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Hantavírus: o risco sanitário e o risco comunicacional

Hantavírus: o risco sanitário e o risco comunicacional

O recente surto de hantavírus associado ao navio de cruzeiro MV Hondius voltou a expor um problema que permanece sem solução estrutural: a dificuldade das instituições em comunicar risco sanitário sem gerar ansiedade e alarme coletivo. Na prática, o vírus pode ser controlável. O ruído informativo, esse, raramente o é.

Este fenómeno ganha particular relevância no período pós-covid-19, em que qualquer referência a surtos infeciosos tende a desencadear quase automaticamente um clima de preocupação social. Já não estamos apenas diante de uma leitura epidemiológica do risco, mas perante uma resposta comunicacional fortemente moldada pela experiência recente. Ignorar esta dimensão é, hoje, um erro estratégico evidente.

No caso do MV Hondius, a Organização Mundial da Saúde afastou a possibilidade de evolução para um cenário pandémico. Ainda assim, bastou rapidamente surgirem interpretações precipitadas, paralelismos com 2020 e uma disseminação de conteúdos alarmistas nas redes sociais.

Este padrão reflete uma fragilidade mais profunda: a confiança pública permanece fragilizada após uma pandemia que provocou cerca de 780 milhões de casos, mais de 7,1 milhões de mortes a nível global e que praticamente paralisou o Mundo. Esse legado não é apenas sanitário. É também cognitivo e social, influenciando a forma como o risco é hoje percecionado e interpretado.

Nos últimos anos, a interação entre autoridades de saúde, opinião pública e plataformas digitais contribuiu para um ecossistema informativo saturado. Aliado à circulação de mensagens contraditórias e à polarização discursiva surgiu um contexto em que a leitura do risco se tornou mais instável. E muitos deixaram de conseguir distinguir com clareza entre prudência, alarmismo e mera dramatização.

Neste quadro, emerge um problema recorrente na comunicação institucional: a tendência para confundir informação técnica com comunicação eficaz. Divulgar dados científicos ou emitir comunicados tranquilizadores não é suficiente, pois o público interpreta a mensagem oficial, mas também sinais, contexto e eventuais incoerências.

Quando as entidades garantem que o risco é reduzido, mas reforçam mecanismos de monitorização e ativam estruturas de emergência, a perceção pública tende a fazer uma leitura de maior gravidade.

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E a dúvida instala-se com naturalidade: se o risco é efetivamente reduzido, porque existe tanta mobilização institucional? A pergunta é legítima. E não a responder de forma clara abre espaço a suspeitas, leituras erradas e especulação.

Esta dinâmica é ainda amplificada pelo ecossistema mediático atual. Num ambiente digital que recompensa velocidade, emoção e impacto imediato, os media enfrentam incentivos estruturais difíceis de contrariar. O problema raramente reside numa falsidade explícita. Resulta antes da forma como certas narrativas são amplificadas. Expressões como “novo vírus” ou “surto mortal” ganham tração, mesmo quando o enquadramento científico é mais contido.

Ainda assim, o risco oposto não pode ser ignorado. Quando a comunicação institucional se concentra apenas em tranquilizar a opinião pública, pode transmitir uma perceção de falta de transparência. E num contexto de desconfiança acumulada, qualquer ambiguidade tende a ser preenchida por especulação.

A comunicação de crise exige, por isso, um equilíbrio particularmente exigente: informar sem dramatizar, tranquilizar sem simplificar em excesso e reconhecer incertezas sem fragilizar credibilidade.

Talvez a principal lição deste episódio seja simples. Num ambiente saturado de informação, a confiança tornou-se um ativo mais valioso do que a própria capacidade técnica de resposta. E essa confiança não se constrói no momento da crise. Constrói-se muito antes dela existir.

Helder Robalo
Assessor de Imprensa Sénior
https://helderrobalo.pt/

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