Revista Sabe Bem 63

Família numerosa, autismo e pandemia. Se é fácil? Não é difícil!

Família numerosa, autismo e pandemia. Se é fácil? Não é difícil!

No silêncio da noite escrevo sem a interrupção das quatro criaturas pequenas (como diz a minha querida avozinha) que habitam esta casa. 

No meio de corridas, risadas, discussões e muita brincadeira, sobra muito pouco tempo para conseguir o foco necessário à escrita ou a qualquer outra actividade que requeira uma maior concentração. 

Partilho convosco a experiência que tem sido este segundo confinamento com os quatro pequenos, o marido em teletrabalho e eu a tentar acudir todas as situações que vão aparecendo e, obviamente, a gestão da casa. 

Se no primeiro confinamento obrigatório não sabíamos ao que íamos, neste a coesão familiar tem sido essencial para podermos alhear um pouco os nossos filhos desta nova realidade e permitir que eles vivenciem boas experiências dentro dos muros da nossa casa. 

Tentamos fazer brincadeiras com eles, mais ou menos organizadas e entramos nas loucuras saudáveis deles que tanto os fazem rir. 

O Salvador, pelas suas características mais específicas e únicas, sendo autista, tem o seu espaço e tempo bem definido e tentamos ao máximo respeitar, não interferindo muito nas suas vontades e quereres próprios, numa espécie de qb de gestão autónoma. Deixamos que escolha onde e quando quer brincar. Com quem e de que forma o quer fazer. O que acaba por ser muito interessante observar, porque o processo de imitação das irmãs é muitíssimo forte e basta uma delas o chamar para que ele corra a fazer o mesmo que estão a fazer. 

São momentos de felicidade tão pura, de aprendizagens tão naturais e genuínas, que qualquer pessoa que observe percebe o amor verdadeiro que sentem uns pelos outros e onde não há espaço para discriminação nem preconceito pela diferença dele. 

Cá em casa somos todos diferentes e é nessa diferença que nos complementamos. Todos dão um bocadinho de si. Todos são igualmente importantes para que a nossa saúde mental e física fique preservada durante e depois deste confinamento.

As irmãs são a lufada de ar fresco dele e nós os pilares disto tudo. 

Se nos perguntam se é fácil? A minha resposta pronta é: não é difícil. 

Todos temos um papel a desempenhar e eles, desde pequeninos, percebem bem como tudo funciona.

Não é possível haver famílias numerosas em que não seja incutida responsabilidade desde cedo nas crianças. E se por um lado brincam muito, têm aulas online e interagem muito os quatro, por outro lado há a delegação de tarefas. 

Cá em casa, todos fazemos tudo. Não há o pai ou a mãe. Existe um nós. E eles participam. 

Neste confinamento, tal como no anterior só com esta perspetiva é que funciona para a nossa família. Temos dias melhores, temos dias piores. Nunca é tudo linear e não acordamos sempre todos bem-dispostos. Mas uma coisa é certa:

Só depende de nós vivenciarmos este confinamento da forma mais positiva que conseguirmos. Com aceitação e resiliência. Com trabalho e sobretudo com muito AMOR. 

Andreia Neves Dos Santos
Autismo. E depois?

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