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Em 1939 viviam no Porto mais de 45 mil pessoas em 1152 ilhas

Em 1939 viviam no Porto mais de 45 mil pessoas em 1152 ilhas

Em 1939 existiam no Porto 1.152 ilhas que albergavam cerca de 45.291 moradores, resultando em 17% da população da cidade. Estas ilhas eram um género de corredores compridos e estreitos com casas muito pequenas, alinhadas em fila de cada um dos lados do corredor. Existiam também outras que se organizam em torno de um pátio comum, a partir do qual se formavam relações fortes de vizinhança e de proximidade.

De acordo com Fernando Távora (1996: XIII ss), citado por Fernando Matos Rodrigues, na plataforma da Associação Comercial do Porto, “há uma relação genealógica entre as ilhas e a nova cidade”, no pós “invasões francesas e a introdução do liberalismo, com um novo conceito económico e social”.

As ilhas eram, na época, “uma das respostas possíveis e das mais económicas para albergar uma população de origem rural”, que se deslocava para a cidade do Porto, “também ela em processo de urbanização emergente, e com problemas graves de alojamento, próprios do regime de mercado, associados a uma forte e crescente especulação do solo urbano”.

Já em 1938 as ilhas eram vistas como um problema, comprova um documento do Ministério das Obras Públicas e Comunicações, datado de 25 de janeiro de desse ano, que dizia “que, uma vez concluídos os bairros iniciados, o que há a fazer, antes de mais nada, é atacar o velho e sempre momentoso problema das ILHAS que constituem uma autentica vergonha para a cidade do Porto” e até para o País, “pois são impróprias de uma terra civilizada”.

Segundo o autor, o Director Geral falava, na altura, de alguns estudos realizados para solucionar este problema habitacional e cita inclusive um relatório realizado pelo Chefe da Repartição de Obras de Edifícios, no qual se fazem referencias pouco positivas para com as Ilhas do Porto: “(…) como estudo do aproveitamento de um local demarcado dentro de uma das piores zonas da cidade do Porto, coberto por miseráveis ilhas, mostrando como se poderia no mesmo local construir modestas habitações para toda a gente que lá se encontra, habitando hoje em condições abaixo de toda a apreciação. (…) Quando se pretenda destruir esses aglomerados repugnantes que todos concordam que são uma vergonha para um povo que se preza e quere progredir, ressalta sempre a pergunta dolorosa: para onde há-de ir esta gente?”.

Este processo provoca sempre muita revolta nas pessoas que não conseguem entender a destruição de um bem que, por muito fraco que seja, é um abrigo fundamental “para quem não tem possibilidade de pagar um tecto digno”.

O problema de saúde pública que se vivia na época era grave o que levou a uma complexa e dura operação municipal de “salubrização” que passava essencialmente pela demolição das ilhas e pela construção de bairros novos e respectivo realojamento. Esta decisão não obteve o sucesso esperado e só mais tarde, com o Ministro Arantes de Oliveira, é que é lançada nova campanha, que segundo Távora “trata-se da demolição e do realojamento dos moradores pela criação de bairros, ditos de habitação social, dispersos por diferentes áreas da cidade”.

Este diploma contraria a filosofia do anterior Relatório de 1937 da autoria do Chefe de Repartição de Obras e Edificios, Engenheiro Fernando Galvão Jacome de Castro, que não concordava com a deslocalização dos moradores. Declara no relatório que a “ideia de construir em locais afastados grandes agrupamentos para a gente mais desprotegida de fortuna, não corresponde a uma necessidade e tem sob vários aspectos inconvenientes gravíssimos já reconhecidos e provados em diferentes paizes”.

Coloca também a questão dos custos da deslocalização em infraestruturas e mobilidade: “se se vai construir habitação para essa gente em locais afastados, haverá que contar com despezas de transportes e tempo de percurso. E os transportes são caros, e o seu custo há a juntar às rendas a estabelecer”. Acrescenta que “compreende-se essa solução quando de facto não há espaços livres ou a libertar em locais mais próximos do centro onde essa gente trabalhava. Ora se se reconhece a necessidade inadiável de destruir o que de mais vergonhoso existe nesses centros, dessas destruições resultam espaços livres que devem ser aproveitados. E parece ser razoável destinar esses espaços a gente que aí vive e está ligada a trabalhos que executa perto desse local”, remata.

Recentemente Pedro Baganha, vereador do Urbanismo e Espaço Público da Câmara do Porto, falava sobre as ilhas e fazendo um contexto histórico relembrou que estas “responderam à falha de mercado no século XIX. Era um Porto esquecido, envergonhado. Chegaram a ser 50 mil pessoas a habitar nestas unidades. Houve um estigma social que se colou a estes territórios”.

Esta “sempre foi uma realidade terrível, uma realidade que envergonhava a cidade. O Porto foi a última cidade ocidental a ter peste, detetada por Ricardo Jorge”, acrescentou.

O vereador afirmou que existem atualmente “três grandes desafios da regeneração das ilhas do Porto” como a “falta de recursos económicos de proprietários e inquilinos; dificuldades a nível de projeto (tipologia, enquadramento urbanístico); e o desenvolvimento integrado destas operações, pensando em simultâneo no edificado e nos residentes.”

“As ilhas extravasam a esfera ideológica. Não são também uma mera questão técnica. Trata-se de uma questão com 150 anos. Não é um problema, é uma condição”, concluiu.

Citado por Fernando Matos Rodrigues, na plataforma da Associação Comercial do Porto, Teotónio Pereira considera por exemplo, que “entre nós foi no quadro da ditadura do chamado Estado Novo que as primeiras iniciativas estatais neste domínio tiveram lugar” sendo que na cidade do Porto conclui que “o programa de erradicação das ilhas, na década de 60” atirou “os respectivos habitantes para bairros municipais na periferia, os quais são hoje fonte de graves problemas sociais”.

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