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João Carlos Brito

João Carlos Brito

O Norte é a pátria da língua portuguesa

Professor, linguista e escritor, João Carlos Brito é uma figura incontornável da cultura portuense. É com orgulho que troca “os bês pelos vês” e dá a conhecer a “pronúncia do Norte” aos mais de 200 mil cidadãos que o leem.

Com mais de 40 obras publicadas, entre as quais um vasto número sobre a temática do Porto e do Norte, prepara-se para lançar, no início deste mês de setembro, o próximo, que intitula como “O Dicionário de Calão do Norte”. Uma obra particularmente especial, que apresenta mais de 10 mil significados de expressões portuenses e nortenhas e que envolveu, além de um profundo empenho por parte do autor, “anos e anos de investigação” e a colaboração de centenas de pessoas.

Fotografia a João Carlos Brito, em Porto

Para João Carlos Brito, ser do Porto sempre foi uma “bênção”, mas, agora, com 54 anos, e depois de uma saída da cidade que o viu nascer, para estudar, os sentimentos de gratidão e admiração intensificaram-se ainda mais. “Há um elo muito forte que une os portuenses e os nortenhos à sua terra. É difícil de explicar. É algo telúrico, um orgulho bairrista que só quem cá nasceu sabe sentir”, indicou, em entrevista à revista VIVA!.

E é, precisamente, por este amor, avassalador e inabalável, ao Porto e às suas gentes que pretende “contribuir para a preservação de tão singular e fabuloso acervo popular”.

Conheça toda a história do homem que procura, diariamente, “honrar as suas origens” e que dá a conhecer ao mundo o “português mais genuíno” de Portugal.


Como começou este amor à cidade do Porto e às suas gentes?

Costumo dizer que ser do Porto é uma bênção. Desde que me conheço que penso assim e este foi um sentimento que se fortaleceu quando, aos 18 anos, fui estudar para Aveiro. Fisicamente saí, mas nunca larguei este sentimento de ter arrepios sempre que regresso à minha cidade e vejo aquela cascata cuja beleza é impossível de descrever. Há um elo muito forte que une os portuenses e os nortenhos à sua terra. É difícil de explicar. É algo telúrico, um orgulho bairrista que só quem cá nasceu sabe sentir. Creio que não acontece na maior parte das regiões do mundo. É quase como um pai em relação aos seus filhos: reconhece os seus defeitos, mas deixa isso para a discussão em casa. Fora, apenas fala das coisas boas. Nós somos um pouco assim: sabemos que o nosso Porto tem problemas, mas, mesmo assim, ai de quem diga mal de nós! Está quilhado…

Fotografia a João Carlos Brito, em Porto


Acha que este linguajar único, rico e tão divertido é uma marca distintiva dos portuenses?

Sem dúvida. E, apesar de as gerações mais jovens assimilarem muito mais a padronização da linguagem “nacional”, o linguajar não se perdeu. Para onde quer que vamos, levamos connosco esta marca da qual nos orgulhamos, o sotaque e o nosso peculiar reportório vocabular. E é com igual orgulho que, noutras regiões, nos reconhecem mal abrimos a boca. Há palavras e expressões que são nossas, fazem parte do legado ancestral que é transmitido, de uma forma natural, de pais para filhos. Na maior parte das vezes, nem disso temos consciência, mas este linguajar faz parte de nós, da nossa essência.


E em algum momento, poderá ser uma desvantagem?

Não deveria, pois a unidade de uma língua é constituída justamente por essa diversidade lexical, que diz diretamente respeito à região dos seus falantes. É evidente que em qualquer situação de comunicação, o mais importante é que a mensagem passe corretamente para os recetores. Assim, penso que o problema não é o sotaque nem o registo vocabular de cada um. O problema é sabermos adequar o discurso mediante a situação e o público. Se estiver a falar para uma plateia de jovens ou de informáticos, e se quero ter sucesso nas minhas palavras, tenho de adaptar o discurso. É um perfeito disparate falar de um sotaque neutro (não existe!) e de um registo de língua corrente nacional, que também não existe. O que nos estão a dizer é que nos querem impor a ditadura da linguagem centralista e isso não devemos permitir. Tal como acontece em relação às culturas, não há sotaques nem registos vocabulares de primeira e de segunda. Há, apenas, sotaques e registos diferentes e mais adequados a uma determinada situação.

Fotografia a João Carlos Brito, em Porto


Qual é a sua principal fonte de inspiração quando escreve?

A junção de três paixões: a língua portuguesa, o Porto e o Norte e, por fim, o conjunto das linguagens marginais e informais, entre as quais se inclui o calão, as gírias, os localismos, os regionalismos, etc. Sempre me interessei por esta forma de comunicar. Não descurando o registo literário, a verdade é que em 99% da nossa vida utilizamos um discurso desprendido, familiar, popular e até um certo calão. Logo, é esta a forma mais verdadeira e genuína que temos, ao longo da vida, para falarmos uns com os outros. Por isso, tenho o privilégio de ter como inspiração as pessoas da melhor cidade e da melhor região do mundo: os portuenses e os nortenhos.


De todos os livros que já escreveu, qual é o que considera ser mais especial? Porquê?

O mais especial é sempre o próximo. Valorizo, sobretudo, o caminho percorrido até chegar à meta. O entusiasmo, as dúvidas, as trocas de opinião, o debate. Tudo isso me apaixona. Adoro o percurso de cada uma das fases, ver o trabalho a crescer, as dúvidas também a aumentar e, pelo meio, algumas certezas até que, no fim, chega a hora em que é necessário colocar um ponto final e em que o livro deixa de ser só nosso e passa a ser de todos os que o leem. Acho que o essencial é sermos metódicos, trabalhadores, termos capacidade para aprender, mas, sobretudo, sermos genuínos e honestos. Quem me lê ou quem me ouve, sabe que, apesar de ter aprendido alguma coisa nestes 35 anos que levo de investigação, ainda tenho muito mais para aprender.

Fotografia a João Carlos Brito, em Porto

Considera que é mesmo preciso um “dicionário” para perceber os portuenses?

Dá algum jeito, às vezes… E, o mais interessante, é que não é à toa que trocamos os “bês” pelos “vês” e somos portadores desta inconfundível e deliciosa pronúncia. Mesmo em termos históricos, há razões para estas particularidades do “falar nortenho”. A partir de 790, com a reconquista cristã, até cerca de 1300, com a formação do já atual território português continental constituído, o Norte demarca-se sempre como o baluarte da língua que haveria de ser, mais tarde, o português, com o galego-português do Norte a ser vertido para Sul, contribuindo decisivamente para a unidade e coesão da portugalidade, enquanto território administrativo autónomo e, sobretudo, enquanto língua falada pelos portugueses que, mais tarde, haverá de ser mesmo o Português.

O Norte é, indiscutivelmente, a pátria da língua portuguesa e onde continua, nos nossos dias, a falar-se o português mais genuíno. Até ao ano 1000, o Douro era a fronteira e o palco dos falantes do galaico-português. Um pouco mais de meio século depois, a influência chega a Coimbra e Viseu, num corredor diagonal, que acompanhava o Mondego, e só 150 anos mais tarde (três ou quatro anos depois da fundação da nacionalidade, em 1143), os portugueses da linha do Tejo haveriam de falar o português que os nortenhos já falavam muitos anos antes.

Portanto, é natural que, em pleno século XXI, subsista no Norte um vocabulário muito próprio, um reportório vocabular de que os seus falantes se orgulham e que, mesmo com toda a massificação e normalização da língua, teimam em manter, consistindo esta diversidade num património imenso da portugalidade e contribuindo sobremaneira para a unidade de um país, pois é justamente na riqueza e na diversidade que assenta a identidade de um país.


Qual é a expressão que mais gosta do Porto? Porquê?

Tantas! Há tótil! Ou, como nós dizemos, são “tóteis”! Por muito que puxe pela cachimónia para escolher a melhor, não adianta um grosso. Não consigo, mesmo! Gosto de quase todas e tenho orgulho em utilizá-las. Sem falsas modéstias, penso ter contribuído para cimentar esse orgulho. Há 12 anos, quando publiquei o primeiro livro sobre o falar portuense, havia uma vergonha escondida em tornar públicas essas palavras e expressões que todos nós usamos no nosso quotidiano. Hoje, os nossos “bitaites” estão inscritos nos pin’s para turistas, dão nome a pregos e hambúrgueres e até são nomes de lojas. E assim é que deve ser, carago!

Fotografia a João Carlos Brito, em Porto


Como define o seu novo livro, “Dicionário de Calão do Norte”? Fale-nos um pouco dele. Em que consiste e que surpresas guarda?

Espero que o “Dicionário de Calão do Norte” seja mais um elemento que contribua para o fortalecimento do sentir nortenho. E que divirta o leitor, também. A obra pretende ser muito mais do que o registo calão. Aqui, inclui-se, sobretudo, as manifestações linguísticas dos falantes nortenhos e as variantes dialetais: regionalismos, idiomatismos, provincialismos, localismos, calão, gírias e outras linguagens marginais e informais dos falantes do Norte.

Optou-se por referenciar as entradas quanto à geografia (salvo raríssimas exceções, que entendemos justificáveis) apenas com a localização referente às antigas províncias Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro e uma terceira, o distrito do Porto. Cerca de 40% dos verbetes contêm esta referência, por se tratar de vocábulos que são particularmente utilizados com mais regularidade e frequência por esse grupo de falantes. Não quer dizer que não sejam reconhecidos e até utilizados noutras zonas geográficas, mas optamos por validar desta forma atendendo às fontes ouvidas e consultadas. As restantes entradas não estão identificadas por serem palavras do domínio frequente de mais do que um destes grupos ou até comuns a todo o Norte, o que acontece em número assinalável.

Verifica-se, igualmente, a existência de um conjunto de vocábulos referente a atividades ancestrais e tradicionais, algumas delas em vias de extinção. Assim, podemos, a título exemplificativo, referir palavras e expressões alusivas à agricultura, à panificação, à indústria, ao mar e à pesca, entre outras, que convivem com entradas demonstrativas de sentimentos e atitudes, de insultos e piropos ou de importações e empréstimos de outras línguas, como o galego, o espanhol, o francês, o inglês e até o mirandês. E outras provenientes de micro-realidades, como as minas, os jogos tradicionais ou as festas sagradas e pagãs, indo ao encontro do objetivo da Linguística Histórica, a descrição e estudo da mudança linguística.

Neste livro, o leitor vai encontrar, também, alguns idiomatismos, adágios e citações proverbiais que são utilizados com frequência pelos falantes do Norte. Alguns deles poderão ter nascido nesta região e outros poderão ser importados, afigurando-se, em muitos casos, impossível determinar com rigor o momento e o local em que alguém ou algum facto histórico terá originado a expressão. O que é certo é que as entradas registadas fazem parte do léxico regular do nortenho, o que não obsta a que os falantes de outras regiões os identifiquem, os (re)conheçam e até que os usem, pois a língua não sofre o efeito de barreiras estanques… bem pelo contrário, é alvo de um constante circuito em que os falantes vão trocando influências e palavras, sendo também verdade que, no caso do Norte, foi necessário um espírito de resiliência e de resistência para saber e conseguir fazer face às ditas linguagens e registos de linguagens, numa perspetiva sociolinguística, dominantes.


Como foi o processo de escrita deste livro?

Primeiro, a recolha vocabular, a parte mais morosa, e depois a validação, que é a parte mais complicada. Estou satisfeito com o resultado. É uma obra original, realizada com muito empenho e rigor de anos e anos de investigação, que contou com a colaboração de centenas de pessoas. Falei com muita gente, escutei com atenção. Pessoas com alguma idade, ligadas a atividades artesanais. Consultei praticamente toda a bibliografia existente, falei com alguns especialistas… fiz, em consciência, o melhor que pude e soube para apresentar uma obra que seja digna do Norte.

Foi fácil a escolha do título?

Fotografia a João Carlos Brito, em Porto

A escolha do título sim, foi fácil! Já o subtítulo… O livro chama-se Dicionário de Calão do Norte, porque um território heterogéneo como o atual Norte de Portugal possui, indubitavelmente, um léxico muito próprio, que os seus falantes foram transmitindo de geração para geração, permitindo que se fale, com uma diminuta margem de erro, num falar nortenho, uma das marcas que contribuem sobremaneira para um sentimento de identidade e de pertença telúrica que só os naturais (por nascimento ou adoção) conseguem experimentar.

Essa riqueza vocabular (e um conjunto alargado de variantes fonéticas peculiares) não acontece por acaso. Ao longo de muitos séculos, fatores históricos, sociais, comerciais, culturais e outros concorreram para o aparecimento e fortalecimento dessa realidade que diferencia os falantes nortenhos de todos os outros. Mas porque também tenho a firme convicção de que foi no Norte que nasceu o que haveria de ser, mais tarde, o português, optei pelo subtítulo “A maravilhosa viagem ao português mais português de Portugal”.


De que forma este livro irá surpreender os leitores, sobretudo os portuenses?

Espero alguns sorrisos, algumas exclamações de sincera nostalgia do género “a minha avó dizia isto!” e, por outro lado, algum negacionismo, como “sou do Porto (ou sou de Bragança ou de Braga) e nunca ouvi tal coisa!”. Não é crime nenhum não saber. Eu, por exemplo, estou sempre a registar novas expressões, muitas delas depois de já ter fechado as edições… Penso que apresentar mais de 10 mil significados, a esmagadora maioria devidamente validada, do linguajar dos nortenhos é, quanto mais não seja, um bom princípio para futuros trabalhos. Por outro lado, não me interessando rigorosamente nada o palavrão pelo palavrão, a verdade é que há palavras e expressões conotadas com o calão carroceiro que, em contexto, formam expressões geniais! Algumas são capazes de surpreender.


Como vê e pensa o Porto atualmente?

Gostaria de o ver como uma grande cidade e região que soube abrir-se ao mundo, mostrando e partilhando a generosidade das suas gentes, a beleza das suas ruas e lugares, a riqueza das tradições, sem, contudo, perder a sua identidade, a tal marca Porto. Não será exatamente assim, é verdade, mas, apesar de tudo, numa apreciação imparcial e justa, temos de reconhecer que a avaliação continua a ser francamente positiva. Não é à toa que, entre as cidades europeias de média dimensão, é uma das melhores para morar e onde há mais hipóteses de se ser feliz. Dirão os velhos do Restelo que antigamente é que era bom e que o Porto perdeu a sua mística. Não concordo. Há, de facto, mudanças, mas continua a ser possível andar desafogadamente entre os vários concelhos da Área Metropolitana e, mesmo em hora de ponta, chega-se relativamente depressa ao destino. Depois, mesmo nos apartamentos, as pessoas ainda continuam a conhecer os vizinhos e, muitas vezes, a cumprimentarem-se pelo nome. Este é o maior património: a simpatia das pessoas, o seu valor, a sua vontade em serem solidárias, quando é preciso, e a ligação umbilical que têm com a terra.


Qual é o lugar que mais o encanta na cidade Invicta?

Há vários. O Parque das Águas, na Barão de Nova Sintra, e a vista para o Porto, na Serra do Pilar. É preciso ir a Gaia, é certo… mas, claro, bale mais uma rua no Porto c’a Gaia toda. E mais dois lugares de paixão saudosista: as Antas e Vidal Pinheiro.


Imagina-se a viver noutro lugar se não o Porto?

Adoro viver no Porto. Mas do que gosto mesmo é de regressar ao Porto. É por isso que, a brincar, costumo dizer que gosto de ir a certos sítios só para ter o prazer de regressar ao Porto.


Como gostaria de ver o Porto daqui a 30 anos?

Mudado, evoluído, com mais oportunidades de vida para todos, ainda mais ligado ao Norte, mas com este mesmo orgulho tripeiro, que nos torna únicos.


Já pensa no próximo livro?

Sim, claro. Terá a ver com o Norte e com a nossa cultura.

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