Em mais uma edição da rubrica “Lojas Históricas”, a VIVA foi conhecer a Casa Hortícola. Fica em pleno coração da cidade do Porto, na Rua de Sá da Bandeira, sendo já uma casa centenária e emblemática da Invicta.
A VIVA esteve à conversa com o atual proprietário do espaço, António Ferreira, que nos falou ao pormenor sobre o que encontrar na Casa Hortícola, a sua história e muito mais.
Para quem não conhece a Casa Hortícola, pode fazer uma contextualização histórica do espaço? Em que altura surgiu, como é que surgiu…
A Casa Hortícola foi inicialmente constituída por três sócios, que já tinham sociedade ali na Rua de Alexandre Braga. Entretanto, quando o Mercado do Bolhão abriu, por volta de 1914/15, digamos assim, o primeiro estabelecimento que aqui existiu foi uma salsicharia, chamada Salsicharia Internacional. A coisa não resultou muito bem.
A Casa Hortícola chegou em agosto de 1921. O Sr. António Moreira da Silva tomou uma decisão que acaba por marcar a história da Casa Hortícola para sempre: em termos arquitetónicos, não mudar nada. Tudo o que aqui está se decidiu manter como estava. E assim se inicia a Casa Hortícola. O Sr. António Moreira da Silva já tinha uma companhia ligada a frutos e flores, mas decidiu criar esta com uma perspetiva de qualidade e especialização, ou seja, poder fornecer algumas sementes e alguns bolbos mais específicos, mais de qualidade, mais requintados, digamos assim.
Nasce assim a Casa Hortícola, já com ideias muito à frente do seu tempo. Não existia, na altura, o tipo de fornecimento de sementes que existe hoje, e por isso conseguiram expandir o negócio através de catálogos: tinham catálogos com todas as sementes disponíveis e o respetivo preço, que enviavam para todo o país. Os clientes faziam a encomenda e, conforme as épocas do ano, eram enviadas as sementes: sementes de flores para semear nos respetivos momentos, mas também plantas, árvores de fruto, etc.

O que podemos encontrar cá hoje?
Podemos encontrar exatamente a mesma coisa que se encontrava nessa altura. Temos sementes de horta, das mais variadas espécies: abóboras, alfaces, agrião, cenouras, cebola, pencas, melão, meloas, melancias, tomates, pepinos, pimentos, tudo isso que também já tinham na altura.
É evidente que foram surgindo novas variedades, que também vamos tentando ter, algumas novidades que o mercado vai oferecendo, embora mantenhamos sempre a tradição. Por exemplo, o tomate que mais vendemos é, de facto, a variedade coração-de-boi, não há dúvida. Tentamos vender uma variedade de cebolas portuguesas.
Depois temos algumas variedades novas, como estava a dizer: uma abóbora-espaguete, que não é tão conhecida; uma beringela violeta de Firenze, que é uma beringela roxa, quase parece uma bola de futebol; determinados tipos de pimentos diferentes que fomos buscar por haver procura: o jalapeño, o habanero, portanto os picantes. Isto dentro das sementes hortícolas.
Fomos buscar também, mais recentemente, um conjunto de sementes de características biológicas, sementes orgânicas, em cuja produção não são utilizados fertilizantes nem insecticidas químicos, uma gama de sementes de aromáticas, onde encontramos o endro, a arruda, o funcho, o orégão, o ruibarbo, entre outras. Introduzimos também, recentemente, sementes de micro-vegetais, os chamados brotos, para se fazerem em bandejas de germinação pequenas, para pôr em saladas ou em pratos: o sushi, por exemplo, usa muito este tipo de produto.
Continuamos a ter sementes de relva. Uma coisa que se introduziu recentemente, fruto de um feliz encontro com o João, foi passarmos a disponibilizar as Sementes de Portugal. Estas têm uma característica engraçada: são sementes de flora nativa, não cultivadas, a equipa das Sementes de Portugal vai aos locais e recolhe as sementes diretamente na natureza. São, portanto, do mais natural e mais puro que existe, e têm tido, de facto, muito boa aceitação.
Depois temos a parte dos bolbos de flores, conforme as épocas, mais tradicionais e menos tradicionais. Agora, em meados de setembro, vamos receber a época de inverno, com as tulipas, os narcisos, os íris, e por aí fora; mais à frente, em fevereiro, chega outro grande grupo, que são as dálias e os gladíolos, portanto, esses são os dois grandes momentos dos bolbos. E depois temos as sementes tradicionais de flores, que já tinham também: cravos, cravinas, calêndulas, amores-perfeitos, violetas, entre outras.
Quem é que atualmente mais vos procura? São turistas, são locais? Sentem também algum tipo de procura mais sazonal?
Sim. Dividiria os nossos clientes, nesta altura, em três grupos.
O primeiro grupo, o mais clássico, é aquele que, nas épocas de sementeira, vem buscar as sementes específicas para a época: clientes antigos, felizmente muitos deles regressaram depois da reabertura do mercado. Vêm buscar, por exemplo, nesta altura, o nabo, porque estamos a começar a semear os nabos; agricultores mais antigos que vêm buscar o nabo, a fava, a cebola. Esse é o primeiro grande grupo, os clientes mais tradicionais.
Depois temos clientes nacionais mais jovens, que vêm à procura deste tipo de produto mais recente, os brotos, os rebentos biológicos, porque acham interessante, porque faz bem à saúde, porque tem propriedades diuréticas, energéticas e por aí fora.
E depois, de facto, temos os turistas. Os turistas já são um grupo de relevo nas vendas da Casa Hortícola. O que procuram, sobretudo, são espécies portuguesas, querem levar algo que seja português. As Sementes de Portugal têm uma saída forte junto deste público, assim como os vegetais característicos de Portugal: a couve-galega, para o caldo-verde, que sai muito bem; as cebolas portuguesas, a de Setúbal, a garrafal; as pencas daqui, a penca de Chaves, a de Mirandela; o feijão do Algarve, a fava do Algarve. E o tomate, o tomate coração-de-boi é, sem dúvida, um dos pratos fortes da casa. Também a salsa é muito procurada.
Como tem visto a evolução do negócio?
É assim: quando o meu padrinho aqui estava e comecei a ter algum contacto mais próximo com a gestão, cheguei a dizer-lhe: “Neste momento há duas entidades, duas partes que estão, de alguma forma, a ganhar com a Casa Hortícola: o seu funcionário e o Estado português, a quem paga as contribuições. Mas isto não está a dar lucro, está a tirar dinheiro das suas economias, do seu bolso, para colocar na Casa Hortícola.” E ele respondeu-me: “Mas isto é o meu amor.” E, quando é o amor, não há mais nada a dizer: o amor não é racional.
Era o gosto dele, era isto que ele queria: que isto sobrevivesse. E fizemos algumas mudanças nesse sentido, para ultrapassar algumas dificuldades. Isto começou a mexer, fomos introduzindo mais produtos, novidades, e a variedade de produtos aumentou exponencialmente.
Neste momento, não posso dizer que enriqueço com isto. Se não tivesse, digamos, outra vida antes desta, provavelmente não chegaria. Mas, nesta fase, mantendo esta dinâmica, dá para não ter prejuízo e para cumprir aquilo que era o sonho dele: que isto lhe sobrevivesse. E já lhe sobreviveu mais uns anos, e vamos andando.
Quais são as melhores histórias que guarda do espaço? Há algum elogio que guarde com especial carinho, por algum motivo?
Uma coisa fantástica é o carinho que as pessoas, sobretudo as mais antigas, têm pela loja e por quem aqui trabalhava. Diariamente recebo aqui pessoas que falam do meu padrinho, que falam do Sr. Isidro: o que faziam, como me ensinaram, os conselhos que davam e que ainda me dão, a simpatia que tinham. Isso é algo que acontece todos os dias.
Depois, comecei recentemente, também fruto de um feliz acaso, a trabalhar as redes sociais com duas miúdas fantásticas, que estão a “brincar” um pouco com esta parte das redes sociais, e tenho criado uma dinâmica engraçada com isso. E tenho recebido, nessas redes sociais, algumas mensagens que guardo com muito carinho, porque falam da simpatia, dos conhecimentos técnicos.
Recebemos também fotografias com bolbos comprados aqui, que aconselhei. Também volta e meia faço uns vídeos para o TikTok, qualquer dia estou um influencer (risos).
Qual é que tem sido a importância de pertencer ao Porto de Tradição?
Sinto diferença pela forma como alguns operadores turísticos vêm cá apresentar a loja. Há 2 ou 3 colaboradores que vêm, não direi diariamente, mas várias vezes pela semana. Vêm apresentar a loja e isso tem algum reflexo em vendas, pois as pessoas acabam por levar alguma coisa, por vezes. Acaba por ter impacto.
No ano passado, não fui a tempo, mas espero este ano ter algum apoio do fundo destinado às lojas do “Porto de Tradição”, para fazer um projeto que tenho pensado para a parte de cima. Construir talvez ali um pequeno museológico. Estou a tratar também, com o apoio do PRR, para desenhar uma loja online da Casa Hortícola. Não é que espere ter grandes resultados económicos nessa loja online, mas parece-me importante estar nas plataformas e dar-nos a conhecer, podendo chegar a outros públicos.
Dito isto, sim, acho que o projeto “Porto de Tradição” é muito importante. Mas claro, queremos sempre mais. No entanto, há que ver também que a economia da cidade, do turismo que aqui anda à volta, só se justifica enquanto se mantiver uma identidade própria do Porto. Quando formos iguais a qualquer outra cidade europeia, ninguém vem cá. Acho que o comércio tradicional é identitário das cidades. Se o destruirmos, a cidade perde a sua identidade. Por isso, acho que estes projetos, como o “Porto de Tradição”, são importantes.