Revista Sabe Bem (Setembro/Outubro) - PD

Álvaro Nazareth

Álvaro Nazareth

“Vivi várias situações caricatas, desde me chamarem louco, quererem bater e homenagear, aconteceu de tudo e mais alguma coisa”.

Álvaro Nazareth nasceu na maternidade Júlio Dinis, no Porto, entre 1949 e 1950. Assume-se filho do pós-guerra mundial e recorda os tempos difíceis vividos durante o regime do Estado Novo em Portugal. Começou a trabalhar desde cedo em televisão como repórter de imagem e na rádio como locutor, sentindo na pele os desígnios da censura.

Estudou no curso de Belas Artes por influência do seu tio e encarregado de educação, mas sempre sonhou em fazer medicina. Passou pelas mais emblemáticas emissoras nacionais como o Rádio Clube Português, Emissores do Norte Reunidos, Antena 1 e Rádio Renascença.

Teve o privilegio de conhecer várias personalidades portuguesas verdadeiramente marcantes, como Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho, Pedro Homem de Melo, António Pedro e José Saramago.

Conheceu o primeiro Horus, quirólogo e astrólogo, português e escreveu, inclusive um livro sobre a sua vida e trabalho.

Em conversa com a VIVA! Álvaro Nazareth recordou este e outros projetos da sua vida, e falou um pouco sobre o estado da rádio que se faz atualmente em Portugal.

Quem é o Álvaro Nazareth, onde nasceu e cresceu?
Nasci numa época de pós-guerra (segunda guerra mundial) e sou um bocado filho dessas vicissitudes. Atravessei fases muito complicadas, pertencia a uma geração clássica, onde havia uma diferença na ligação dos pais com os filhos e dos netos com os avós. Fui também um adolescente na era dos Beatles, de Woodstock e outras coisas que foram um rebentar de comportamentos típicos.
Vivi a década de 60 e atravessei a minha adolescência no período do estado novo, com a ditadura, com proibição de qualquer tipo de comportamento na rua que motivasse dúvidas na policia de estado.
No passado não se podia brincar na rua e as pessoas viviam de uma forma paupérrima, existia o racionamento de alimentos, em que as pessoas tinham umas senhas e só podiam levantar comida tendo em conta o valor das senha, no ensino estudava-se livros com partes censuradas. Isto tudo, é sem dúvida um peso muito grande na vida de qualquer pessoa que nasceu na minha época.

Como foi o seu percurso académico? Sempre soube que queria trabalhar na rádio?
Comecei por estudar no curso de Belas Artes, por influência do meu tio, Adriano Nazareth, que era também meu encarregado de educação. O que eu queria mesmo era ir para medicina, confesso, ainda hoje tenho uma grande curiosidade. No entanto, fui para Belas Artes por sugestão dele e correu bem porque também adoro pintura, escultura e arquitetura e fui fazendo aquilo que já tinha vindo a fazer em casa.
Por outro lado, ouvia muitos programas de rádio e aquilo era um fascínio muito grande para mim. Destruía as caixas de fósforos, os compassos e criava uma mesa ou um mini estúdio. Muitas vezes estava ouvir um programa e realizá-lo ao mesmo tempo.

Trabalhou como repórter de imagem e locutor/animador de rádio. Em que altura entrou para o mundo da comunicação?
Fui para a televisão por indicação do meu tio, que na época pensou também, que o curso de Belas Artes era o que me daria a ligação para trabalhar como repórter de imagem. Ele foi o primeiro repórter de imagem no Porto, e eu ia muitas vezes com ele para algumas situações de reportagem, onde assistia àquilo que ele fazia.
Desde muito novo que aprendi a montar e a desmontar uma câmara e, aos 17 anos, como não havia ninguém disponível para ir fazer uma reportagem para a RTP, fui eu. Foi com essa idade que vi, pela primeira vez, alguma coisa filmada por mim no telejornal.
Entretanto estava a fazer o curso e estava integrado num grupo de gente, com pintores e escultores, cujas exposições só podiam ser vistas de soslaio e isso não me permitiu acabar o curso naquela altura. Acabei por ser logo colocado nas forças armadas, em Lisboa, para me preparar para ir para o ultramar, o que acabou por não acontecer.
Quando tinha 19 ou 20 anos, estava a estudar no jardim e apareceu um individuo do Rádio Clube Português a perguntar o que estava a fazer, porque já me conhecia de fazer reportagens para a RTP, e questionou a minha vontade de fazer lá um programa chamado “Clube da Juventude”. Nesse programa cada jovem daquilo falava daquilo que é a sua atividade e eu quis falar de artes plásticas.

Trabalhou em dois meios bastante diferentes, foi obrigado a optar por algum deles?
Eu fui sempre trabalhando na televisão como na rádio. Além de ser repórter de imagem fui um dos apresentadores dos primeiros programas da manhã da RTP, no Porto. Apresentei também vários telejornais e concursos, um deles era em direto, e passaram por lá várias personalidades como Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho e a Tonicha. A ideia do programa era que essas pessoas mais visíveis no país fossem falar de tudo menos daquilo que era a sua profissão.
Uma vez estava nos estúdios da RTP e houve um encontro com gentes da rádio, onde acabei por conhecer pessoalmente várias pessoas que gostava de ouvir. É aí que uma pessoa, chamada Fernando Gonçalves, me perguntou se eu queria ser locutor, e, como não consegui entrar para a RTP de forma efetiva, acabei por ir para a rádio.

Fui para os Emissores do Norte Reunidos como locutor e depois, com o falecimento do gerente dessa empresa, assumi esse cargo durante algum tempo. Com a nacionalização das rádios acabei por, em 1976, ser convidado para a RDP, a herdeira da antiga Emissora Nacional e vim para os estúdios da Antena 1. Lá fiz o percurso todo de locutor, animador de emissão, diretor de programas, até sair em 2004. Cheguei também a trabalhar na rádio Renascença.

Onde gostou mais de trabalhar, na rádio ou na televisão?
Confesso que gosto mais de rádio do que de televisão, até porque trabalhei numa época em que o apresentador de televisão era um elemento do próprio cenário, não tinha grande movimento. Hoje um apresentador de televisão não tem de se preocupar com as câmaras porque estas é que têm de o seguir. Antes nós tínhamos de nos preocupar com as câmaras, não podíamos sair de um determinado feixe de luz, eram precisos não sei quantos projetores para iluminar uma coisa de poucos metros quadrados e, por isso, estávamos um pouco limitados.
Na rádio, para mim, o grande desafio sempre foi criar imagens através dos programas e considero que fiz o melhor que pude nesse aspeto.

Que pessoas teve oportunidade de conhecer enquanto trabalhava?
Aos 17 anos era repórter de imagem e ia fazer várias festas, romarias e procissões. Ainda que fosse bastante novo sabia o que estava a fazer e tinha experiência, por isso fiz imensas reportagens, onde conheci muita gente da vida política, até gente do antigo regime que ansiava por mudança.
Tive convívios próximos em casa do Pedro Homem de Melo, em Afife, assisti-o a escrever alguns poemas em casa dele, estive com o António Pedro, fundador do teatro moderno em Portugal e que criou o Teatro Experimental do Porto. Conheci e tive excelentes conversas com o Saramago, o Jô Soares e o Jorge Amado, tendo estado com ele pela primeira vez, em Viana do Castelo, num convívio com a Amália Rodrigues.

Tem alguma história caricata com algum entrevistado ou trabalho que tenha feito e que possa contar?
Vivi várias situações caricatas, desde me chamarem louco, quererem bater, homenagear, aconteceu de tudo e mais alguma coisa.
Guardo muitas boas recordações da rádio e dos trabalhos que realizei lá. Tenho uma excelente entrevista que ainda não passei na rádio e que guardei comigo para uma primeira oportunidade. Trata-se de uma entrevista que fiz com o António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, que tinha ido para Valência e ficou barrado na fronteira, porque na altura o regime queria que o Bispo fosse substituído, mas o Vaticano não substituiu.

A entrevista foi feita quando ele voltou, passado algum tempo, para falar do primeiro ano de independência de Angola. Apesar de ser uma entrevista notável não transmiti, na época, porque iria despoletar uma série de situações, mas um dia hei-de passá-la para um jornal.
Tenho também outras entrevistas que não passei, uma do Júlio Iglesias, por exemplo, porque a entrevista já estava muito «descambada».
Outra vez, «no ar», li uma carta de um miúdo que queria ser ator de teatro e passados uns dias recebi uma outra carta de um senhor a dizer que me tinha ouvido ler aquilo e queria dar um conselho ao rapaz: nunca na vida fosse ator porque era a pior coisa que ele podia fazer. Justificou a sua afirmação dizendo que tinha sido ator e foi a pior coisa que fez na vida. Li o nome do senhor, Tomás Viegas, e o telefone da Antena 1 não parava de tocar, sem ninguém perceber.
Aquele senhor tinha sido uns dos mais notáveis atores de teatro e tinha desaparecido completamente. Então fui entrevistá-lo, era um homem que já via muito mal mas tinha uma memória fabulosa. Depois foi também entrevistado em televisão e o próprio presidente da República, na altura Ramalho Eanes, atribuiu-lhe uma comenda.
Este foi dos momentos mais interessantes que eu vivi na rádio, o facto de tê-lo conhecido e por ter proporcionado ao auditório um bom momento por aquilo que ele relembrou, por episódios da vida teatral que ele guardou para ele e outros que acabou por revelar e a maioria pessoas desconhecia.

Quais os prós e os contras de trabalhar na rádio?
Os prós da minha profissão é o facto de se tratar de um desafio constante para mim.
Confesso que hoje não gosto da rádio que ouço, mas não critico porque sei que sou de outra geração. Quando ligo o rádio noto que não há uma preparação e nós noutra altura tínhamos de passar por provas de português, cultura geral, era obrigatório falarmos francês e inglês. Reparo que agora em alguns programas de rádio algumas pessoas estão a falar como se estivessem numa sala a conversar das vidas deles e não é essa a rádio que eu entendo que deva ser feita.
As rádios locais, por exemplo, devem dar valor à região onde se inserem e não devem abrir noticiários para falar de coisas que acontecem nos Estados Unidos ou no país, é muito mais importante noticiar a conduta de água que rebentou à porta da cidade.
Acho que faz falta muita reciclagem e isso compete aos cursos de ciências da comunicação, para quem quer seguir essa profissão se aperfeiçoar melhor e servir melhor o auditório, porque há boas escolas para isso.
Dar apenas tudo aquilo que as pessoas exatamente gostam, pode fazer com que estas fiquem sem conhecer o que de melhor pode haver para além disso.

Podemos dizer que existe hoje uma banalização ou facilitismo ao fazer rádio?
Eu não fico preso no tempo nem à nostalgia. Algumas das criticas que fazia há 30 anos são as mesmas que faço atualmente em relação àquilo que aparentemente seria motivo de alguma observação da minha parte. Contudo, entendo que a rádio tem uma função pedagógica e informativa e não apenas de diversão. Nas rádios que vou escutando creio que há ali alguma falta de preparação de quem está ao microfone e que com alguma ligeireza está com uma responsabilidade imensa a falar para muita gente. Hoje tenho dificuldade em ouvir rádio, ou porque tem excesso de palavra ou tem música que não tem um fio condutor. Por outro lado, na informação considero que há muitos bons jornalistas de rádio, ouço muitos jovens a fazer bons noticiários, portanto neste domínio eu acho que há uma qualidade que é de preservar.

Como é que olha para o futuro da rádio?
A rádio é insubstituível, desde logo porque tem uma grande vantagem, nós ouvindo rádio podemos fazer outra coisa qualquer ao mesmo tempo. É uma excelente companhia, onde milhões de pessoas estão a ouvir rádio, principalmente os programas da manhã, que são as primeiras informações que ouvimos.
Em Portugal, a rádio mudou muito, até porque se recuarmos aos anos antes do 25 de abril, havia muita censura. Existiam discos em que as faixas estavam riscadas com um prego para ninguém poder passar aquelas músicas e outros tantos que estavam proibidos. Eu como trabalhei na Renascença, por exemplo, também me recordo que o disco da Simone de Oliveira, com a «Desfolhada» era proibido. Nós próprios tínhamos uma reserva e cuidado em passar alguma coisa.
Antes da revolução, se um individuo dizia alguma coisa no programa de rádio que não devia, era despedido na hora seguinte sem argumentos e sindicatos. Tínhamos que gerir tudo com pinças para não termos problemas e não sermos subservientes, porque creio que isso seria ainda pior.

Além de trabalhar na rádio e televisão foi também professor. Conte-nos um pouco dessa experiência experiência.
Foi um desafio interessante para mim e que abracei com muito entusiasmo apesar de envolver muita preparação e ter outros projetos ao mesmo tempo. Pude despertar a minha vontade de aprender com os próprios alunos e percorremos juntos caminhos de busca. Dava todas as aulas ao sábado, para poder conciliar com outros trabalhos, a alunos do 10º, 11º e 12º ano, no curso de comunicação, marketing e publicidade. Falávamos de história da arte, geometria, cinema e teatro.

Esteve também na direção do Clube Fenianos Portuenses. Como surgiu esse projeto?
Eu conhecia os Fenianos desde pequeno porque o meu tio era sócio e aos domingos levava para lá uma máquina de projetar para a miudagem do clube assistir aos filmes. Entretanto fui me afastando do clube e anos mais tarde, estava na Antena 1, precisava de um local para fazer a festa de Natal com as pessoas da RDP e lembrei-me dos Fenianos. Todos foram muito simpáticos, consegui fazer lá uma festa e passados uns tempos recebi uma chamada do clube a perguntar se queria integrar uma direção.
Com todo o gosto integrei a direção de dois anos, em que me solicitaram para fazer parte da área da cultura e dinamizar o clube nesse domínio. No fim do mandato, uma vez que o presidente na época não queria continuar, algumas pessoas queriam nomear-me presidente da direção dos Fenianos.
Ao inicio hesitei muito porque tinha outros projetos ao mesmo tempo, mas foi um desafio e aceitei o cargo, acabando por ter lá estado por vários mandatos consecutivos.
Fiz um pausa durante três anos e depois decidi voltar para acabar aquilo que tinha começado, que foi fazer as obras de recuperação do edifício. Reanimamos o clube, o teatro, decoramos novamente o salão nobre, consegui edificar um museu de magia e para assinalarmos os cem anos ousei pedir ao, então Presidente da República, Jorge Sampaio para vir ao clube encerrar as cerimónias de celebração, que aceitou.

Falando no seu livro «Professor Horus – Viajante no Tempo». Porque é que decidiu escrever sobre Raul Lourenço Lapa?
O Raul Lourenço Lapa era quirólogo e astrólogo e foi também meu tio por afinidade porque a sua esposa, Delfina Lapa, era irmã da minha sogra. Conheci-o pessoalmente no dia do meu casamento. Na altura ele já era Horus, todos os meus familiares e amigos andavam atrás dele e, de facto, ele definiu exatamente vários futuros que encontrou nas palmas das mãos.
Eu próprio conversei com ele muitas vezes, até que uma vez estava em Lisboa no exercito, sem saber se iria para o ultramar, mesmo tendo noção de que toda a gente ia naquela altura. O Raul Lourenço Lapa olhou para as minhas mãos e disse para ficar tranquilo que não vou. Fiquei sem perceber como isso seria possível, mas a verdade é que no momento em que estava mobilizado para ir para, há uma situação qualquer que envolve a suspensão da minha ida e foram os colegas que chegaram depois para integrar o meu curso.
Isto deixou-me a pensar no assunto, assim como em outras coisas que ele tinha previsto e passados 10 anos do seu falecimento, a sua esposa estava com muita pena que ninguém tivesse escrito um livro sobre ele.
Diferentes pessoas estavam a tentar escrever um livro sobre o Raul Lourenço Lapa, mas acabaram por nunca dar continuidade. A minha tia, preocupada, dizia que ninguém se ia lembrar do Horus e sugeriu que fosse eu a escrever. Eu aceitei e escrevi o livro num tom informal e ligeiro, embora não tenha escrito tudo aquilo que queria, porque a esposa dele pediu-me para que eu não adiantasse muito sobre as questões que o levaram à «chamada adivinhação».

O que podemos encontrar neste livro?
O livro fala sobre aquilo que eu conheci, de forma direta e em conversa com outras pessoas, do Raul e da sua vida enquanto o primeiro quirólogo português. Escrevo também sobre o facto de ele ter descrito o 25 de abril, que viria a acontecer passados 20 dias, sendo isso também um dos fatores que me levaram a escrever o livro.

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