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Históricos com futuro

Históricos com futuro

Com a chegada de 2021 inicia-se um novo ciclo na história do movimento dos veículos antigos.

A Europa foi, durante mais de cem anos, o centro do desenvolvimento do automóvel, das motocicletas e dos carros de desporto, tendo tido nos últimos anos um desenvolvimento importante no apoio a eventos históricos. De facto, o movimento do veículo histórico (veículos com mais de 30 anos em condições funcionamento e com interesse histórico) contribui consideravelmente para a economia europeia e é responsável por milhares de postos de trabalho, dentro duma gama de especialidades tradicionais. O movimento de veículos históricos atrai milhares de entusiastas de todos os níveis etários e sociais.

A década que agora finda foi, contrariamente a muitas previsões, das mais positivas de sempre, a nível nacional e internacional. A era digital ajudou a fazer crescer o movimento, a FIVA (Fédération Internationale des Veícules Anciens) como organização internacional que representa os proprietários de veículos históricos a nível mundial, em que metade dos seus membros está concentrada na Europa, conseguiu importantes conquistas na afirmação do estatuto do automóvel antigo e grande escalada das cotações trouxe alguns efeitos negativos, mas também ajudou a prosperar as melhores e mais sérias empresas do ramo.

A defesa do veículo antigo é tão mais fácil quanto mais visível é a dimensão do movimento e o valor estético e histórico das máquinas. Mostrar e usar o veículo de forma responsável, é também uma forma de cativar simpatias e novos entusiastas. Para isso, tem os Clubes com a assistência de entidades oficiais e privadas tido um papel crucial na organização de eventos de veículos históricos.

São os clubes (por sua vez unidos em federações) que permitem juntar e projetar a voz dos entusiastas. Quanto maior o número de entusiastas associados a clubes, mais fácil é quantificar o número de pessoas afetadas pelas decisões dos governos e da União Europeia. Além disso, há várias vantagens em homologar veículos antigos, tais como a certificação de originalidade e estado do veículo, como o direcionamento para seguradoras em condições muito competitivas, a participação em eventos, etc.

Certificar é uma forma de provar que o seu veículo não é “velho”, mas sim, antigo, legítimo, historicamente relevante e usado de acordo com a filosofia e o estatuto do veículo antigo. Isso permite separá-lo, aos olhos da lei e da estatística, daquilo que é a parte envelhecida do parque automóvel e tantas vezes responsabilizada pelas emissões poluentes.

Certificar é também uma forma de permitir quantificar a dimensão do movimento e do património rolante existente, para que as autoridades entendam a relevância do automóvel antigo no panorama nacional e global.

A certificação é também uma forma de simplificar a vida do proprietário, como se pode verificar: http://www.cpaa.pt/about-us/veiculohistorico/.

O movimento do veículo histórico conta com a dedicação e com o entusiasmo de indivíduos que são proprietários e que preservam os seus veículos. Estes entusiastas prestam um serviço incalculável às gerações futuras. Sem eles, poucos veículos mais antigos teriam sobrevivido para além da sua vida económica normal. A posteridade seria mais pobre e as gerações futuras ficariam privadas de exemplos palpáveis da maquinaria que constituíram a base de tantos desenvolvimentos no último século.

A maior parte dos veículos históricos tem um clube que apoia as atividades de preservação e de lazer, geridos por voluntários, constituindo um verdadeiro testamento à dedicação de comissões sucessivas e ao apoio dos seus membros. Os clubes, pela sua natureza particular, são organizações sociais. Existem, muitas vezes, com o propósito de preservar uma produção e modelos específicos de veículo histórico. Isto leva à prestação de aconselhamento técnico e à presença de membros de clubes em eventos de veículos históricos.

É a visão e som destas máquinas, juntamente com a sua história, as minhas memórias pessoais, e ainda mais importante, o entusiasmo gerado por estas máquinas, que me encorajou à mais de 20 anos a tornar-me sócio efetivo do Clube Português de Automóveis Antigos (CPAA), depois de ter adquirido o primeiro automóvel antigo, um MGB de 1965, e convidado a fazer parte da sua Direção, pelo meu grande amigo José Carlos Barquinha, figura ímpar do mundo dos veículos clássicos.

O CPAA, fundado em 1965, representando em Portugal a FIVA, com a sua sede na cidade do Porto e Delegação em Oeiras, prossegue em nome dos seus associados e como instituição de utilidade publica (desde 1984), o objetivo primordial de assegurar que as medidas tomadas no interesse da sociedade no seu todo não colidam injustamente com a possibilidade de utilização de veículos históricos. Este propósito tem sido concretizado com a manutenção de ligações estreitas com outros Clubes e entidades a nível nacional, como o Automóvel Clube de Portugal (ACP) e o Museu do Caramulo, por forma a realçar os problemas potenciais e para encorajar soluções regulamentares que satisfaçam tanto a necessidade de liberdade de circulação, como as exigências da circulação rodoviária do dia a dia.

Recentemente inaugurada a nova sede no Porto, numa das ruas centrais da cidade (Rua de Serpa Pinto), este novo espaço, único na cidade, com ampla zona de exposição de viaturas antigas gentilmente doadas e cedidas por sócios, é um espaço multifacetado, onde são feitas as vistorias técnicas aos veículos com mais de 30 anos, que será com certeza um marco na história do Clube e do País em prol dos veículos antigos, que convido a conhecer. 

Face a um contexto de pandemia, o que esperar do novo ano 21? Mais desafios e mais oportunidades, que trazem a cada entusiasta mais obrigações, naturalmente, mas acima de tudo é difícil pensar em alguma coisa que tenha tido maior influencia no desenvolvimento da sociedade europeia, durante o ultimo século, que a mecanização do transporte por estrada. Há pouco mais de 120 anos, o transporte motorizado por estrada era praticamente desconhecido e o comércio automóvel não representava mais do que uma industria esotérica de trazer por casa. Hoje em dia, qualquer pessoa acha perfeitamente normal poder usufruir da liberdade de viajar que lhe foi concedida pelo veículo a motor, e milhões de pessoas tiveram o seu posto de trabalho relacionado, em algum aspeto, com a industria do transporte motorizado por estrada.

O melhor que cada um de nós, entusiasta de veículo antigo, pode fazer ao longo da próxima década pelo futuro do veículo antigo é fomentar o gosto nas gerações seguintes, pois são elas que irão moldar o futuro desta nossa paixão. O que acima de tudo motiva os entusiastas e os incentiva a preservarem os seus veículos antigos é saberem que os podem utilizar. Sem este incentivo essencial a nossa herança de transporte móvel deixaria de ser móvel e cairia na delapidação antes da sua última desintegração. Nenhuma parte da nossa herança merece que tal lhe aconteça. 

Pedro Aragão
Vice Presidente Direção Clube Português Automóveis Antigos

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