Há restaurantes que procuram reinventar a gastronomia. E há outros que fazem precisamente o contrário: recuperam aquilo que já existia. É essa a ideia do Bó Tá Quente, uma tasca no Porto criada por dois irmãos para homenagear a avó e trazer para a cidade os sabores, as receitas e as memórias da aldeia onde fez a sua vida.
O espaço abriu em junho do ano passado. Desde então, a resposta tem sido positiva e a pequena tasca já recebe clientes de vários pontos do país e turistas de diferentes nacionalidades. No centro de tudo está a avó Susete, as suas receitas e uma forma muito particular de olhar para a cozinha tradicional portuguesa.
Tudo começou com o pão da avó
A história do Bó Tá Quente começa longe do Porto, em Vila Nova de Paiva, no distrito de Viseu, onde a avó tinha uma tasca e fazia pão de forma tradicional. Foi precisamente essa memória que esteve na origem do projeto.
“Eu e o meu irmão sempre fomos empreendedores e sempre quisemos fazer algo para homenagear a nossa avó, neste caso em vida”, explica Nuno Trindade, um dos responsáveis pelo espaço.

A ideia era levar para uma cidade maior aquilo que fazia parte da identidade da família: os enchidos, as receitas antigas, o pão amassado à mão e toda uma forma de cozinhar que vem de outras gerações.
O objetivo passa também por mostrar que aquilo que se fazia antigamente continua a ter lugar nos dias de hoje. “Às vezes melhorar e fazer coisas diferentes não é inovar. É ir buscar os nossos antepassados e as receitas antigas” – explica Nuno Trindade.
Uma homenagem em vida à avó
A avó continua muito presente no Bó Tá Quente. É ela quem transmite as receitas e, sempre que a saúde permite, também visita o restaurante para perceber se tudo continua de acordo com os padrões de qualidade que sempre exigiu.
O próprio nome do restaurante nasceu de uma memória familiar. A família tem 17 netos e, quando a avó fazia pão, havia uma expressão que ficou associada à infância dos irmãos: “Bó, tá quente”. Foi essa a frase que acabaria por dar nome ao espaço.
É uma história que os responsáveis fazem questão de explicar a quem entra, sejam portugueses ou turistas estrangeiros.“Quanto mais antigas as receitas forem para nós, melhor”, explica o responsável.

Essa filosofia não significa que não existam novidades. Pelo contrário. Há novas receitas a serem preparadas, mas a regra é a mesma para tudo o que entra na carta: não basta ser diferente. Tem de ser bom. “Ou é bom, ou não trazemos” – esclarece o responsável.
A francesinha que levou quase um ano a aperfeiçoar
Uma das novidades mais recentes é a francesinha do Bó Tá Quente. O prato chegou ao menu há cerca de três meses e rapidamente entrou no top 3 dos pratos mais procurados da casa.
A grande particularidade está no molho, que procura juntar características associadas às francesinhas do Porto e de Braga. “É um misto. Aí é que está a magia da minha avó” – explica.
A receita foi trabalhada durante muito tempo. Só após um longo período de testes, garantida a qualidade que o Bó Tá Quente exige, a Francesinha passou a figurar no menu. Afinal de contas, o objetivo nunca foi ter mais uma opção, apenas por ter.
Desde que a Francesinha entrou em cena, tem recebido boas avaliações dos clientes e tornou-se rapidamente numa das principais apostas da casa.
Uma tasca construída com memórias da aldeia
A ligação à avó não está apenas na comida. Vários elementos da decoração vieram da antiga tasca da aldeia. Um telefone antigo, por exemplo, mantém o número que um dos netos decorou quando era criança.
Há também objetos ligados aos hábitos da avó, como o assador onde preparava castanhas na lareira. Outro dos elementos mais particulares está nas paredes. Os clientes e turistas são convidados a deixar mensagens em azulejos, que ficam no restaurante como uma espécie de memória da passagem por ali.
A coleção já reúne mensagens de mais de 30 nacionalidades. “Tem cá um pedaço deles, uma lembrança” – realça Nuno Trindade.

Um fenómeno online
O crescimento do Bó Tá Quente aconteceu rapidamente. Pouco depois da abertura, um influencer passou pelo espaço e acabou por publicar um vídeo no qual a avó teve também um papel importante. O conteúdo chegou a quase dois milhões de visualizações.
A repercussão ajudou a transformar o restaurante num sucesso quase imediato. Desde então, continuam a chegar clientes que conheceram o espaço através das redes sociais, mas também através da televisão. Mais recentemente, o Bó Tá Quente recebeu Fátima Lopes, que acompanhou a família desde a aldeia onde a avó vive até ao restaurante no Porto.
A exposição mediática faz com que, hoje em dia, já haja quem venha de propósito de Santarém ao Porto, só para experimentar o Bó Tá Quente.

Portugalidade à mesa
Os portugueses representam uma parte importante do público, mas o restaurante também recebe muitos turistas estrangeiros. E há algo que parece funcionar particularmente bem junto de quem vem de fora: a sensação de estar numa verdadeira tasca portuguesa.
Para os responsáveis pelo espaço, essa autenticidade é uma das principais diferenças face a restaurantes modernos que podem acabar por ter ambientes semelhantes em diferentes cidades. No Bó Tá Quente, a intenção é precisamente a contrária.
A decoração recupera peças da antiga tasca da avó, a comida parte de receitas familiares e a música também procura reforçar essa identidade. O fado e Amália Rodrigues fazem parte do ambiente do restaurante.
“Eu acho que nós devemos ter orgulho nas nossas raízes e na nossa história e naquilo que é nosso” – acrescenta o proprietário.

Vêm aí noites de fado
A ligação à música portuguesa vai ganhar ainda mais força a partir de outubro. O Bó Tá Quente prepara-se para começar a receber noites de fado aos sábados, revelou Nuno Trindade, em primeira mão, à VIVA Porto.
Atualmente, o Bó Tá Quente tem capacidade para cerca de 27 pessoas. É um espaço pequeno, com um charme muito próprio e que não fecha portas a expandir para outros lugares. No entanto, uma coisa é certa: o objetivo passará sempre por manter aberta a porta nº70 da Rua do Souto.