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Cláudia Rangel

Cláudia Rangel

“A música acompanhou-me desde que tenho memória”

Cresceu entre a audição dos vinis, na sala de casa, e as cassetes gravadas, em estúdio, entre amigos, na adolescência, onde assume ter feito “as [suas] descobertas musicais mais marcantes” e fundado “as referências para o que é hoje musicalmente”. Cláudia Rangel assumiu, recentemente, o legado dos Estúdios Rangel, um dos mais antigos do país, nascidos no Porto, em 1965, e encontra-se a viver aquele que é, até então, o auge da sua carreira profissional.

Portuense de “gema, alma e coração”, cidade de onde herdou as “convicções inabaláveis e firmes”, a também engenheira de som e produtora música tem pelo universo musical uma paixão indescritível. Mas foi, sobretudo, com base na “família alargada e de relação estreia”, nos “ideias de tradição, memórias e legado” que tomou a decisão de enveredar pelo negócio familiar e assumir, assim os destinos dos estúdios fundados pelo pai.

Em conversa com a VIVA!, a produtora musical falou-nos sobre o seu percurso, no começo do interesse pela produção musical e nas memórias que guarda dos Estúdios Rangel, recordou o início desta casa, que conta já com mais de meio século de história, e revelou aquele que considera ser o futuro da produção musical.

Neles, símbolo incontornável da cidade do Porto, da região Norte e do país, revê parte da sua memória e projeta o seu futuro. Neles, cresce a cada dia, sonha e realiza, comove-se e dá continuidade a um projeto criado pelo pai, sempre com o intuito de “preservar e manter o seu legado e a memória”.

Saiba tudo nesta entrevista.

Como surgiu o gosto/interesse pela produção musical?

A música acompanhou-me desde que tenho memória. A parte da criação surgiu primeiro, na adolescência, com a primeira banda, onde escrevi e compus alguns originais. Anos mais tarde e, já num registo bem diferente, surgiram os arranjos musicais para a tuna feminina de engenharia, da qual fui fundadora e ensaiadora. Desde aí que a produção musical tem sido algo que venho a fazer para dar resposta aos mais diversos projetos e trabalhos que desenvolvi, mas só agora é que é!

Que memórias guarda dos Estúdios Rangel?

Eu cresci com os estúdios desde sempre presentes, por isso as recordações pontuam todas as minhas memórias. Desde as de criança, a ver o meu pai a editar, a cortar e a colar fita com uma destreza que me fascinava, do topo do gravador onde ele me sentava, aos tempos de adolescentes e dos trabalhos de verão, a fazer tarefas de escritório, até aos primeiros trabalhos de sonorização de manuais escolares e diaporamas religiosos.

Que importância assumem os Estúdios Rangel na cidade do Porto, na região Norte e no país?

O estúdio, na sua fundação, veio colmatar uma necessidade que existia no Norte e Centro do país para a gravação áudio profissional. E, desde então, cresceu e adaptou-se àquilo que eram as necessidades dos músicos e da indústria do áudio da região Norte. Volvidos mais de 50 anos continuamos a fazê-lo, criando novas formas de trabalhar, novos serviços e mantendo-nos fiéis à ideia de tornar possível a produção áudio de mais alta qualidade. Os Estúdios Rangel mantêm-se relevantes neste panorama como um dos poucos e verdadeiros estúdios comerciais com as melhores condições técnicas e acústicas para a produção áudio e musical na região Norte.

Que músicos já atravessaram as portas dos Estúdios Rangel ao longo destes 56 anos?

Em 56 anos de existência foram inúmeras as pessoas que passaram pelo estúdio, e que nele deram os primeiros passos para os artistas que são hoje. Estamos, atualmente, num processo de criar um “roteiro” de quem por cá passou. Temos conhecimento de alguns que temos abordado e convidado a colaborar connosco nesta recolha de memórias e que neste processo trazem à luz outros nomes, é quase que uma árvore genealógica que vemos crescer. Esperamos em breve podê-la apresentar condignamente.

Em 2016, os Estúdios iniciaram obras de renovação e tratamento acústico. Foi mais um passo para uma nova aposta no futuro?

O estúdio está em permanente evolução e melhoramento, desde 1965 na sua criação. Esta última renovação está em linha com aquilo que sempre foi feito e com alguns grandes passos que a evolução da indústria trazem. Foi assim quando passamos da gravação em 2 pistas para multipista, com o salto para a gravação e os sistemas digitais, e agora com mais uma renovação e outros melhoramentos que estavam ao nosso alcance.

Como olha para produção musical atualmente?

Atualmente, a produção musical explodiu na quantidade e no alcance, mas continua a orbitar em duas grandes esferas: o domínio da criação artística e o domínio da indústria e do entretenimento. Ocasionalmente estas duas esferas unem-se e temos projetos que nos surpreendem.

E como espera que seja o seu futuro?

Prevejo que siga aquilo que temos sentido nestes últimos anos. Apesar da democratização e facilidade com que é possível fazer a criação musical hoje e que traz para o público uma vasta oferta, existe uma franja que procura melhorar e aprimorar aquilo que faz. São esses criadores que percebem a importância da produção e do papel do produtor musical, da relevância de fazer o trabalho em estúdio com as melhores condições possíveis e, acima de tudo, com tempo.

Nos últimos (quase) dois anos, o setor da cultura, onde se inclui a área da música, foi profundamente afetado pela pandemia de covid-19. Quais foram as maiores dificuldades sentidas nos Estúdios Rangel?

Os últimos dois anos obrigaram a uma adaptação incomum por parte de toda a sociedade. E se no setor da cultura, e da música mais em concreto, teve efeitos relevantes, o domínio da criação artística manteve-se em atividade. No estúdio, a dificuldade mais sentida prendeu-se com a necessidade de fechar e ficar indisponível para a produção dos projetos maiores com vários músicos e o adiamento de muitos dos projetos em curso. Por outro lado, os Estúdios Rangel sempre diversificaram a sua oferta na área do áudio, pelo que assistimos à procura de outro tipo de serviços e colaborações que abriram portas a alguns dos trabalhos que hoje realizamos com regularidade.

Sente que, agora, passada a “tempestade”, a música está num processo de valorização por parte da população?

Julgo que neste momento assistimos à valorização da música, mas, acima de tudo, à valorização da forma como se usufrui dela, desde a vontade de assistir a concertos, experienciar a música e o contacto com os artistas e interpretes às energias que são trocadas nesses momentos de performance artística.

De que forma considera que a música pode impactar a vida da população?

A música, tal como outras formas de arte e cultura, é “comida para a alma”. Tem a capacidade de nos fazer crescer e expandir no que pensamos e no que somos. Portanto, é natural que transforme a nossa forma de estar e de nos relacionarmos com os outros… e quando partilhamos “o que contemos”, o infinito é o possível.

O que é que o tipo de música que cada cidadão ouve nos pode dizer sobre ele?

Diz-nos muito mais a música que cada pessoa é capaz de dar a partilhar.

É uma mulher empreendedora, no auge da sua carreira. Este é o caminho que sempre sonhou traçar?

Este não é nem foi o caminho esperado, mas é sempre sustentado no sonho e na vontade que o auge continue sempre lá à frente, para onde vou.

O que é que ainda lhe falta conquistar?

Espero conquistar tudo aquilo que tenha a capacidade de sonhar e desejar.

Onde gostaria de estar daqui a 10 anos?

Daqui a 10 anos espero continuar aqui, com a mesma vontade de continuar a estar e a realizar aquilo a que me proponho e com muita mais música criada, lançada e partilhada.

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