é muito difícil. Tem ali estantes em que já nem olham, porque os preços já vão para cima dos 50 euros. Portanto, esse foi o período áureo. Mesmo os que compravam livros só para se distrair compravam mais, talvez por não haver aqueles meios de comunicação que há hoje. Não quer dizer que ainda não há quem compre, mas é um número mais limitado. Quem compra é mais gente dos 20 aos 30 anos, particularmente do sexo feminino. Mas também se nota um desinteresse maior na juventude, bastante acentuado.

Quais são os melhores elogios que já recebeu, durante mais de 7 décadas na livraria?

Há 20 ou 30 anos, ficavam completamente estasiadas. Porque era tudo encadernado, coisas raras, com dedicatórias e tudo mais. Naquela altura, era muito vulgar pedirem só para tirar fotografias. Há uma coisa curiosa até, entravam diziam bom dia ou boa tarde, hoje em dia nem isso às vezes. Na maior parte das vezes, também tiram fotografias ao espaço e nem sequer pedem. É muito frequente isso acontecer. Começam a tirar lá de fora, vêm cá dentro e tiram. Mas éramos uma livraria modelo, talvez a mais conceituada no país, na medida em que tinha o principal recheio de autores portugueses e, desses autores, as melhores edições. As pessoas reuniam-se aqui, para tirar impressões e isso. As pessoas gostavam e ainda hoje gostam, atenção, dizem que é uma bonita livraria. Mas é como eu digo, isto não é nada que se parecesse há 20 anos.

São apoiados pela Câmara do Porto, na lista “Porto de Tradição”. Sente que é um apoio que tem impacto para a loja?

Torna o nome conhecido, mas lá está: o pobre continua pobre e há cada vez menos interesse pelos livros. Tenho dias em que não vendo um livro. Isto há 5 ou 6 anos era impossível, tinha os clientes habituais e os outros que passavam, o turista e tudo mais. Agora não. Por vezes, vêm ver as montras, vão embora, mas fico ciente de que não têm poder de compra. Mesmo quando abrem a carteira, raramente eu vejo uma nota de 50 euros. Por vezes, vêm 2 ou 3 raparigas, o livro custa 15 euros e as três não têm dinheiro juntas para comprar o livro. Há muita ausência de dinheiro e poder de compra.

Qual o balanço geral que faz da livraria e quais os planos futuros?

Eu comprava muito, tinha muito mais entusiasmo em comprar do que em vender. Sempre à espera que viesse uma coisa que nunca tivesse visto, uma dedicatória excecional, um livro excecional, um bom ilustrador. Tinha mais interesse na compra do que na venda. Hoje não, já restringi ao máximo as compras. Há muita coisa à venda, mas é a tal coisa corrente. O livro raro já não aparece. Ou vendem diretamente uns aos outros pelas novas tecnologias, ou os herdeiros sabem que as edições valorizam e não as vendem. É raro haver livros esgotados, na ordem das centenas de euros.

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