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Europa impõe novo “muro” a milhões de refugiados

Europa impõe novo

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A Europa tem medo e, por isso, fecha-se a cadeado. Em 2015 alguns milhões de pessoas, que desesperadamente procuram ajuda, chegaram à Europa.
Vinte e cinco anos depois da Queda do Muro de Berlim, a Europa, designadamente a Hungria, Roménia, Bulgária, Macedónia e, do outro lado, o Reino Unido, erguem um novo “muro”, muito mais significativo porque fecha os olhos, e age, contra o sonho de milhões que, na Europa, apenas procuram voltar a viver.
Perante um evidente adormecimento da opinião pública europeia, centenas de migrantes ilegais tentam chegar, todos os dias, ao “Ocidente”, o El Dorado, o sonho europeu de um futuro melhor. Fogem da guerra, miséria, da fome, da corrupção, da morte. A maioria são sírios e afegãos, mas também há iraquianos e kosovares. Pagam alguns milhares de dólares para assegurar a travessia, não sabendo que vão ser largados sem rede pelos traficantes, sem apoio nem documentos numa cidade desconhecida, num campo de refugiados, às vezes até no mar. O mundo vive a maior crise de refugiados desde a II Guerra Mundial. São já mais de 50 milhões, segundo dados da Amnistia Internacional.
Os últimos números do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) falam em 293 mil migrantes e refugiados que tentaram chegar à Europa através do Mediterrâneo, tendo já morrido 2.440 pessoas durante o percurso. Negros, brancos, amarelos, velhos e jovens, crianças de olhos grandes e barrigas esticadas pela fome, cruzam o Mediterrâneo em embarcações tão frágeis que mesmo no calmo mar naufragam. Deslocados, apátridas, sem nada. Perante um mar traiçoeiro e cruel, os refugiados, principalmente sírios e iraquianos, viraram-se para outras fronteiras: chegar à União Europeia, através da Hungria, cruzando a Sérvia. Chegar ao Reino Unido pelo Canal da Mancha, escondidos em camiões ou nos comboios. Centenas, todas as noites, a passar a cerca erguida como perímetro de segurança. Como se um muro pudesse segurar o desespero.
Enquanto isso, a mesma Europa que ridicularizou o muro construído pelos Estados Unidos na fronteira com o México, dedica-se a construir valas, fossos, muros. A fechar as fronteiras o mais possível. Para proteger as suas economias, frágeis, a recuperar da crise financeira, do desemprego, das ajudas externas.
Na Hungria, a construção de uma vala onde vão assentar os 175 quilómetros de betão na fronteira com a Sérvia, para tratar os ilegais, foi acelerada. Não vai acontecer do dia para a noite, como em Berlim, não vai separar famílias, não vai ser o símbolo de duas realidades políticas diferentes, de uma guerra semifria. As fronteiras, garantem, vão continuar abertas. Mas a Europa tem medo, não consegue mais acolher quem desesperadamente precisa de ajuda. E fecha-se a cadeado. Tudo isto numa Europa que precisa, desesperadamente, de gente jovem… e que já não recorda que, depois de findas as hostilidades da II Guerra na Europa, entre outubro de 1945 e final de 1947, mais de 11 milhões de alemães fugiram ou foram expulsos das suas casas. Mais de um milhão morreu durante a fuga e a expulsão.
Mais de 100.000 imigrantes e refugiados chegaram à Europa desde o início de 2015 através do Mediterrâneo, em particular à Itália e Grécia, referiu o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). A maioria é proveniente da África subsariana e entre eles existem crianças e mulheres grávidas, precisou. A crise migratória resulta de uma catástrofe humanitária que a Europa ainda não sabe como gerir. Angela Merkel, que tantas vezes é criticada por razões de política económica, está a ser a primeira líder europeia a mostrar que pelo menos sabe o que não fazer. O Governo da Alemanha, que vai receber 800 mil migrantes, decidiu suspender regulações da União Europeia e, assim, permitir que migrantes provenientes da Síria peçam asilo político no maior país da Europa, mesmo que tenham chegado através de outros países. Quem agradece esta suspensão de protocolo é a Grécia e a Itália, países que enfrentam sérios problemas com a chegada de refugiados ao seu território, fugidos da Síria mas também do Iraque e do Afeganistão.
Entretanto o drama humanitário agudizou-se mediaticamente com a descoberta dos corpos de 59 homens, oito mulheres e quatro crianças encontrados num camião abandonado perto da fronteira com a Hungria. Quatro pessoas foram detidas na Hungria por suspeitas de ligação à morte destes 71 refugiados, na maioria sírios, que foram encontrados dentro de um camião abandonado numa autoestrada do Leste da Áustria. O veículo, de 7,5 toneladas e um compartimento de carga com cinco metros, estava parado numa zona especial para avarias da autoestrada A4, entre o lago Neusiedl e a localidade de Parndorf, no estado de Burgenland, na fronteira com a Hungria. A polícia calcula que as vítimas tenham morrido sufocadas entre 36 e 48 horas antes de o camião ter sido encontrado, na quinta-feira, ao meio da manhã.
Em Portugal, pelo contrário, nota-se uma grande sensibilização para o problema. Dezenas de pessoas estão a disponibilizar-se para acolher famílias ou crianças refugiadas, revelou a presidente do Conselho Português para os Refugiados (CPR), que diz estar também a receber ofertas de empresas e outras instituições. As imagens de milhares de pessoas desesperadas a tentar entrar na Europa numa tentativa de fugir aos conflitos armados dos seus países, tem levado muitos portugueses a manifestar-se disponíveis para acolher uma dessas famílias, contou Teresa Tito Morais. “Há um sinal de mobilização da sociedade civil. As pessoas oferecem o que podem. Umas dizem que podem receber um casal com filhos, outros que podem receber crianças não acompanhadas”, disse, explicando que no último mês as ofertas têm surgido um pouco de todo o país e que “são às dezenas”.
Em breve, Portugal deverá começar a receber cerca de 1.500 refugiados, na sua maioria da Síria, e o Governo diz que está em curso uma estratégia para auxílio humanitário, que inclui os ministérios dos Negócios Estrangeiros, Defesa Nacional, Administração Interna, Saúde, Segurança Social e Educação. Mas para a presidente do CPR, trata-se de um número “muito ridículo”, tendo em conta que todos os dias chegam cerca de 2.500 pessoas só à Grécia.

José Alberto Magalhães

Diretor de Informação Revista VIVA
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